Arquivo morto

O erva

Quando a família não cresce, as casas ficam pequenas devido à enorme quantidade de tralhas, badulaques e coisas inúteis que as pessoas, levadas pelo sentimentalismo ou pelo egoísmo, costumam guardar pensando que algum dia talvez possam precisar delas.

Se vivêssemos no século XVIII, isso talvez fizesse algum sentido, mas em pleno século XXI, quando tudo se modifica com tanta velocidade ou se torna obsoleto, por que guardar algo que não servirá para coisa alguma?

Bem, em primeiro lugar, nosso maior problema é o consumismo. Não precisamos mais sair de casa para olhar as vitrines e fazer compras, as ofertas são variadíssimas, podem ser vistas no mesmo lugar e nos basta apertar um botão para contrair uma nova dívida, assumir uma nova despesa e colocar de lado alguma coisa que nos atendia tão bem ou melhor do que aquilo que estamos adquirindo. Mas, o financiamento é fácil, a entrega é em domicílio e nós estamos ficando cada vez mais preguiçosos.

Temendo nos desfazer do que ainda funciona ou tem alguma utilidade, damos um jeitinho de guardá-lo num canto qualquer onde ficará esquecido por muito tempo. Pelo menos até a aproximação do último dia do ano, que é quando renovamos nossas promessas de fazer o que nunca fazemos.

O ERVA

Pois bem, estava eu absorto em meus pensamentos e preocupações de sempre, totalmente alheio ao cenário, quando senti um estranho calafrio e vi que uma espécie de bruma invadia o ambiente por debaixo da porta da entrada. Compacta e sinuosa como a fumaça de um cigarro, levantou-se ao alcançar o centro da sala, materializando-se em forma semelhante a de um ser humano.

— Oi, como vai? – Perguntou a imagem esbranquecida.

Pálido e estático, sem saber por que, respondi:

— Bem, obrigado. Mas, o que é você?!

— Sou Erva. Prazer em conhecê-lo.

A resposta me deixou mais perturbado, principalmente porque não era sua voz o que eu ouvia, mas um tipo de mensagem telepática, perfeitamente compreensível.

— Olha, não tenho nada contra você, mas acho bom você voltar para o lugar de onde veio agora mesmo. Não sou consumidor, não conheço nenhum traficante e acho que sua presença na minha casa pode me comprometer seriamente. Se a Polícia estiver à sua procura, vai chegar aqui e pensar que eu estou envolvido com o tráfico, e eu sou careta, entendeu?

— Fique tranquilo, sou ERVA, com todas as letras maiúsculas, não esse tipo de erva que você imaginou. ERVA é uma sigla, não uma alcunha…

— Sei, sei. Mas, mesmo assim, poderia me fazer o favor de ir embora agora? Não estou preparado para receber uma entidade fluida que invade a minha casa por uma fresta sob a porta, seja você o tipo de erva que for.

— Por favor, deixe-me explicar. ERVA é a forma abreviada de Espírito de Renovação da Virada do Ano. Normalmente invado os corpos durante a passagem do ano, mas, desta vez minha agenda está lotadíssima, não pude atender a todos nos primeiros dias de janeiro, por isso estou vindo à sua casa somente hoje, com três semanas de atraso, pois sei que estava me esperando.

— Eu estava? – Questionei.

— Bem, talvez não saiba, mas a situação em que você tem mantido sua casa pede a minha intervenção urgente! Dê uma olhada em volta. Você tem muita coisa que poderia ter ido para o lixo há décadas! Isto aqui está precisando de uma faxina geral! E nós vamos fazê-la agora.

— Desculpe, mas não pretendo fazer faxina alguma, principalmente com um ser indefinido, esfumaçado e atrevido como você. E muito menos agora, pois estou ocupado. Portanto, pode ir saindo por onde entrou.

— Ah, me desculpe, precisei me desmaterializar para passar por baixo da porta. Leva um tempo até que minhas formas normais se recuperem. O senhor se sentirá mais à vontade quando isso acontecer, pois sou semelhante a qualquer outro ser humano, com cabeça, tronco, membros, etc. E lamento dizer, não posso ir embora antes de fazer meu trabalho, poderei perder meu emprego por isso. Sendo assim, com ou sem a sua ajuda, vou, sim, fazer uma faxina.

Ora, pensando bem, por que não? – Pensei com meus botões.  – Afinal, “aquilo” trazia uma bolsa nas mãos, o que indicava ser do sexo feminino. E de graça?! Poderia ser um sinal de um novo ano bem diferente.

— Hmmm… Está bem, que seja. – Concordei, depois de pensar um pouco. – Vamos fazer essa bendita faxina!

— Ai, que ótimo! Que bom que o senhor concordou! Estou super ansiosa para começar. – Disse o espectro.

— Ah, só para eu não me assustar mais, quanto tempo leva para você voltar às suas… “formas normais”?

— Cerca de oito a dez horas, às vezes menos, depende do esforço dispendido para me desmaterializar.

— Excelente, muito bom… E a faxina? Quanto tempo você acha que gastaremos com ela?

— Bem, isso depende muito de quanto vamos nos dedicar. Se formos rápidos, eu poderei ir embora dentro de uns dois ou três dias. Sua casa está uma bagunça!

— Uau! — Exclamei mentalmente, esquecendo-me da capacidade telepática daquela figura. Por sorte foi só o que pensei, mas sem esconder uma ponta de entusiasmo.

Erva pediu para que eu indicasse um aposento onde ela pudesse trocar de roupa, vestir seu uniforme, fazendo-me engolir seco.

Fiquei imaginando como seria esse uniforme. Claro, em minha mente, já podia vê-la com aqueles trajes sumários em preto e branco, parcialmente coberta por um aventalzinho semi-transparente deixando mostrar suas formas totalmente recuperadas. E que formas! Maravilhosas! Cheia de curvas, com olhos claros e brilhantes como lanternas em noite escura no meio do mato e pernas sinuosas equilibrando-se sobre os saltos enormes dos sapatos de pontas cortadas. Certamente sua voz finalmente poderia ser ouvida, suave, doce, meiga, quase sussurrante, me perguntando por onde eu gostaria de começar.

Ia ser uma faxina daquelas!

Não demorou para que Erva voltasse à sala pronta para o trabalho.

— O senhor está pronto?

— Sempre estive! Por onde começamos? – Infelizmente a imagem de Erva ainda era nublada.

— Ok, podemos começar, por exemplo, por esses sentimentos ruins que o senhor carrega dentro do peito: mágoas, ressentimentos, desconfiança e as demais picuinhas… Tudo isso pode ser jogado fora. Vamos substituí-los por um perdão bem grande e enfeitado de fraternidade, que tal?

— Opa, que que é isso, dona Erva? Tá brincando comigo?

— Não, senhor, estou falando muito sério. Como é que podemos deixar sua casa bonita se o senhor carrega tantas coisas feias dentro do peito? Isso vai caindo pelo seu caminho, sujando tudo, deixando tudo feio. Há coisas tão antigas que estão cobertas de teias de aranha!

— Bem, pode ser que outras coisas em mim estejam com teias de aranha, pois faz tempo que não as uso, mas, são teias simbólicas, sabe como é? Não deveríamos começar por lá?

— Ai, como o senhor é engraçado… Não, vamos começar por dentro, pode ir se desfazendo dessas bobagens.

A intenção me pareceu boa. Preencher meu coração com sentimentos bons poderia me deixar mais “inspirado” a fazer aquela faxina, mais aberto para preencher os espaços que ficassem vazios. E a melhor forma de fazer isso seria continuar alimentando minha expectativa para o que viria depois… Então, foi fácil.

— Tudo bem, já me livrei de tudo aquilo, estou até me sentindo mais leve! – Anunciei em minutos. – De fato, não vale a pena guardar aquelas coisas, tudo aquilo faz parte do passado, e o passado passou, não volta mais.

— Muito bem! Assim vamos terminar mais rapidamente o que temos pela frente. Vamos às fotografias.

— Fotografias? Mas aquilo é história! Vou jogar fora minha história?

— Ora, boa parte do que o senhor chama de história não passa de um monte de lembranças ruins, de momentos nos quais sua presença nem era importante, com pessoas que já o deixaram e jamais voltarão a fazer de sua vida. Lembre-se, estamos em época de renovação, de renascimento. Esta é sua melhor chance de costurar uma linda colcha de retalhos, aproveitando somente os pedaços mais coloridos. Mantenha o que vale a pena e jogue fora o que não fará mais diferença. É simples.

É desconfortável remexer os guardados e separar o que já foi importante. Fotos em especial. Elas trazem imagens que nos remetem a momentos que gostamos de lembrar. Pelo menos a maioria delas. Contudo, raramente nos sentamos para abrir um álbum ou uma caixa com velhas fotos tendo a facilidade da tecnologia de hoje. Guardamos as fotos em arquivos eletrônicos, toneladas delas, e as esquecemos exatamente como fizemos com as feitas em papel.

— Ah, sim, as fotos que estão no computador também. – Completou Erva. – Aliás, pode começar por elas.

 Surpresa!

À medida em que fomos repassando o que havia nos armários, na cômoda, na estante, no guarda-roupa, nos criados-mudos (ainda bem que não falam), no depósito, na oficina e em cada “esconderijo” que descobríamos por acaso, apenas movendo de lugar o que ocupava seu espaço definido, pude perceber quantas coisas eu deixara de fazer durante os anos que se passaram desde que as coloquei ali.

— Para que serve este carrinho de supermercado cheio de pó no canto da garagem?

— Ããh? – Esta foi minha reação mais comum, por falta de uma resposta convincente, durante todo nosso passeio pela casa.

Caixas, caixinhas, caixotes, gavetas abarrotadas, prateleiras entupidas, montanhas de papéis, roupas que não mais me serviam, pregos enferrujados e tortos, porcas sem parafusos, ferramentas quebradas, vasos vazios, aparelhos eletrônicos incompatíveis com a voltagem, uma máquina de lavar que não funcionava mais há séculos por falta de peças de reposição, pedaços de fios inúteis, barbantes e mais uma lista enorme de coisas imprestáveis acumuladas por todos os cantos, tudo que para meus olhos conservadores fazia parte da decoração, era na verdade lixo acumulado!

— Está vendo? Assim está a sua vida, cheia de lixo, de coisas inúteis que não lhe são mais necessárias. Tudo isso pesa, e o senhor é o único que carrega esse peso. – Explicou-me Erva, com enorme ternura. – Ao se livrar das coisas inúteis, o senhor se sentirá mais leve! – Completou.

Enquanto fazíamos a faxina, a imagem de Erva ia se definindo pouco a pouco, dando-me a certeza de que era realmente uma mulher. Muitas horas depois, já exausto, não resisti:

— Você é uma mulher, não é?

Depois de um breve silêncio, Erva respondeu com voz audível:

— Isso depende. Quando ajudo um homem, sou uma mulher; quando ajudo uma mulher, me apresento como homem.

— Não entendo. Você tem sido tão… suave… tão doce… Como pode se transformar desse jeito?

Para minha surpresa, naquele momento sua imagem se definiu inteiramente. Confesso que fiquei meio frustrado ao notar que não era exatamente como eu havia imaginado. Seu uniforme em nada se assemelhava àquele que eu havia desenhado em minha mente. Ela era mais baixa do que eu esperava, e seu corpo não era tão jovem, nem tão perfeito. Mas, tenho que reconhecer, ela era competente em seu ofício. Minha casa parecia maior e eu estava realmente me sentindo mais leve. O cansaço tinha valido a pena, e eu agradeci por isto.

Ao assistir a demonstração do que Erva acabara de dizer, compreendi que jamais deveria ter permitido que minha imaginação fosse tão fértil.

Que fique entre nós. Afinal, nunca se sabe quando você vai receber a visita de um Espírito Renovador, ou da própria ERVA. Um amigo seu pode passar por essa experiência antes, e não convém roubar dele o que pode ser sua maior surpresa.

Só para você… Desça a página.

 

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