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Isto é uma vergonha!

 Rotina

Vinte e cinco de julho, três horas da tarde, dirijo-me à agência bancária que escolhi para manter minha conta corrente. O movimento costuma ser tranquilo nessa época do mês. Não é dia de pagamento nas empresas, nem é hora para encontrar aposentados que chegam cedo para sua rotina social. Tenho que pagar três contas e pretendo conversar com o gerente.

Escolhi esta agência por ser próxima à minha casa, são cerca de quatro minutos a pé e o trajeto tem apenas uma pequena ladeira, fácil de vencer, diferentemente do caminho que leva ao centro da cidade.

Confesso que eu teria escolhido outro banco, mas, por aconselhamento da minha cara metade, que trabalha naquela instituição (em outra cidade), atendi ao chamado do anúncio “vem pra Caixa você também!”, pois fui avisado de que a Caixa cobrava taxas menores. Não sei porque me deixei impressionar com isso já que nunca tive a intenção de pedir um empréstimo ou descontar duplicatas. E, como não quis talão de cheques ou qualquer outro serviço que compõe as “cestas” que o banco oferece, achei que estaria livre de qualquer tarifa. Fui enganado.

Já tive mil motivos para reclamar da Caixa. Uma hora é o sistema que está fora do ar, outra hora é o site que suspende operações por causa do horário, a demora para ser atendido, a falta de retorno das ligações telefônicas ou o despreparo dos técnicos que redigem os textos que deveriam orientar aqueles que, para sua sorte, não trabalham num banco. Tudo ali é mais complicado que no resto do mundo. E preciso decorar três senhas diferentes para usar o internet banking, por exemplo. E pior, me disseram que o sistema foi desenvolvido pela mesma empresa que fez esse trabalho para o Bradesco, que, aliás, pertence – pasmem – à Caixa.

Pois bem, eu tinha tudo planejado, e não gastaria mais do que 10 minutos para fazer o que pretendia, afinal, tenho direito ao atendimento preferencial, por ser um idoso.

Mas, a Caixa é a Caixa!

vem

Surpresa!!! Se você é pobre, procure outro banco.

Logo que cheguei, me surpreendi com o tamanho da fila que se formava num balcão, antes da porta giratória, defronte os caixas automáticos, e estranhei porque eles não estavam lotados. Deixei o celular e minhas chaves no recipiente de acrílico (super mal feito, pois a gente tem que largar o celular numa altura que pode resultar em danos ao aparelho) e passei pela porta giratória, sendo abordado por um dos vigilantes:

— O senhor pegou a senha? – perguntou ele.
— Ué, não era aqui que ficava o terminal?
— Agora é lá fora. – respondeu secamente o sisudo e fardado responsável por barrar os desavisados.

Girei nos meus calcanhares e fui procurar o terminal de senhas. Mas, não consegui enxergá-lo. Ele estava por trás da fila, agora um pouco maior.

— Por favor, senhora, esta fila é para que?
— É para pegar senha. – respondeu a moça.
— Como assim? Não é só apertar um botão e pegar o papelzinho?
— Não, agora o senhor tem que pedir para a moça do banco retirar a senha. – explicou.

Fiquei observando. A “moça do banco” parecia ser estagiária. Bem jovem ainda, toda vestida de preto e muito falante, inquiria cada cliente para poder orientá-lo a fazer a coisa certa. Perguntava o que a pessoa pretendia fazer, com quem desejava falar, o motivo e, quando tinha dúvidas, nos deixava por algum tempo, indo em busca da informação que lhe faltava. Às vezes subia as escadas para obtê-la com a gerência, ou esperava um cliente ser atendido no caixa, a fim de não interromper o serviço dos colegas. Era muito solícita, não se importava de acompanhar e auxiliar no desafio dos clientes não acostumados a lidar com os caixas eletrônicos. Só lhe faltava se ater à fila que não parava de crescer. Enfim, já cansado de permanecer em pé, tive minha vez.

— Olá, boa tarde, o que é o do senhor? – Senti o respeito. Se eu fosse jovem, talvez ela perguntasse “qual é a sua?”…
— Vim pagar umas contas no caixa, em dinheiro.
— São contas de valores maiores que R$ 700,00?
— Não, são contas de valor pequeno. A mais alta é de R$ 255,00.
— Ah, então o senhor tem que ir a uma lotérica. Aqui não pode pagar.
— Ãh…? Não posso pagar contas no banco?
— Só se forem de valores acima de R$ 700,00. Caso contrário, o senhor vai pagar numa lotérica.

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Expliquei que uma das contas não poderia ser paga com atraso, a contribuição ao INSS, cuja guia já fora refeita pelo contador.

— Ok, a guia do INSS o senhor pode pagar aqui.
— Mesmo sendo de valor baixo?
— Isso. O senhor pode se dirigir aos caixas, aqui está a senha.

Quando você pega uma senha, significa que você não pode se dirigir diretamente ao setor onde pretende resolver o que é preciso. Tem que esperar ser chamado.

A Caixa tem aquele sistema de painel eletrônico que funciona numa televisão suspensa, fazendo aquele barulhinho infernal, bem alto, que é para ser ouvido até pelos velhinhos mais surdos. E, para meu azar, o aparelho estava com defeito, ficava chamando senhas que foram atendidas desde a abertura da agência, com números muito distantes do que eu havia recebido.

A propósito, somente para enriquecer os detalhes, minha senha era comum, não era para idosos. Não tive alternativa senão procurar uma cadeira vazia e aguardar a minha vez. Foi suficiente para que uma das funcionárias, mais irritada que os clientes, procurasse o controle remoto da tevê para desligá-la.

Havia apenas dois caixas funcionando. Um deles operado por um sansei, o outro, por uma loira. Quem me chamou foi o japonês.

Coloquei as três contas sobre o balcão e saquei o dinheiro que estava no bolso.

— Eu só posso receber o INSS, as outras contas o senhor tem que pagar numa lotérica.
— É mesmo? Por que? As contas não estão vencidas, sempre paguei minhas contas aqui, não há muita gente aguardando atendimento, o banco está vazio, e até tem mais espaço depois que foi feito o remanejamento dos móveis. Vou pagar em dinheiro. E, pelo que sei, a greve dos bancários só deve acontecer em setembro, se não houver pressão do Governo, pois estamos num ano eleitoral…
— Não posso fazer nada, as outras contas o senhor deve pagar numa lotérica.
— Sei, entendi, a moça lá fora me disse isso, mas não explicou o motivo. Isso significa que vocês vão deixar de cobrar a taxa de manutenção da conta? Afinal, se não posso usar os serviços do banco, não há porque ser cobrado por eles, certo? – Ora, a situação me dava o direito de ser sarcástico! Custava receber as três contas?

O rapaz de olhinhos rasgados não me deu resposta, cobrou o INSS, me deu troco e chamou pelo próximo cliente antes que eu pusesse o dinheiro na carteira.

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Casas lotéricas: uma extensão fiel da Caixa

Não me restou alternativa senão me dirigir à casa lotérica mais próxima, indicada por um funcionário da gerência. “— É nova, bem aqui pertinho.” – disse ele. – E lá fui eu, debaixo de uma garoa fria e desagradável.

A casa lotérica fica num posto de combustíveis, ocupa parte de um grande salão onde outras lojas devem se instalar, um dia. O fosso, construído para ter um espelho d’água, ainda estava seco. Como era esperado, encontrei outra fila, mas, não tão grande. Por outro lado, é incrível como há gente sem bom senso. Deixar para preencher os formulários de jogo na boca do caixa é dose!

Havia quatro guichês. Dois deles exibiam avisos feitos à mão informando que as máquinas estavam quebradas, e os vidros eram inteiros, sem aberturas ou alto-falantes que facilitassem ouvir o que diziam as operadoras.

Finalmente, depois de vinte minutos, fui chamado: “— Próximo!”.

Brasileiro vive nas filas. Certamente todos já se acostumaram com elas, e também com a forma de ser chamado. Temos uma enorme população de “próximos”. Infelizmente, as pessoas se esquecem do ensinamento de Jesus: “amar ao próximo como a ti mesmo”… Quem nos atende não apenas não nos ama, como, também, chega a ter ódio de nós, embora nada tenhamos feito para irritar aquelas pessoas, e nem tampouco somos os culpados por elas terem esses empregos. Mesmo assim, elas nos atendem como se estivessem nos fazendo um favor.

Passei as duas contas pela pequena abertura do guichê. Foi preciso dobrá-las, pois o vão era ridiculamente apertado, feito para poucas notas de dinheiro e moedas.

— O senhor não tem noventa centavos? – perguntou a moça.
— Hmmm… Não, infelizmente tenho apenas oitenta e cinco. – Respondi depois de contar as moedas.
— Bem, eu não tenho dez centavos.

É simples assim. Essa gente não tem a menor preocupação em ser simpática, só falta completar suas frases com aquele palavrão: “F…-se“. Ora, se a lotérica é uma extensão da Caixa, tem que ter condições para nos atender como se fosse o banco! Por isso, fiz questão de receber os centavos que faltavam. Deu trabalho, mas encontraram moedas de sobra numa gaveta.

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Conclusão

dilma_mal_humoradaSe Shakespeare achava que havia algo de podre no Reino da Dinamarca, fico imaginando o que ele diria se conhecesse o Brasil. Aqui está tudo errado!

Deixo apenas uma sugestão para você: no dia 5 de outubro teremos eleições para Presidente da República. Espero que você saiba escolher bem seu/sua candidato(a) e não ajude a eleger que nos manda recados do tipo mostrado na foto ao lado. Acorde.

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