Internet

Malandragem precoce

É sabido que a internet é uma das melhores criações tecnológicas de todos os tempos, mas é, também, uma verdadeira “caixa de Pandora” e, como tal, contém todos os males do mundo. O que muitos não imaginam é que não é necessária uma boa formação técnica para explorar os incautos e ingênuos, basta que se tenha uma péssima formação moral. É o caso de jovens leigos que vêm ganhando dinheiro às custas de profissionais que se tornam vítimas da concorrência fantasiosa criada exatamente por esses mal formados curiosos da internet. E o que os ajuda são os sites que promovem o encontro de potenciais clientes com eles.

Ambiente perigoso

fakeOs sites aos quais me refiro incentivam o registro de profissionais e contratantes, entre os quais são encontradas pessoas físicas e jurídicas, e cruzam suas informações sugerindo possibilidades de trabalho àqueles que, supostamente, estariam capacitados a realizá-los, pelo que se imagina com base em seus dados cadastrais. Assim, quando um contratante publica um anúncio com sua necessidade e especifica as características do profissional desejado, os candidatos que se enquadram naquele perfil recebem a lista de anúncios que condiz com suas especialidades. Desta maneira, em tese, junta-se a fome com a vontade de comer, agilizando o processo de seleção do interessado.

O que as pessoas não levam em conta é que, assim como há fakes (perfis falsos) nas redes sociais, há fakes em qualquer site, inclusive nesses. Isto permite, por exemplo, que qualquer pessoa, mesmo menor de idade, forge seu registro e coloque ali o que quiser, pois os sites não confirmam a veracidade dos dados cadastrados.

A tática dos fakes

Rodrigo (nome fictício) tem 16 anos, aprendeu a navegar na internet antes de balbuciar a primeira palavra, e já era mestre em joguinhos eletrônicos quando começou a andar. Na opinião de seus pais – incutida na mente do garoto –, Rodrigo “sabe tudo de internet; digita mais rápido que gente grande”.

Essa criança provavelmente faz todos os trabalhos de escola com material extraído da internet; como não precisa estudar, tem tempo de sobra para experimentar todos os recursos do computador e total intimidade com os navegadores, o que o levou a conhecer os sites que arregimentam freelancers. Viu que ali há empresas buscando profissionais webdesigners e profissionais procurando serviço, isto é, há panelas de todos os tipos e tampas que podem se encaixar nelas.

tampas-panelas

Para não “interferir” do processo de seleção dos sites agenciadores, é só buscar a panela no site “A” e a tampa no site “B”.

O falso profissional apresenta-se, quase sempre, como uma agência digital. Fica mais fácil assim, para ele. Não precisa mostrar seu endereço físico, nem telefone, dados que, se revelados, aumentariam seus riscos. Apesar disso, impressionados com a estrutura dos sites intervenientes, os contratantes preferem confiar nele. Aí ele faz seu jogo.

piada

Rodrigo visita o site “A” e seleciona ali os trabalhos que o interessam. Anota os detalhes cuidadosamente e parte para o site “B”, onde publicará seus anúncios copiados e recrutará os candidatos que se dispuserem a atendê-lo. Detalhe: na condição de “agência”, exigirá preços baixos dos profissionais e apresentará aos “clientes” os preços normais.

Rodrigo é, portanto, intermediário dos intermediários. Todos eles ganhando sem fazer nada.

Os resultados

Os candidatos que se submetem às imposições de Rodrigo são, em geral, amadores; querem conquistar, talvez, seu primeiro cliente e aceitam fazê-lo por qualquer valor. A imagem acima é um exemplo dos abusos: montagem de dois sites, incluindo o desenvolvimento do design, por menos de R$ 200,00!

Às vezes o tiro sai pela culatra. Na reprodução abaixo, o pseudo-profissional, já contratado pelo cliente, não sabe como realizar o trabalho, possivelmente abandonado pelo verdadeiro profissional, e mostra seu desespero sem nenhum pudor. Destaque para o prazo exigido: 1 dia.

amador

O leigo, que se coloca como “agência”, não sabe especificar as necessidades, afinal, não são necessidades dele, mas de alguém que não faz ideia da fria em que se meteu. Os sites invervenientes, por sua vez, dificultam o contato direto entre as partes envolvidas, e isso atrapalha bastante a troca de ideias entre elas. As informações ficam pela metade, o treinamento é dificultoso, o tempo de desenvolvimento se alonga, o pagamento só é feito depois da aprovação e aceitação do serviço completo, e pode não acontecer facilmente. Há registros de profissionais (de verdade) que tiveram muita dificuldade para receber.

Nesse cenário são comuns os prejuízos de tempo e dinheiro, pois é raro que a “tampa” contratada se encaixe na “panela”. Isso explica a enorme quantidade de anúncios com enunciados que refletem o desapontamento de contratantes, por terem sido abandonados no meio do caminho ou por receberem um produto que não condiz com suas expectativas.

A legislação vigente não contempla todos os casos, até porque nem os deputados têm conhecimento amplo sobre o mundo virtual ou mecanismos que assegurem o cumprimento das leis. Sem esse domínio, arriscam medidas paliativas com foco nos efeitos, sem atacar as causas.

Esse é um dos pontos ruins da internet, ser imaterial, não nos permitindo saber o que é real e o que é fruto da imaginação de alguém. Portanto, todo cuidado é pouco quando o assunto é sério.

 

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