Criticrônicas

Um dia de louco

Acredito que todos nós, com o tempo, adquirimos pelo menos uma mania, o que, apesar de parecer coisa de louco, entendo como coisa normal. Mania é diferente de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), é mais um hábito que a gente curte.

Uma das minhas manias é tentar adivinhar a hora quando me levanto todas as manhãs. Evidentemente, há uma lógica nisso. Observo a posição do sol quando olho a janela do banheiro que fica no final do corredor, primeiro e inevitável caminho que percorro diariamente. Por exemplo, no inverno, sei que é por volta de uma da tarde quando o sol está tomando conta do box de banho, assim como sei que se o sol está entrando pela janela lateral da cozinha, na mesma época, clareando seu lado esquerdo, são cerca de sete da manhã. O sol percorre toda a lateral da casa, desde cedo até o anoitecer.

Hoje, porém, tive uma noite no mínimo diferente.

velho_tocandoNeste último fim de semana me permiti alguns abusos, deixando-me levar pela nostalgia, repassando músicas antigas com meu violão. Uso isso como terapia, para esquecer as preocupações, e acabo me esquecendo também do tempo. Não sei exatamente que horas eram quando cedi ao sono, mas devia estar amanhecendo, pois eram cerca de três da tarde quando acordei, no domingo. Me condeno quando isso acontece porque sei que muitos me criticariam por isto, já que me criticam por muito menos. Enfim, fiquei preocupado porque certamente teria dificuldade para acertar meu “fuso-horário” na noite seguinte.

De fato, por ter dormido demais, o sono demorou para voltar. Durante um bom tempo tentei um acordo entre meu corpo e a cama, ambos se estranhando…

Sonhando durante o sono

Uma coisa que me incomoda muito é sonhar durante o sono. Gosto de sonhar acordado, tendo controle sobre meus sonhos, mas, à noite geralmente tenho pesadelos que me parecem infindáveis; acordo com uma sensação ruim, de estresse.

O sonho desta noite, até onde me lembro, começou com meu neto postiço, Cauan. Lembro-me apenas da última cena, com ele caído inerte no chão, como se tivesse sofrido uma queda ou acidente. Fiquei apavorado. Queria avisar seus pais, mas não sabia onde encontrá-los. Por algum motivo, me sentia culpado pelo que acontecera, embora não soubesse o que era. Era como um filme antigo, em preto e branco.

Depois, já com tudo colorido, eu caminhava pelo canteiro lateral de uma larga avenida quando vi um pequeno avião cair sobre a cobertura de um posto de combustíveis que ficava numa das pistas centrais. Não houve mortes, o avião estava vazio e a queda havia sido cuidadosamente planejada. Um outro avião, que o rebocava, o havia soltado ali a pedido do dono do posto, que era um ex-colega meu, agora riquíssimo.

loiraFoi estranho reencontrá-lo depois de tantos anos e ainda nos lembrarmos dos tempos de escola. Ele não havia envelhecido como eu, e certamente nem era tão pobre. Sorrindo, apesar do prejuízo causado pelo avião e com o próprio veículo, ele orientava um empregado para que servisse uma refeição para a moça que acabara de fazer a faxina no posto. Era uma loira lindíssima, com traços suaves, usando uma blusa branca de renda e uma saia justa que parecia ser de couro, na cor preta.

De repente, o sol forte desapareceu e a noite começou a cair. Talvez meu subconsciente tenha provocado isso, para dar mais sentido à refeição solicitada, afinal, isto aconteceria no fim do dia de trabalho da tal faxineira.

Foi aí que meu amigo, cujo nome não sei, me fez um pedido:

— Devido a todo esse tumulto, será que você poderia me fazer o grande favor de levar esta moça até sua casa?

Fui pego de surpresa, até porque não teria como levá-la, a menos que fosse nos ombros. Ele me disse que a moça morava num bairro chamado Lorena, que ficava a uma hora de distância, quase em Guaratinguetá. Isso me fez perder a noção de onde estava.

Nesse ínterim, a moça agradeceu pela refeição e devolveu seu prato quase sem tocar no alimento. Imediatamente, me propus a me desfazer daquilo, buscando um recipiente de lixo na área dos fundos, um local menos iluminado. E ali saboreei a delícia do prato, composto por um enorme e suculento pedaço de carne como há muito eu não comia. Maravilhoso.

Ainda extasiado com o prazer daquela refeição, digna de um rei, pedi desculpas ao dono do posto, explicando-lhe que não poderia atendê-lo porque não tinha um carro. Ele, então, sacudiu um molho de chaves, sugerindo que eu usasse o dele, uma Lamborghini, talvez, ou Ferrari, não sei dizer exatamente. Sei apenas que era um tremendo carro esportivo que brilhava até no escuro.

Acho que fui acordado pelo peso da minha consciência, incomodada com tantos erros num único sonho. Para ela (meu “grilo falante”), não era correto aceitar com naturalidade todos aqueles acontecimentos, tanto desperdício e tentações, além da inércia diante do que havia acontecido com o pequeno Cauan. Estava tudo errado, por mais certo que parecesse. Então, abri os olhos.

sonambuloLevantei-me razoavelmente bem disposto e satisfeito com aquelas horas de sono, mas, a caminho do banheiro, senti falta do sol. Tive a sensação de que havia dormido o dia todo e que o sol já estava se escondendo. Novamente a sensação de culpa: “— Nossa, perdi um dia dormindo!”. O relógio acusava cinco e meia! Por sorte não havia contas a pagar, pois os bancos já estariam fechados. E seria ainda mais difícil recuperar o ciclo normal do sono, pois eu teria que voltar a dormir dentro de poucas horas para acordar cedo na manhã seguinte, e, tendo dormido tanto, isso seria quase impossível.

Liguei o computador para ver as notícias do dia. Queria saber o que eu havia perdido.

Li sobre o falecimento de Antônio Ermírio de Moraes, a quem eu admirava. Um verdadeiro trabalhador. Soube que tinha nove filhos. Mas, nada sobre os fatos políticos.

Veio-me à lembrança a participação dele na disputa pela Presidência da República. Apesar de milionário, era um homem sem elegância no vestir, não tinha essa vaidade, e talvez nenhuma outra.

Sonhando acordado

Como o momento é de campanha para eleição de um novo – ou reeleição da mesma – Presidente, os pensamentos sobre o Brasil voltaram a tomar conta da minha cabeça.

Penso que a melhor solução para o Brasil seria diminuir seu tamanho. Essa “extensão territorial” tão falada por tantos só nos traz problemas. Não é fácil administrar um país tão grande e tão cheio de contrastes. Somos, na verdade, várias Nações ocupadas por vários povos, com dialetos diferentes, costumes diferentes e valores diversos. Talvez a melhor maneira de organizar um país como o nosso fosse dividi-lo como um grande armário, em várias repartições distintas e maior número de compartimentos para separar seus conteúdos de acordo com sua classificação. Temos Estados grandes demais e outros pequenos demais; regiões que trabalham muito e regiões que pouco produzem; áreas apropriadas para exploração turística e uma enorme quantidade de terras inúteis; gente séria e gente safada.

Dividir o Brasil não é um pensamento ruim. Isto poderia resolver, por exemplo, os problemas de disputa pelo mais alto cargo de comando. Supondo que dividíssemos nosso vasto território em quatro partes, transformando cada uma delas num novo país, criaríamos quatro vagas para Presidentes, imaginando que cada país preservasse o atual sistema de governo.

“Isto seria injusto”, dirão alguns, sentindo-se desamparados. Na verdade, seria mais justo do que é hoje. Senão, vejamos:

O Brasil Norte

brasil_norteEm princípio composto pelos Estados do Acre, Rondônia, Amazonas, Roraima Amapá e Pará, isto é, com os dois maiores Estados em área territorial, o Brasil Norte teria como vizinhos as Guianas, a Venezuela, a Colômbia, o Peru e a Bolívia, sendo todos eles próximos de Cuba. É lá que está a Zona Franca brasileira e o maior espaço para a criação de novos Estados e Municípios. A região também é privilegiada por sua mata, considerada “o pulmão do mundo” e laboratório para várias experiências e exploração estrangeira. Tudo isso faz do Brasil Norte a região ideal para abrigar o PT, devido às suas relações internacionais preferidas e seu desejo de vender o ar às pessoas. Esse novo país nasceria com seis Estados, mas com enormes possibilidades de criar muitos outros, favorecendo os correligionários do partido. Além de todas as vantagens, seria muito mais fácil para esse novo país alcançar o Oceano Pacífico.

Apesar do que encontramos hoje no Maranhão, esse Estado foi agregado ao Brasil Nordeste porque ainda acreditamos em sua recuperação.

O Brasil Nordeste

brasil_nordesteFormado pelos Estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro, esse novo país mostra grande potencial turístico, reunindo, provavelmente, as praias mais lindas. Considerando a extensão de cada Estado, hoje, seria apropriado reduzi-los, talvez unificando os cinco que ficam no extremo leste, e também os dois mais ao Sul. Seria um país que, devido ao clima excelente e à sua proximidade com a Europa, poderia se transformar numa nova Califórnia.

O Brasil Nordeste faria fronteiras com os Brasis Norte, Central e Sul (este último apenas numa pequena extensão), além do Oceano Atlântico.

O Brasil Central

brasil_centralContando com grandes Estados, que poderiam ser subdivididos com a desapropriação de muitas fazendas, o Brasil Central teria condições de se transformar no celeiro da América do Sul, produzindo praticamente todo o alimento necessário para suprir seus vizinhos, o que garantiria sua economia. Goiânia poderia ser transformada numa nova Nashville, concentrando todas as duplas sertanejas, promovendo feiras, festivais, rodeios, enfim, tudo que se refere ao segmento agropecuário, atraindo pessoas de todo o mundo que apreciam esse tipo de coisas.

O Brasil Central seria privilegiado com o acesso a seus vizinhos, a Bolívia e o Paraguai, mantendo suas tendências de importação.

O Brasil Sul

brasil_sulFormado pelos Estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, esse novo país conservaria suas fronteiras com o Paraguai, Argentina e Paraguai. Devido à sua tradição, concentraria as sedes das principais empresas, as melhores faculdades e manteria sua população fazendo o que mais sabe fazer: trabalhando.

Preservação das divisas

Obviamente, não é uma sugestão rígida. Caberiam os ajustes necessários e as considerações de cada região. Opcionalmente, o Rio de Janeiro poderia ser um território independente, a Hollywood sul americana.

Havemos de convir que as vantagens seriam inegáveis. Cada novo país ficaria livre para escolher seu regime político, e cada habitante, em cada um dos países, teria liberdade para escolher em qual deles viver. Uma vez feita a opção, seria necessário obter o visto de autorização para migrar para qualquer dos demais. Em contrapartida, seria assegurado a cada país o direito de deportar para qualquer de seus vizinhos as pessoas que não se adequassem aos seus padrões internos, colocando-as em convívio com a população com a qual apresentasse mais afinidade.

novo_mapa

Se, por um lado, cada país perderia alguma vantagem, por outro, muitas outras surgiriam com sua independência. Os transportes seriam mais baratos dentro de suas fronteiras, e mais caros para as viagens internacionais. Poderíamos até praticar o intercâmbio cultural, com períodos determinados, o que garantiria a absorção de conhecimentos a cada povo. Certamente seríamos todos mais felizes. Afinal, se o Nordeste tem preferência por Dilma Rousseff, por que o Sudeste que a rejeita tanto e tem o maior contingente eleitoral do Brasil atual é obrigado a tê-la como Presidente? Poderíamos ter Dilma como Presidente do Brasil Nordeste; Aécio Neves como Presidente do Brasil Central; Marina Silva como Presidente do Brasil Norte, atendendo às suas aspirações. O Brasil Sul poderia escolher entre outros candidatos!

Acordando pra valer

Bem, depois de registrar o que passou pela minha cabeça nos primeiros momentos depois de acordar, percebi que o relógio marcava cinco e meia da manhã de segunda-feira. Que bom, ganhei um dia! Fiquei aliviado ao ver que o sonho da madrugada foi apenas um sonho. Por outro lado, me frustrei um pouco quando despertei do sonho que tive acordado…

O Brasil é realmente grande demais para certas coisas, mas tem o tamanho certo para ser vários países e distribuir as populações de acordo com suas preferências, pois, do jeito que a coisa está, o Brasil parece pequeno demais para uma convivência harmoniosa com certas pessoas. Sinceramente, eu gostaria de acordar e ver que tudo isso é apenas um pesadelo.

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