Política

Ficou claro agora?

Começo a postagem de hoje com vontade de vomitar no prato do elemento acima, para não dizer coisa pior. A frase “esclarecedora”, além de não representar a verdade, revela – como se ninguém soubesse – o único motivo para haver tantos candidatos a cargos eletivos: o dinheiro que se pode tirar dos cofres públicos “na manha”, “no boi”, “no mole”, fazendo na vida pública o que a gente faz na privada. A afirmação do presidente da Câmara de Campinas é tão falsa quanto o comportamento desses safados que, por saberem assinar o nome, se inscrevem para “nos representar” e apenas  fazem leis para encher suas próprias burras.

O gajo que deveria estar praticando sua profissão  para ajudar os outros – é médico – propõe que os vereadores de Campinas passem a receber o mísero salário de R$ 15 mil por mês, fora o resto, mais do que dobrando o valor atual dos R$ 6.636,20 de hoje, porque, segundo ele, se não o fizer continuará não haverá bons candidatos nas próximas eleições.

vote171Bem, temos que concordar: a prova de que não há bons candidatos é o próprio proponente do aumento. Se fosse alguém que fizesse jus à posição que ocupa, estaria procurando resolver os problemas do Município e não um jeito de “se arrumar” como Justo Veríssimo. Quinze mil reais equivalem a 27,5 salários mínimos, o que, multiplicado por 33 vereadores (!) chega a 907,5 salários mínimos, ou em palavras mais claras, o que é – na opinião dos políticos – suficiente para sustentar mais de 900 famílias!

De acordo com o autor da proposta, se não for assim, ninguém que valha a pena será candidato.

Ele justifica: “O orçamento para a contratação de assessores vai passar de R$ 43 mil para R$ 35 mil. Por ano, são destinados em torno de R$ 1,1 milhão para o pagamento de aproximadamente 400 assessores.”

Sentiu o drama? Quatrocentos assessores para 33 vereadores! Quatrocentos “aspone” mamando às custas do povo em média R$ 3.750,00 cada um, por mês, sem contar as verbas de representação, transporte, alimentação, propina, encargos sociais, etc. Não deu para sentir ainda? Então, multiplique tudo isso, proporcionalmente, pelos 5.565 municípios de todo o país; depois, some o que é pago aos Deputados Estaduais e Federais, Senadores, Ministros e os quase nove milhões de empregos públicos existentes (em 2008). Pode esquecer o salário do Presidente, não faz nem cócegas comparado ao montante de dinheiro jogado fora com o resto dos ilustres “políticos”. Pensa que acabou? Não, não acabou, não… Vá dar uma espiadinha no site excelencias.org.br e some as verbas extras que são pagas como “estipêndio da função” aos insaciáveis que você ajudou a chegar lá. Se ficar surpreso, lembre-se de contabilizar os valores “desaparecidos”, conforme os relatórios do Tribunal de Contas da União.

É dinheiro pra dedéu, dá para comprar outro país e transferir as pessoas honestas para lá com toda a mordomia pelo resto da vida, até porque, convenhamos, pessoas honestas são poucas, certo?

Os exemplos de mau uso do dinheiro alheio são muitos. Há algum tempo (não posso afirmar se isso continua acontecendo ou não), uma moça que trabalha na prefeitura de Brotas valia-se de um carro oficial para vir encontrar o namorado em Bragança Paulista. Quem paga essa conta?

Aí chega um cara que parece passar mais tempo se olhando no espelho do que trabalhando e diz que se for oferecido um salário melhor aos vereadores, os candidatos serão de melhor nível.

Nível de que? De malandragem? De apresentação?

Está aí o Ronaldo – conhecido como “fenômeno” – com promessa de se candidatar a uma vaga no Senado… Decerto para organizar umas “peladas” com seus colegas de futebol que já ocupam o Congresso Nacional. O perigo é que Ronaldo já mostrou que não sabe escolher as “peladas”, pelo menos quando elas estão vestidas… Porém, isso não deve preocupá-lo, pois o povo já mostrou inúmeras vezes que não sabe votar.

O esquema político

Todo mundo sabe, mas ninguém se atreve a dizer porque os malandros não deixam provas de como funciona o esquema político desde a vereança. Isso para não mencionarmos as passagens dos eleitos por associações de amigos de bairros, organizações não governamentais, comissões das mais diversas e outros trampolins que os levam ao cobiçado mundo do dinheiro fácil.

Uma vez eleito, o vereador escolhe a dedo os “laranjas” que serão seus assessores, optando, em primeiro lugar pelo nepotismo. A esposa é a primeira da lista:

— Benzinho, vou te contratar como minha assessora. Preciso disso para proporcionar a você e aos nossos filhos tudo que vocês merecem. Na verdade, você não vai precisar trabalhar, vai continuar em casa, cuidando de tudo, como sempre fez, mas estará na folha de pagamento do meu gabinete. De vez em quando você dá uma passadinha pela Câmara para que os outros vejam a sua cara, mas deixe que eu cuido do resto, inclusive do seu salário.

Depois, é a vez do cunhado.

— Cunhado? Como assim? Aquele chato que vive pegando no seu pé? – pergunta o amigo.

— Exatamente. Assim ele deixa de pegar no meu pé.

O vereador faz com que a esposa chame o irmão para uma conversa e explica o plano:

— Cunhado, é o seguinte: vou contratá-lo como meu assessor. Tenho acompanhado sua batalha nesses empreguinhos que você tem arrumado e vou ajudá-lo. O salário base é de R$ 3.000,00, mas, você sabe que tive muitos gastos com a campanha, então, vamos combinar assim: para todos os efeitos, seu salário será mesmo esse, mas você vai me devolver metade dele todos os meses, sem recibo, é claro. Isso fica só entre nós dois, ninguém mais pode saber, nem mesmo sua esposa! Se alguém ficar sabendo disso, posso ser exonerado e todos nós voltamos à estaca zero. Estamos só começando, as coisas vão melhorar, confie em mim. Por enquanto você vai poder usar um carro oficial quando precisar. Daqui a alguns meses, compraremos um outro carro só para você. E se você me ajudar a arrumar outros dez assessores no mesmo esquema, isso não vai demorar.

concurso_quadrilhasAí começa a formação do trem da alegria, explicando a falta de qualificação dos “aspone” que circulam em todas as Câmaras Municipais. O vereador, que tem direito a 12 assessores, por exemplo, contrata onze e deixa a 12ª vaga reservada para um bom advogado, a quem pagará o dobro do salário médio dos demais. Consideremos que sejam R$ 6.000,00. Ele acerta os termos da contratação:

— Vou contratá-lo como meu assessor especial, mas não vou lhe pagar o salário de assessor, vou lhe dar o meu próprio salário, que é o dobro. Você vai me aconselhar, me orientar e cuidar para que eu não seja acusado de coisa alguma que ponha meu cargo em risco. Nem precisa ir à Câmara, pode continuar trabalhando no seu escritório. Para todos os efeitos, você foi contratado como todos os outros, com o salário de R$ 3.000,00. A diferença eu pago por fora.

Façamos as contas:

Onze assessores laranjas passam a devolver mensalmente metade de seus salários sob pena de perderem a “boquinha”. Seriam, portanto, R$ 16.500,00 a mais no bolso, mas, como a esposa do manipulador não fica com o dinheiro, são, de fato, R$ 18.000,00. Para ficar seguro, o vereador precisará garantir a remuneração do advogado que, enxergando mais longe e conhecendo os meandros da lei, vai sugerir outras formas de engordar as burras, aumentando as possibilidades.

contando-dinheiroSob a classificação de “estipêndio para o exercício da função”, somam-se as contas de alimentação e transporte, facilmente conseguidas em qualquer restaurante, boteco ou boate, sem que tenham sido pagas, para justificar as flores enviadas para as amantes, a compra dos perfumes importados e outros gastos que se incorporam à nova vida do político.

O salário do vereador, que seria de R$ 6.000,00, vai para o advogado, companheiro das melhores horas, cúmplice. Por que se preocupar com tão pouco se na verdade ele pode embolsar três vezes mais, totalmente livre de impostos?

E, acreditem, tanto faz ser “gente de expressão” ou pipoqueiro, essa prática existe e é rapidamente difundida e adotada pelos “políticos” menos esclarecidos. E vai muito além dos limites das Câmaras Municipais.

Numa certa cidadezinha do interior paulista, para citar só um caso amplamente conhecido, há um secretário municipal que aplica a mesma tática com funcionários de vários departamentos. É ele quem indica os que serão contratados, mas, só depois de uma conversinha a portas fechadas: “O emprego é seu se você me devolver a metade do seu salário por baixo dos panos”; “eu consigo a licença de funcionamento, mas você me dá sociedade no negócio”; “sua empresa tem tudo para vencer no processo de concorrência, mas, você sabe como as coisas funcionam… Meus filhos estudam em escolas caras…”.

Em outra cidade, devido à morte do vice-prefeito que assumira o cargo de seu companheiro de chapa, o presidente da Câmara, que ao ser empossado prefeito usava chinelos de borracha, terminou seu mandato com 11 imóveis e, pelo menos, uma empresa. Tive o prazer de presenciar a cena quando um munícipe indignado, dentro de uma agência bancária lotada, dirigiu ao infame uma lista de merecidos impropérios em tom alto e claro para que todos ouvissem. Nem a mãe do político foi poupada. Não resisti e aplaudi o ato. Chocante mesmo foi observar o silêncio de todos os covardes.

A ignorância e a covardia são resultados de escolhas

fim_de_carreira

Dizer que os brasileiros são ignorantes, que não sabem votar, é uma grande balela. Falta de cultura é uma coisa, ignorância é outra. A maioria tem inteligência e traquejo suficientes para dar nó em fumaça e em pingo d’água. A escola de malandragem não aplica testes de aptidão, qualquer um pode entrar. E aprende.

Oferecer propinas para agilizar um processo, burlar as leis, sonegar impostos, desprezar as regras de trânsito, não devolver o troco recebido a mais, isso existe de monte. Mentir sobre a idade dos filhos para não pagar ingresso, fingir que esqueceu ou perdeu um documento e tentar se esquivar de uma multa; furar fila; fingir que está dormindo para não ceder seu lugar a uma senhora de idade num ônibus cheio, isso a gente vê todos os dias. São comportamentos de malandros, de covardes, de sem-vergonhas. Vender o voto é condenável? Há quem venda o corpo da própria filha em troca de promessas muito menores! Isso, infelizmente, é o Brasil. Existe aqui e em outros países também. Existe onde há miséria, onde são poucos os que podem tudo e muitos os que não podem. Porque se calam, porque são covardes, têm medo de enfrentar os “poderosos”, e assim os tornam cada vez mais poderosos.

O sujeito pode morar num barraco. Pode faltar o que comer, mas não falta um aparelho de tevê para ver as novelas e os jogos de seu time. Está lá a anteninha jacaré, faltando pedaços, amarrada com barbante num bambu (Não acredita? Veja com seus próprios olhos). A informação chega lá, mas ele a despreza, e diz: “ih, lá vêm aqueles assuntos chatos…” Ele escolhe assim. Escolhe a ignorância porque não dá o trabalho de pensar, de analisar, de avaliar, de julgar, de decidir. Não tem opinião própria, prefere votar em quem parece que vai ganhar, ainda que seja um desqualificado fazendo palhaçadas e dizendo a quem quiser ouvir que, se eleito, ele pretende ajeitar a vida da própria família, e que não tem a menor ideia do que terá que fazer.

Os covardes justificam seus erros nas urnas alegando revolta: “Votei nele para mostrar que não quero nenhum dos outros”. Papo furado. Como afirmar que os outros não valem nada se nunca acompanhou o que fizeram?

3macacosOs covardes se negam a discutir a política, e até admitem ignorância em relação ao assunto. É mais fácil que proferir uma opinião e assumi-la perante quem discorde dela.

Será que essas pessoas não se dão conta de que a ignorância assola o país em todos os setores? Temos médicos despreparados, engenheiros, arquitetos, advogados, economistas, analistas de sistemas, administradores, funcionários públicos, militares, vendedores, criadores, agricultores, sindicalistas, e até bandidos despreparados! Se todos fossem capazes, não haveria tanto material para a imprensa, também, muitas vezes, despreparada. Nossos políticos estão preparados para desempenhar suas funções? É preciso citar nomes para identificar os despreparados?! Alguém consegue fazer uma lista dos que estão verdadeiramente preparados e merecem estar lá?

O fim de todos os males

Querem mudar o país? Então, comecemos a mudar os políticos e, acima de tudo, as leis que eles próprios escrevem para se favorecer.

Há uma mensagem circulando pelas caixas postais de quem é considerado menos patético pelos conhecidos. O texto diz que o povo (esclarecido) decreta a seguinte lei:

  1. O congressista será assalariado somente durante o mandato. E não terá  aposentadoria proveniente somente pelo mandato.
  2. O Congresso deve contribuir para o INSS. Todo o fundo (passado, presente e futuro) atual no fundo de aposentadoria do Congresso passará para o regime  do INSS imediatamente. O Congresso participa dos benefícios dentro do regime do INSS exatamente como todos outros brasileiros. O fundo de aposentadoria  não pode ser usado para qualquer outra finalidade.
  3. O Congresso deve pagar para seu plano de aposentadoria, assim como todos os brasileiros.
  4. O Congresso deixa de votar seu próprio aumento de salário.
  5. O Congresso perde seu seguro atual de saúde e participa do mesmo sistema de saúde como o povo brasileiro.
  6. O Congresso deve igualmente cumprir todas as leis que impõem o povo brasileiro.
  7. Servir no Congresso é uma honra, não uma carreira.
  8. Parlamentares devem servir os seus termos (não mais de 2), depois ir para casa e procurar emprego.
  9. Ex-congressista não pode ser um lobista.

Acrescento aos itens acima os que seguem:

  1. Para ser eleito, o candidato a um cargo político deverá provar sua capacitação para o exercício da função pretendida, depois de se submeter a um curso específico, gratuito, com duração de no mínimo dois anos, como em qualquer concurso público.
  2. O salário do congressista* não poderá ser maior do que o dobro de seu último salário ou remuneração comprovada, e vigorará somente durante seu mandato, sem direito a qualquer verba extra.
  3. A dedicação dos políticos a seus cargos deverá ser, no mínimo, de oito horas diárias, de segunda a sábado, cumprindo a carga horária de 40 horas semanais. As leis trabalhistas serão aplicadas como para os demais brasileiros, incluindo os descontos por faltas.
  4. Os filhos do congressista deverão estudar, exclusiva e obrigatoriamente, em escolas públicas.
  5. Todas as despesas do congressista consigo próprio e com seus familiares serão pagas por ele próprio, sem a ajuda de seus empregadores, o povo ou o Governo, inclusive para sua moradia, educação, locomoção e alimentação, em qualquer circunstância.
  6. Ao se comprovar qualquer crime cometido por um político, este será imediatamente afastado de seu cargo, sem direito a qualquer remuneração até a conclusão de seu julgamento. Se condenado, o político não terá direitos privilegiados.
  7. Para ser eleito, o candidato deverá provar sua capacitação para o exercício do cargo pretendido, depois de se submeter a um curso específico, gratuito, com duração de no mínimo dois anos, como em qualquer concurso público.

Se não houver “gente de expressão” se candidatando, certamente também não haverá esse bando de chupins que existe hoje ocupando as cadeiras da política.

* Onde se lê “congressista(s)”, leia-se “todos os políticos, em qualquer instância”.

expressao


Nota: o vídeo que era exibido aqui foi removido do You Tube.

 

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