Internet

Internet, uma faca de dois gumes

 

Se existem tantos bandidos agindo na internet é porque existem muitas pessoas crédulas que se arriscam à toa e caem em seus golpes. Aliás, nem sempre se trata de credulidade. Às vezes é por simples PREGUIÇA de fazer uma pesquisa sobre a mensagem que estão recebendo, ou sobre o site que estão visitando. Há centenas de sites que parecem sérios à primeira vista e não passam de arapucas para os incautos, seja pelas fraudes, seja pelos vírus e programas maliciosos que plantam nos computadores que a eles se conectam.

A mesma receita – ainda sem o perigo de vírus e programas maliciosos – se aplica à televisão que agora tem não apenas anúncios, mas longos programas com ofertas tentadoras para aqueles que preferem não sair do sofá. Uma dessas pessoas é minha irmã.

Há algum tempo, minha irmã ficou fascinada com uma câmera digital que só faltava falar. O preço era convidativo, pouco mais de 200 reais, e ainda era oferecido um desconto “super especial” para quem ligasse nos próximos minutos, como se o programa fosse ao vivo.

Quando a câmera chegou, veio a decepção: só havia a câmera na caixa. Nenhuma bateria ou cabos, ou estojo para guardá-la, nem cartão de memória ou qualquer outro acessório que a tornasse útil. Isso era vendido à parte pela bagatela de mil e duzentos reais. Isso mesmo, acreditem, seis vezes o preço da câmera!

Os sites de compras coletivas têm sido a bola da vez na internet, rendendo rios de dinheiro para seus proprietários e, embora a proposta seja interessante tanto para os consumidores quanto para as empresas que se associam a esses sites, não dispensam alguns cuidados.

A República Popular da China é conhecida por ser o país mais populoso do mundo, com mais de 1,3 bilhão de habitantes (cerca de 1/7 da população mundial e mais de seis vezes a população brasileira) enfiados numa área de 9,6 milhões de quilômetros quadrados (apenas 12,5% menor que o nosso território). Lá sobra gente e falta espaço. E emprego não é fácil. O regime político é comunista. Por isso os chineses trabalham por pouco dinheiro, o que nos dá a impressão de que tudo que é chinês é barato.

O Brasil é conhecido pela malandragem de seu povo. E isso não é piada! Até os cineastas estrangeiros fazem filmes mostrando o que o nosso país tem de pior: carnaval, cerveja, cachaça, selva, favelas, crimes. O tempo passou, mas, lá fora é como se continuássemos usando chapéus de banana, no mais alto estilo de Carmem Miranda, que, apesar de ter sido um símbolo do Brasil, era portuguesa. Ou seja, a malandragem brasileira aproveitou o sucesso dela para aparecer nos Estados Unidos como se ela fosse filha de nossa terra.

E o que a China e o Brasil têm em comum?

O malandro brasileiro oferece produtos chineses pelos preços de lá, sem mencionar que serão adicionados os impostos, a taxa de entrega e outros balacobacos, e sem dizer que os produtos podem não chegar no tempo previsto, se chegarem. Outros brasileiros, lerdos de raciocício e tomados pela síndrome da Lei de Gerson (gostando de levar vantagem em tudo, certo?), compram esses produtos de baciada, achando que estão fazendo o melhor negócio do mundo. Celulares, por exemplo, desbloqueado, com 4 chips, GPS, TV, rádio FM, mp3 e mp4, acesso à internet, tela sensível ao toque, sensor gravitacional, acesso direto às redes sociais, blue-tooth, jogos, aplicativos, plataforma Android 2.2, viva-voz, que dançam, sapateiam, dão cambalhotas, acordam você de manhã e servem o café na cama custam uma verdadeira merreca se comparados aos importados legalmente ou fabricados aqui.

O comprador não se importa com isso, fica alucinado ao ver as imagens dos aparelhos, os olhos brilham diante dos preços baixíssimos. Ele quer é pagar pouco. E compra. Qualquer coisa, até cocô enlatado, desde que seja barato. No máximo, ele poderá ler o rótulo: “Solução para intestinos presos”.

É isso mesmo, tem mesmo que experimentar! Às vezes é só apanhando que aprendemos. E é isso que tem acontecido com muita gente. Primeiro, o cara precisa ir até os Correios para retirar a mercadoria. Quando chega lá, descobre que existe uma taxa de entrega, mais o imposto – de 78% – que deve ser recolhido antes que ele descubra o que há no pacote. Se a empresa for tão chinesa quanto aquele sujeito da Galeria Pajé que entregava uma caixa com um tijolo dentro em lugar de um toca-fitas para o carro, danou-se.

O sentido da esperteza

Os maus hábitos brasileiros mudaram até o sentido das palavras. Antigamente, esperto era o indivíduo acordado, desperto; sagaz, vivaz, vivo, destro, hábil, inteligente, ativo… Hoje, ser esperto é ser sacana, safado, punguista, malandro, indigno de confiança.

Quando eu era criança, os pais orgulhavam-se por ter um filho esperto. Hoje a gente ouve: “cuidado com aquele bandido, o cara é esperto, hein!”

A internet é o berço dos espertos, nos dois sentidos. Nela é possível encontrar o melhor e o pior de todas as coisas. Você pode pagar suas contas on line, mas, se não tomar cuidado, cairá feito um patinho respondendo uma mensagem que parece ter vindo do seu banco, a menos que tenha a cautela de se cercar dos cuidados imprescindíveis e não tenha preguiça de ler tudo que está escrito e/ou escondido nela.

Seríamos mais saudáveis se fizéssemos isso nos supermercados, quando temos nas mãos um produto qualquer. Ler os rótulos pode evitar sérios problemas. Mas, para isso é preciso levar uma lupa. Na internet não é diferente. Você precisa saber onde ler, onde espiar.

Tomemos os anúncios de celulares baratos como exemplo. As imagens e o preço são as iscas para você morder. Sabendo disso, sua primeira atitude deve ser conter seu impulso de clicar sobre o botão “comprar”, e, em seguida, ir para um site de pesquisa e digitar “opinião sobre loja tal”. Se você encontrar muitos comentários favoráveis, pode ser que o risco seja pequeno, mas, se for o contrário, simplesmente não dê sua cara a tapa, não acredite na sorte, não pense que com você será diferente porque não será. Se morder a isca, vai se machucar.

A princípio, vale o ditado: “quando a esmola é demais, o santo desconfia”. Quando alguma coisa é oferecida de graça, o preço a ser pago pode ser muito maior do que você imagina. Se for notoriamente barato, alguma coisa errada há por trás disso. Lembre-se, ninguém é bobo. Coloque-se no lugar da pessoa que está apresentando a oferta e avalie se você faria o mesmo. Por que você ofereceria um produto por 50 reais se no mercado todos os similares custam pelo menos quatro vezes este preço?

Voltando ao exemplo dos celulares: se são “importados” e vêm diretamente da China para a sua casa, não passam pela avaliação da Anatel, podem não ser compatíveis com a tecnologia usada no Brasil, não têm garantia, ou assistência técnica, ou peças de reposição. E aí? Vai colocá-lo na estante da sala, como um bibelot, para enfeitar o ambiente? E por que as grandes lojas não importam grandes quantidades desses aparelhos para vendê-los aqui? Qual o prazo de garantia que oferecem?

— Pô, mas você precisa ver como o site é bonito e bem feito…

Bem, para tal argumento há explicações: caso você não saiba, os malandros são, sim, inteligentes, e não têm dificuldade em aprender a construir sites, afinal, isso tem se tornado cada vez mais fácil. E também faz parte da nossa cultura a lei do menor esforço. Aqui nada se cria, tudo se copia.

Cuidado com as iscas

Primeiro foram os jovens; hoje são as crianças que, empolgadas com a quantidade de “amigos” virtuais, escrevem tudo que lhes acontece nas páginas das redes sociais, como se aquilo fosse um diário. Inclusive para falar mal de seus pais e revelar seus hábitos, tornando-os presas fáceis para os malandros, mesmo que estes estejam atrás das grades nada seguras de uma prisão. Contam aonde vão, seus horários, seus locais e atividades preferidos, mostram suas roupas em centenas de fotos, trocam números de celulares e endereços de e-mail. Os mais débeis fazem questão de ser as primeiras cobaias de “lançamentos fantásticos” que permitem criar suas próprias biografias, deixando conhecer até as cores de suas roupas íntimas.

Tudo pode ser usado como isca. De repente, você pode receber um trote de alguém que alega ter em seu poder um de seus filhos, e se tornar vítima de um golpe já manjado, mas ainda eficiente. O bandido será capaz de lhe passar detalhes que lhe farão acreditar que tudo é verdade, ou poderá surpreender você no trajeto entre sua casa e seu escritório e cobrar resgate de sua família. Tudo porque sua vida passou a ser um livro aberto.

Em defesa dos incautos foi criado um site de denúncias, o confiometro.com.br, totalmente gratuito. Você pode enviar suas reclamações e acusações sobre qualquer loja ou site que o tenha enganado, ou consultar o site sobre as empresas denunciadas por outros usuários. Nesse ponto, o site é digno de elogios, e não é o único.

Esses sites muitas vezes nos ajudam a evitar prejuízos, alertando-nos sobre a postura de falsos comerciantes, ou desonestos que querem apenas tomar nosso suado dinheiro. Porém…

Como dito acima, tudo que é de graça pode ser caro, principalmente para os preguiçosos.

Os espertos sabem que os brasileiros não têm o hábito de ler, porque não gostam. Aliás, se você leu esta página até aqui, está de parabéns, pois é uma exceção. Poucos leem. Pouquíssimos.

Pois bem, ao ler o “contrato” do site Confiômetro percebi algumas pegadinhas nas entrelinhas:

  • No artigo 2º: “O Confiômetro se reserva no direito de a qualquer momento incluir novas funcionalidades, ferramentas, serviços e/ou atividades no site Confiômetro, bem como excluir as já existentes, a seu exclusivo critério, sem qualquer aviso prévio ao USUÁRIO.”
  • No artigo 3º: “Toda e qualquer nova funcionalidade, ferramenta ou atividade incluída no Confiômetro, estará, automaticamente, vinculada e subordinada a este Termo de Uso.” – e você não poderá reclamar.
  • Você não é obrigado a se cadastrar e fornecer seus dados pessoais, a menos que queira enviar uma reclamação ou denúncia. Ou seja, você paga com suas informações pessoais pelo serviço que lhe é prestado como sendo “de utilidade pública”. Veja mais adiante o que isto significa.
  • No artigo 18: “O USUÁRIO poderá autorizar o Confiômetro por meio de campos específicos no site, a locar o seu e-mail ou cadastro pessoal para terceiros, de determinado ramo de atividade escolhido pelo próprio USUÁRIO, para o recebimento de correspondências físicas e/ou eletrônicas (e-mail).” – Detalhe: não existem esses “campos específicos”. A partir do momento que você fornece seus dados, eles passam a ser do site e podem ser oferecidos aos comerciantes de listas de e-mails que vão entupir sua caixa postal.
  • No artigo 19: “O Confiômetro fica desde já autorizado a divulgar todo conteúdo criado pelo USUÁRIO sendo por intermédio de uma reclamação ou de uma pesquisa de opinião.” – Todo conteúdo, viu?
  • A pegadinha continua no artigo 31: “O USUÁRIO declara-se ciente e concorda que, ao transmitir e/ou enviar ao Confiômetro qualquer material, informação e/ou dados estará automaticamente cedendo os direitos de uso e divulgação do mesmo ao Confiômetro e aos demais usuários, que poderão ser livremente utilizados”.
  • No artigo 43: “O USUÁRIO declara-se ciente e concorda que suas informações, opiniões, textos, dados e/ou quaisquer materiais por ele encaminhados ao site Confiômetro poderão permanecer no site e ser utilizados pelo Confiômetro, sem quaisquer ônus ao Confiômetro, com a permanência da sujeição desses materiais a este termo de uso por prazo indeterminado, ou até que o USUÁRIO desligado do Confiômetro solicite expressamente a sua retirada do Site Confiômetro.” – Pronto, você vendeu sua alma ao diabo!
  • Se você quiser reclamar mais tarde, saiba desde já que, de acordo com a cláusula 49: “O USUÁRIO, ao utilizar os serviços do Confiômetro aceita expressamente todas as cláusulas e condições do termo de uso, bem como as atividades que existem e que venham a existir no site Confiômetro, reconhecendo-as como inocentes, saudáveis, de boa-fé e não-ofensivas, aceitando suas regras, instruções e condições constantes do próprio Site Confiômetro, de forma absoluta e irrestrita, garantindo que não se sentirá de qualquer forma ultrajado, ofendido ou prejudicado pelas mesmas.”

Artigos relacionados

Leia também

Close
Close
%d blogueiros gostam disto: