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Debate dos presidenciáveis

Acaba de ser transmitido pela TV Bandeirantes o primeiro debate entre sete candidatos à Presidência da República. Foram escolhidos os considerados “principais candidatos”, segundo as pesquisas de opinião.

Fato de interesse nacional, é certo que a audiência não foi significativa, visto que o povo brasileiro não é dado à discussão da política, e além disso, há que se considerar o avançado da hora. Porém, para criticar a política é preciso conhecê-la e participar dela.

Apresentaram-se, durante cerca de duas horas e meia, os candidatos Dilma Rousseff (PT), Marina Silva (PSB), Aécio Neves (PSDB), Eduardo Jorge (PV), Luciana Genro (PSOL), Levy Fidelix (PRTB) e Pastor Everaldo (PSC). Cabe destaque à organização do debate, conduzido por Ricardo Boechat.

A condição necessária para que eu tenha a liberdade de comentar o evento foi assegurada com a devida preparação emocional, a fim de fazê-lo com total isenção, o que não foi difícil, pois não tenho preferência por nenhum dos candidatos. Coloquei-me diante da TV no horário marcado para extrair do programa o máximo de informação que pudesse me servir para fazer uma escolha. Porém, isto não foi suficiente. Ajudou, sim, para que eu soubesse a quem não devo dar o meu voto.

Posicionamento dos candidatos

Ficou evidente que Dilma Rousseff esteve ali como alvo de críticas de todos os demais candidatos e, também, de todos os jornalistas. Sendo a atual Presidente, ela era a única que tem “telhado de vidro”. Nenhum dos outros ocupou o cargo que ela ocupa e, portanto, não poderiam ser avaliados pelo que já fizeram ou não. Entretanto, as críticas foram tantas que é impossível negar que houve motivos para que fosse assim.

Dilma Rousseff

dilma_debateDilma perdeu o crédito e a confiança da população e é inegável que só se mantém em primeiro lugar nas pesquisas devido aos programas assistencialistas que suprem as necessidades básicas das classes mais miseráveis do país. Porém, continua mentindo sobre a situação econômica do país, fugindo de respostas diretas sobre as suspeitas de desvio de dinheiro na Petrobras, maquiando números sobre o desemprego e tentando justificar as remessas de dinheiro público para Cuba e alguns países africanos com o falso pretexto de que isso trará vantagens ao Brasil.

Em diversas oportunidades, desferiu críticas contra o governo de Fernando Henrique Cardoso, recebendo respostas desconcertantes de Aécio Neves e sendo obrigada a ouvir de outros candidatos que a estabilidade econômica encontrada por Lula em seu primeiro mandato foi decorrente das medidas econômicas adotadas por seu antecessor, ao contrário do que prega o PT quando assume para si aquele feito, embora tenha se posicionado totalmente contra a política econômica implantada por FHC.

Uma das coisas que me incomodam muito em Dilma Rousseff é sua postura arrogante. Não gosto de seu nariz empinado, de suas enrolações nas respostas, de suas mentiras. Humildade de vez em quando não mata ninguém.

Luciana Genro

luciana_debateCom seu impecável sotaque gaúcho, dirigindo-se a Dilma Rousseff sempre na segunda pessoa do singular, Luciana mostrou um perfil que se encaixa melhor nos moldes do PSTU, faltando apenas repetir o jargão “contra burguês vote 16”. Deixou claro que, se eleita, bateria de frente nos “poderosos”, especialmente nos bancos. Em sua visão, quem tem dinheiro não presta e tem que ser combatido. Não discordo dela quando afirma que os bancos ganham demais e mandam mais do que devem na condução da política econômica, que a elevação dos juros é de interesse dos especuladores, mas, mantenho minha posição de equilíbrio: todo fanatismo é ruim. Quando se deseja destruir uma camada da sociedade, qualquer que seja, com tanta veemência, surge o risco de cometer graves erros.

Além de colocar os bancos em sua mira, ela deixa claro seu posicionamento a favor do aborto e da descriminalização da maconha, afirmando, ainda, que Marina, Dilma e Aécio representam a mesma coisa e mantêm suas ideias sobre economia apoiadas no tripé criado no governo FHC, que favorece os poderosos.

Pastor Everaldo

everaldo_debateMinha impressão sobre o Pastor Everaldo é de que ele parece olhar muito para o próprio umbigo, considerando-se um exemplo a ser seguido por todos os brasileiros. A despeito de sua origem humilde e dos sacrifícios que possa ter feito desde cedo, sua história não difere da de muitos outros brasileiros que escolheram outras carreiras. Colocando-se como criador do embrião da Bolsa-família, no Rio de Janeiro, evitou responder com clareza a pergunta que lhe foi feita por um dos jornalistas sobre os programas assistencialistas e “escorregou” no Português quando disse “seje” em vez de “seja”, sendo imediatamente criticado nas redes sociais (inclusive por mim).

Como principal bandeira de campanha o Pastor Everaldo promete isentar do imposto de renda na fonte os trabalhadores que ganham até cinco mil reais. Sendo um homem religioso, seu posicionamento é radical em relação à descriminalização da maconha, aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo e outros assuntos que ferem seus princípios religiosos.

Aécio Neves

aecio_debateA despeito das cutucadas, vindas principalmente da atual Presidente de de Marina Silva, o Senador e candidato Aécio Neves mostrou absoluta tranquilidade, fazendo lembrar, até no jeito de falar, o ex-Presidente FHC, mas também se mostrou escorregadio algumas vezes, deixando para seu minuto e meio final para falar que o respeitado economista Armínio Fraga, um dos responsáveis pela criação do Plano Real, será nomeado Ministro da Fazenda em seu governo, caso seja eleito.

Sua campanha apoia-se em sua experiência de dois mandatos como governador de Minas Gerais, especialmente com o programa “Poupança Jovem” que garante uma bolsa de mil reais por ano como estímulo à permanência dos jovens na escola. Considerando os moldes desse programa, que prevê o pagamento da bolsa anualmente, penso que há o risco de, além da bolsas assistencialistas já existentes, isso pode se tornar mais um ralo de escoamento de dinheiro sem gerar os resultados esperados, uma vez que a Educação está falida no Brasil.

Marina Silva

marina_debateConfesso que a candidata me surpreendeu com várias de suas respostas, por exemplo, ao se colocar aberta à aproximação de representantes políticos de todos os partidos para garantir a unificação do país – uma postura positiva, na minha opinião – ou quando disse que vai resgatar pessoas de alto valor e dar a elas a oportunidade que merecem em seu governo. Como exemplos, Marina citou os senadores Pedro Simon e Eduardo Suplicy (este deveria continuar em seu sarcófago, no meu ponto de vista).

Não encontrei modéstia na candidata. Em suas respostas houve muito “eu” e nenhum “nós”, embora nem todas as colocações refletissem a verdade absoluta. Ao contrário do Pastor Everaldo, embora religiosa, Marina se disse aberta aos temas considerados “pecaminosos” e prometeu uma efetiva mudança na política brasileira. Só não explicou como fará isso caso não tenha o apoio da maioria no Congresso Nacional.

A despeito da boa impressão causada por suas respostas, Marina também escorregou no Português quando disse que vai garantir que nenhum brasileiro “perda” o que conquistou. Já a sua imagem não me deixa tranquilo, dando-me a sensação de que ela conduz tudo na base do chicote.

Eduardo Jorge

edjorge_debateApesar de sua aparência simplória, o médico Eduardo Jorge foi surpreendente em várias oportunidades, demonstrando grande desprendimento ao reconhecer que não será eleito, mas que seu partido é necessário. Sem pompas, inclusive na maneira de se vestir, é, sem dúvida, quem está mais próximo da realidade da maioria dos eleitores. Espirituoso, usou seu bom humor para deixar um clima leve nas discussões, mas também soube impor seus pontos de vista, discordando de Aécio Neves e de Marina Silva, especialmente quando retrucou à colocação jocosa desta candidata quando ela afirmou que não se leva a política na base do “paz e amor”.

Por outro lado, esse perfil “leve” me fez lembrar de Eduardo Suplicy e suas cenas ridículas, como portar uma máscara numa antiga campanha política e vestir uma cueca vermelha sobre o terno nas dependências do Senado, ou, mais recentemente, participando do modismo de tomar “banho” com um balde de gelo. Desculpe, mas, para mim, político tem que ser sério e conhecer os limites da permissividade.

Levi Fidelix

levy_debateEste candidato é conhecido por sua participação constante em campanhas políticas de qualquer instância e por sua fixação por trens-bala (aerotrem). Sempre recebeu uma quantidade inexpressiva de votos. Entretanto, Levy Fidelix mostrou que está a par do que acontece nos meios políticos, principalmente em relação à economia do país. Estava amparado por informações bem atualizadas, fez bons discursos, críticas contundentes e sugestões interessantes. Infelizmente, mais uma vez receberá uma quantidade ínfima de votos porque nunca teve chance de mostrar o que conhece, talvez até por ter associado sua imagem a um único projeto, o do aerotrem.

Levy Fidelix é, a meu ver, o exemplo perfeito de que não se chega ao poder sem amparo de gente muito importante ou de massas manobráveis, ainda que tenha bom potencial para fazer algo de bom pelo país. E, a propósito, não percebi nenhum erro de Português em suas falas. Foi o único que escapou desta crítica. Ele é formado em Comunicação Social.

Conclusão

Se havia muitas dúvidas no início do debate, agora posso dizer que elas se resumem a um número bem menor, sendo mais fácil escolher a quem darei meu voto. E não é difícil perceber a quem não o darei. Valeu a pena ter assistido ao debate. Quem perdeu deve procurar mais informações que possam ajudar a escolher, se não o mais indicado, o(a) candidato(a) menos ruim.

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