Comportamento

Pela metade

Havia precariedade em muitas coisas, a tecnologia não era tão avançada e durante muitos anos sofremos com uma inflação absurda que corroía nosso dinheiro da noite para o dia. Sim, muitas coisas nos pareciam sinais do fim do mundo, e os mais pessimistas olhavam para o céu como se esperassem a chegada repentina dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse em meio a nuvens de fogo. Duas décadas antes, éramos capazes de vislumbrar um futuro de muitas facilidades, antecipando a realidade que chegaria mais rápido do que podíamos supor quando nos arriscávamos a prever a criação de microcomputadores domésticos.

Vivenciamos a mudança de milênio preocupados com os efeitos de um “bug” que poderia afetar nossas rotinas e causar graves danos às empresas de todo o mundo. Superstição, palpite ou simples imaginário, aquilo nos parecia mais grave que a inflação de mais de 80% por mês que já parecia controlada. Todavia, alguma coisa escapava aos nossos olhos, e nem os mais conceituados cientistas haviam detectado. Estava em curso uma mudança que transformaria nossas vidas num inferno, a do comportamento dos brasileiros.

A percepção

Em 2012, tive a oportunidade de passar alguns meses numa pequena cidade do interior paulista, onde reencontrei um velho amigo, da Capital. Ambos estávamos lá pelo mesmo motivo, a trabalho, na mesma empresa. Durante os três primeiros meses, alojamo-nos num hotel, talvez o único que oferecesse condições razoáveis de permanência. Tínhamos algum tempo para conhecer o lugarejo, o que não seria difícil, dado ao seu tamanho e opções. Éramos ciceronados pelos colegas que ali moravam e tudo conheciam.

Acostumados à vida em cidades maiores, a primeira diferença que sentimos foi a de hábitos comerciais. Na área de alimentação, praticamente nada funcionava às segundas-feiras. Era o descanso semanal. Nos demais dias, era preciso nos preocupar com os horários, pois tudo fechava cedo. Percebemos isso quando encontramos uma padaria fechada pouco depois das seis da tarde… O maior movimento acontecia às sextas-feiras com o “footing moderno”. Os rapazes percorriam a rua principal, indo e voltando com seus carros, equipados com potentes alto-falantes a todo volume, para paquerar as meninas (algumas nem tanto) que com eles flertavam à distância, sentadas nos bancos de bares. Na praça central, as esquinas eram pontos de observação de outros grupos masculinos, cada qual em uma esquina, com seus respectivos veículos também sonorizados, tocando em diferentes ritmos, todos de mau gosto.

7pecadosCom o tempo, notamos que havia um padrão no atendimento aos clientes, se não em todos os estabelecimentos, na maioria, sem dúvida: era horrível! Sabíamos que os empregados não eram os culpados, faltava-lhes treinamento e supervisão. Não havia sequer onde pudessem aprender o que lhes faltava. Dos pecados listados ao lado, os de números 2, 4, 5 e 7 eram os mais comuns.

Talvez os demais fossem cometidos por seus proprietários, causando os citados acima.

meio-bracoHouve uma vez em que, cansado de ser mal atendido, fiz um gesto que foi prontamente captado pelo meu amigo e colega Otávio. Colocando o braço esquerdo à frente, em posição horizontal, imitei com a mão direita em movimentos de vai-e-vem a ação de um serrote. Ele reagiu, expressando em palavras o que eu queria dizer: “Tudo pela metade!“.

A contaminação

No final daquele ano voltamos aos nossos lares, e, mais afiados, começamos a perceber que o “pela-metade” pode ser um vírus que está se propagando rapidamente. E passamos a analisar os principais sintomas do contágio.

  1. As pessoas trabalham por obrigação e acham que seus empregos são um castigo desmerecido; e se revoltam, descontando nas pessoas que as procuram para fazer o mais odeiam.
  2. Os comerciantes e prestadores de serviços receberam seus estabelecimentos como presentes de pais ricos, ou por herança, e não sabem como lidar com aquilo. Nem pensavam em fazê-lo.
  3. Os estabelecimentos que funcionam bem em determinados dias e mal em outros dias possuem pelo menos dois sócios que imprimem àqueles locais suas características pessoais quando estão no comando.
  4. O empregado é parente do dono e tem certeza de que não será demitido por não se adequar aos padrões de qualidade que o estabelecimento deveria manter.
  5. O empregado quer criar um motivo para ser demitido e receber sua indenização e o auxílio-desemprego.

O caminho mais difícil

“Farei o melhor que posso com as condições que tenho até que me seja possível fazer melhor”

Esta frase é repetida várias vezes numa das palestras de Mário Sérgio Cortella, porém, não foi por isso que decidi adotar essa postura desde há muito. É mais fácil fazer bem feito.

Se preciso fazer alguma coisa, por que não fazê-la da melhor maneira possível? Isso evita reclamações, retrabalho e prejuízos!

Caso verídico

Outro dia, precisei mandar fazer cópias de duas chaves. Diante dessa necessidade, me digiri a um chaveiro estabelecido e conhecido na cidade. Lá, fui atendido por um garoto de aproximadamente 14 anos. Era o único que estava na loja naquele momento.

Observei sua dificuldade em encontrar modelos de chaves semelhantes às que eu levara, enquanto outros três clientes aguardavam sua vez. Depois, notei sua falta de intimidade com o equipamento de reprodução de chaves.

reproducao-chaves

Note que não é necessário curso superior ou de especialização para fazer isso. Para fazer cópias de chaves qualquer pessoa pode comprar uma máquina como essa. Encontrei algumas à venda por menos de mil reais.

Simples, não? NÃO! É necessário ter paciência, capricho, boa vontade, desejo de fazer bem feito, responsabilidade e consciência profissional, no mínimo!

Nenhuma das chaves abriu as fechaduras. Nem depois de meu retorno àquele lugar para os ajustes. Foi preciso acertá-las em casa com a ajuda de uma lima. Dinheiro jogado fora.

Tome tento, você é quem faz o país

Esse descaso é encontrado em profissionais de todas as áreas, inclusive naqueles que se gabam de ter formação em universidades de renome. Consciência Profissional não é matéria dada em escolas.

Se você não tem o emprego que gostaria ou ganha menos do que julga merecer, se não tem a formação profissional com a qual sonhou durante toda a sua juventude, se não é descendente de milionários que poderiam lhe deixar uma gorda herança para poupá-lo da “vida dura” do trabalho, aqui vai uma dica para viver melhor: faça o melhor que puder com as condições que você tem até que lhe seja possível fazer melhor ainda. E lembre-se: exigir que os outros sejam assim é seu direito!

Não seja um profissional pela metade, uma pessoa pela metade, um brasileiro pela metade ou qualquer outra coisa que decida ser. Faça-o por inteiro, com sua capacidade máxima, para que quando as cortinas da vida se cerrarem os aplausos não cessem.

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