PolíticaSanta Isabel

O jogo político

O atual mandato político em Santa Isabel tem se mostrado, mais do que qualquer outro que eu tenha conhecido, um jogo, tendo como adversários a prefeita Fábia Rossetti e o atual presidente da Câmara Municipal, Alencar Galbiatti; e as peças que ocupam o tabuleiro são os secretários e vereadores, trocados de lugar, e até de lado, ao bel prazer ou conforme o poder de fogo dos jogadores, dando a impressão aos assistentes de que não existem regras, mas, apenas o preço de cada peça. Há quem diga que esse é um jogo entre o bem e o mal.

Início de mandato

Tudo começou na diplomação dos eleitos. Já se podia perceber ali o prenúncio da tempestade que estava por vir. Raios faiscavam dos olhares trocados entre os que viriam a assumir os Poderes Executivo e Legislativo, ainda com a esperança, de um lado, de que o outro não conseguiria vitórias.

Eis que chegou o dia da posse e o tempo esquentou ainda mais. Por pouco não houve troca de tapas nos bastidores. Alguns vereadores sentiram-se traídos com a debandada de outros que prometiam apoio à nova prefeita, acusando o presidente da Câmara de tê-los comprado “por dez mil reais cada”. Fato é que essa informação já corria de boca em boca por toda a cidade, mas, apesar disso aquela Casa ficou lotada de curiosos descrentes de tamanha audácia. No entanto, assim foi. Alencar Galbiatti tornou-se o primeiro presidente da Câmara neste mandato, já com a certeza de não deixaria aquela cadeira tão cedo.

Cabisbaixos e sem nenhum tumulto, os frustrados eleitores, que ainda não acreditavam no que viam, deixaram a Câmara em silêncio e com a sensação de que aquela seria a primeira de seguidas derrotas nas partidas disputadas no tabuleiro político.

O clima, entretanto, era de festa naquele dia, com muitos abraços e beijos e os melhores votos de sucesso e confiança àquela que prometera tirar a cidade do marasmo. Não era difícil diferenciar os amigos que espontaneamente foram para celebrar a vitória e aqueles que, em troca do apoio dado à nova prefeita, alimentavam a esperança de serem nomeados para algum cargo importante, o que, aliás, gerou novas frustrações.

Fábia Rossetti havia prometido que nomearia para seu secretariado somente pessoas com formação superior e especialização nas respectivas pastas, sem vícios políticos. Na prática, porém, a teoria é outra ou, melhor dizendo, na política não há teorias firmes, tudo se ajeita conforme a conveniência. Logo, era sabido que seriam privilegiados os que acompanharam de perto toda a campanha. Para tristeza de alguns, a formação superior não era um quesito opcional. Por isso aqueles que não possuíam um diploma receberam cargos menores, sendo substituídos, inclusive, por pessoas trazidas de outras cidades.

E começa o jogo…

Houve um evidente empenho da nova administração durante os primeiros cem dias de governo. Os mínimos detalhes sobre o que era feito pela cidade eram importantes e as solicitações dos vereadores eram quase sempre atendidas. Não me lembro de ter visto uma prestação de contas tão festiva. Todos estavam lá, no coreto da Praça da Bandeira, apresentando o que havia sido feito e o que estava por vir. Fora do coreto, no entanto, corriam conversas paralelas que davam conta de uma suposta “blindagem” da prefeita. Não ficou claro se essa “blindagem” era decorrente de uma decisão pessoal, como uma mensagem de auto-suficiência, ou se seria uma espécie de bloqueio causado por pessoas mais próximas para impedir que determinadas informações chegassem até ela, ou, ainda, se seria com o intuito de protegê-la. O tom dos comentários indicava que aquilo não era positivo.

Há algum tempo, a população tem notado a “ausência” do Dr. Carlos Chinchilla. Muitos manifestam sua curiosidade ou preocupação através das redes sociais. Isso levanta uma questão: se a “blindagem” existe de fato, estaria ele sendo afastado como aconteceu com o ex-vice-prefeito Ademar Barbosa em 2005, depois de ser apontado como o maior responsável pela eleição de Hélio Buscarioli? Estaria o atual vice-prefeito desapontado com os rumos da política local?

Movendo as primeiras peças

Passado algum tempo, teria início a “dança das cadeiras”, com a troca de alguns secretários. Thiago Pierre, coordenador da campanha política, seria o curinga, passando pelas Secretarias de Gabinete, Comunicação e Turismo até chegar, hoje, à de Cultura. Celso Rossetti, marido da prefeita, foi nomeado Secretário de Gabinete sob protestos populares e acusações de nepotismo (a Lei diz que não é – vide o artigo “Sob a égide da Lei“, neste blog). Seriam chamadas mais tarde a ex-prefeita, ex-secretária e ex-vereadora Ângela Sanches, e também Sandra Igarasi, esposa do vereador Ademar Barbosa e ex-secretária de Planejamento e Meio Ambiente de uma das administrações mais criticadas, a do Padre Gabriel Bina, durante a qual Alencar Galbiatti foi “conselheiro”, merecendo o título de “Primeiro Ministro” entre a população.

Nem mesmo a aparente aproximação de Alencar com a prefeita, documentada em foto com pose histórica, surtiu bons resultados práticos.

Uma pequena mostra da animosidade entre os poderes foi dada com a mudança na Lei Orgânica do Município, resultado da proposta de Alencar Galbiatti, que adicionou ao Art. 72 a possibilidade de, diante de qualquer denúncia junto à Câmara Municipal, o(a) prefeito(a) ser afastado(a) imediatamente. As mudanças na Lei Orgânica foram aprovadas pela maioria dos vereadores.

Estratégia de ataque ou de defesa?

“Quando não se pode combater o inimigo, junte-se a eles”, manda o ditado. Mas, como aliciar o inimigo que está sendo bem recompensado? Só há uma maneira: aumentar a recompensa. Assim, Fábia Rossetti decidiu transformar vereadores em secretários, concedendo-lhes um substancial aumento de salários e poderes.

Jairo Furini Neto esperava uma secretaria desde que foi eleito, ainda que o cargo fosse dado a alguém indicado por ele. Quando a então Secretária de Segurança Urbana e Trânsito (vinda de Guarulhos) foi rebaixada, a postura de Jairo passou a ser de ataque. Isso não era bom para a prefeita. Antes dele, Ângela Sanches e Benedito Gabriel da Silva, vereadores na época, já haviam mostrado sua disposição de serem fortes oponentes, votando em Alencar Galbiatti para a presidência da Câmara.

Os articuladores da prefeita passaram a trabalhar na estruturação de uma estratégia para enfraquecer Alencar Galbiatti. Boatos indicavam que a intenção dele era tomar o lugar de Fábia. Uma boa tática de proteção seria afastar de perto dele os que lhe davam respaldo para aprovar o que quisesse. No entanto, nem todos poderiam ser levados.

Com a nomeação de metade do quadro de vereadores para os cargos de secretários, Fábia conseguiu, também, colocar novos aliados em seus lugares, os suplentes, aumentando a força da mulher na Casa Legislativa, agora com as presenças de Patrícia Simão, Teresinha Pedroso, Arlete Pinheiro e Vera Lima.

Essa jogada mexeu com muitas peças, tumultuou o tabuleiro e pode até ter surpreendido o jogador oponente, que, entretanto, continua no jogo e já deixou claro que não gosta de perder. A essa altura ninguém sabe se nas novas posições as peças o ajudarão ou prejudicarão o próximo lance.

A verdade é que no meio político quase todos são perfeitamente compráveis e substituíveis. Para nosso consolo, ninguém é eterno. Como peças de um tabuleiro, são mudados de lugar, colocados em posição de risco ou de defesa, mas, fatalmente, chegará o momento em que serão eliminados. Isso explica – mas, não justifica – por que ocupam cargos que nada têm a ver com o que conhecem.

Enfim, manda quem pode e puxa o saco quem precisa do emprego.

Quanto ao povo, bem, esse continua ocupando o lugar de sempre: sem voz e inerte defronte a porta para que os poderosos limpem seus pés sujos; ainda que grite, não será ouvido.

Nossa única arma ainda é o voto. Por isso voto não se vende, não é negociável.

O que estamos vendo em Santa Isabel é tão somente o resultado da fraqueza daqueles que venderam seus votos por merreca.

Infelizmente, o povo não aprende. Mas, continua curioso para saber o que acontecerá com a política isabelense, hoje cheia de ex-vereadores e ex-secretários.

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