Arquivo morto

Quanta falta você faz?

Meu amigo, minha amiga, eu recomendo a todas as pessoas que já passaram a marca dos trinta anos. E mais: acho imprescindível para quem já passou dos cinquenta. É melhor que yoga, psicanálise, exercícios físicos, melhor que um porre por qualquer motivo (ou sem), melhor que assistir a um bom filme ou ouvir conselhos de quem pensa que conhece você. Pare, ponha-se sozinho(a) num local vazio, olhe para dentro de si e responda: de que tamanho é a falta que sentem de você?

Calma, não comece a se perguntar ainda. O processo não é tão simples. Ele começa com outra pergunta: “Quantas pessoas sentem realmente a sua falta?” Vamos lá, conte.

Quantas pessoas telefonam para você regularmente apenas para saber como você está, para dizer que estão com saudades ou quanto você é importante para elas, ou se está precisando de alguma coisa? Ligação de mãe não vale. Mãe é mãe. Chamadas de quem não tem nada melhor para fazer e nada para dizer também não marcam ponto, mostram apenas que você foi a única coisa que sobrou para matar o tempo vazio.

Quem, entre todas as pessoas que você conhece, prepara um jantar ou um churrasco só para usufruir da sua presença?

Se você tem piscina em casa, conte apenas um terço das pessoas que vieram à sua mente. Os outros dois terços são amigos da sua piscina.

Quanto tempo faz que alguém não convida você para um happy hour sem o interesse de ver outra(s) pessoa(s) ou dividir a conta? As pessoas que dizem sentir a sua falta não lhe pedem nada quando o(a) encontram? Sabe aquele favorzinho para o qual você preferiria não ser lembrado? Então, coisas desse tipo…

Você já experimentou passar um tempo sem procurar seus amigos para ver quem é que toma a iniciativa de procurá-lo(a)? Namorado(a) não conta.

O fato é que existe um monte de gente que se gaba de ter estourado o limite de amigos nas redes sociais, mas não tem amigos de carne e osso, de coração, para todas as horas, as melhores e as piores.

A grande verdade é que chega um momento em que a gente percebe que dá para contar os amigos na metade dos dedos da mão esquerda do Lula, e talvez ainda sobre dedo. E estamos falando apenas de amigos, não de quem realmente AMA você, aqueles que se ofereceriam para doar uma parte de seus corpos para completar o seu, se fosse preciso.

O melhor teste que você pode fazer para ter a resposta é morar sozinho. Nesse caso, me refiro especificamente aos homens. Mulheres que moram sozinhas sempre encontram candidatos que querem visitá-las. Ahá! Mas eles não sentem falta delas, querem somente aproveitar sua suscetibilidade (ou, sob o ponto de vista masculino, sua disponibilidade).

Caça e caçador(a)

Um grupo de homens ou mulheres desacompanhados(as) de figuras do sexo oposto constitui-se, a princípio, como caça ou como caçadores(as). Entre seus membros, na presença de representantes do sexo oposto, haverá muitas risadas, vozes elevadas e outros comportamentos que denotam a necessidade de se mostrar. Isso torna o ser humano um tanto ridículo, pois o diferencia das outras espécies que se escondem o quanto podem quando caçam. Na nossa espécie, ao contrário, o caçador se expõe ao máximo para ser notado. E ri como uma hiena sem ter motivo, pois, segundo um aprofundado estudo, a manifestação de alegria nos atrai, especialmente na juventude.

Caçadores do sexo masculino esforçam-se para escolher suas roupas de modo a causar a impressão de serem mais ricos do que realmente são, enquanto as caçadoras se vestem para seduzir a caça. Quanto menos roupa, mais sucesso conseguem. E, por incrível que pareça, suas menores roupas são as mais caras.

Quando se encontram, saia de perto. Já diz a letra da música: “… o amor não tem que ser uma estória com princípio, meio e fim”. No dia seguinte talvez nem se lembrem dos detalhes.

Chega um dia, porém, em que caça e caçador(a) se sentem presos pela paixão. É nessa fase que se sentirão menos sozinhos, e exatamente quando estiverem a sós! Será como se o resto da Humanidade não existisse. Os amigos não farão falta; os pais, menos ainda. Irmãos??? Nem pensar! Se esquecerão da fome, da sede, do sono, procurarão se saciar da companhia do outro, e isso lhes parecerá o bastante. Que se danem os bens materiais, estarão dispostos a viver numa cabana, alimentados de amor.

Há quem invista verdadeira fortuna para mostrar ao mundo que conseguiu alcançar o dia mais importante de suas vidas. Mandarão confeccionar os convites mais chiques que puderem e distribui-los-ão (esta palavra é importantíssima!) com toda pompa ao maior número de pessoas que conseguirem bancar (o número de convidados varia de acordo com o potencial econômico, acima de tudo). Contratarão músicos, cantores, tocadores de trombetas, o mais cobiçado salão, a mais disputada igreja ou templo, alugarão uma limusine, escolherão suas músicas prediletas, passarão meses preocupados com a roupa a ser usada no grande dia, pensarão em flores como nunca pensaram antes, experimentarão delícias artesanais e bebidas exóticas que serão servidas para brindar sua união. Os mais amigos serão chamados como testemunhas principais e ocuparão os lugares mais próximos, em pé, para exibir suas roupas parecidas. Quebrarão tradições, alegando não querer magoar ninguém, e convidarão dez, doze, vinte casais para ocupar essas posições. De cada lado. Promoverão a maior festa de todas, como se nela fosse possível transformar até as personalidades e ninguém ousasse guardar um pouco de tantos bocados dentro da bolsa ou carregar os enfeites para casa. Todos farão de conta que estão sentindo tamanha felicidade em suas próprias peles, evitando deixar transparecer quanto os sapatos lhes apertam os pés. Haverá fotógrafos, cinegrafistas, serviçais, damas de honra, lencinhos com monogramas para conter as lágrimas, cafés de várias origens e aromas.

Tudo para um único e inesquecível dia em suas vidas.

O maior inimigo

Durante o período que antecede o grande evento, essas pessoas – a caça e o(a) caçador(a) – contarão regressivamente os dias que os separam da esperada fusão de suas existências, sem se dar conta de quão rápido eles passam. De repente, aquele dia já passou, tudo aconteceu tão rapidamente que mal deu para perceber!

E, de repente, não mais que de repente, outros dias passarão; meses, anos… O vento do tempo mudará suas formas, roubará seu brilho, espalhará suas sementes, que germinarão e se tornarão frutos; mudará a cor de seus cabelos, marcará seus rostos…

E cada um deles voltará a se sentir só, pois a vida distribui ilusão (eis aqui a importância daquela palavra deixada lá em cima).

Quanta falta você faz?

Se você não sabe, prepare-se, pois chegará o dia em que você perceberá que talvez seja o único a sentir falta de si mesmo.

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