Comportamento

Estímulo à violência

Foi notícia em várias mídias e ganhou especial destaque no Facebook, com direito a apelos, campanhas e abaixo-assinados, a agressão de uma mulher contra um cãozinho da raça Yorkshire, levando-o à morte. Cruel? Demais! Uma covardia difícil de compreender e impossível de aceitar, digna de um bom castigo.

Portanto, a indignação é natural diante do fato, especialmente porque ocorreu na frente de uma criança de dois anos, filha da agressora. Visto que maltratar animais é um crime previsto no Artigo 32 da Lei Federal nº 9.605/98, é de se esperar que a moça responda pelo que fez, sujeitando-se à detenção de três meses a um ano e multa. A pena, aliás, é aumentada em um terço, uma vez que o animal perdeu a vida.

Pontos de vista

O resumo do parágrafo inicial é informativo e não deixa de mostrar meu desconforto pessoal com o episódio, como tantas outras publicações o fizeram. Porém, tão chocantes quanto o fato em si, são as reações que ele provocou, cheias de ódio e desejo de vingança, graças a um vídeo feito por um vizinho e publicado na internet no dia 14 de dezembro por sua irmã, segundo informação no You Tube.

O site meionorte.com, por exemplo, anunciou:

“A enfermeira de 22 anos suspeita de espancar e matar um cachorro da raça Yorkshire, em Formosa, no entorno do Distrito Federal, está em uma casa indicada por advogados e vai depor sob proteção policial. ‘Ela está abalada com as ameaças e com a repercussão do caso’, disse Gilson Afonso Saad, um dos defensores da mulher.

Os advogados solicitaram as medidas de segurança por causa das inúmeras ameaças que ela e família vêm recebendo desde a divulgação do vídeo na internet. As cenas mostram quando a enfermeira espanca o cachorro quase até a morte. Segundo a polícia, o Yorkshire morreu dois dias após as agressões.”

Ela e a família vêm sofrendo ameaças porque a moça, Camila Corrêa Alves de Moura Araújo dos Santos, agrediu o cãozinho. Quando prestou depoimento, ela alegou que estava num “mau dia” e que o cão dava muito trabalho.

Manifestações ácidas borbulham na internet incitando à vingança. Querem linchar Camila, amarrá-la a um poste e espancá-la até a morte. O assunto é trending topic no Twitter. Nas páginas do Facebook e Twitter, palavras como “assassina”, “enfermeira” e “pancada” são as mais citadas. Nos trending topics do Brasil, ‘CamilaDeMouraPresa’ e ‘Yorkshire’ aparecem desde o ínicio da tarde do dia 16. No Facebook, usuários estão divulgando a foto da jovem com a frase ‘Procura-se assassina’.

Pois é… O povo tem coragem(?) de reagir e fazer o maior alarde quando é para punir uma menina de 22 anos, casada e mãe, por ela ter agredido um cãozinho, mas se faz de sonso quando o assunto é mais grave, quando as vítimas são crianças abandonadas ou agredidas dentro de seus próprios lares, ou quando um político rouba o país, privando milhares de pessoas de receberem um atendimento digno em postos de saúde, para citar um só exemplo.

Não defendo a moça, ao contrário, acho que a lei deve ser cumprida e tudo deve ser investigado, inclusive as condições emocionais da criança (que aparece no vídeo sem dar importância ao que acontecia perto dela). Que ela seja julgada e punida como manda a Justiça, se for condenada. O que me dá nojo é ver que as pessoas só reagem com tal veemência quando não se sentem ameaçadas ou amedrontadas por um poder maior, quando sabem que não haverá retaliações.

As chamadas para as matérias sobre o caso são sensacionalistas: “Enfermeira espanca cãozinho até a morte!”. Calma aí, gente, o cãozinho morreu dois dias depois de apanhar. Tudo bem, é quase certo que isso tenha sido uma consequência das agressões, afinal a raça Yorkshire é frágil, mas a moça não ficou ali, babando de prazer, dando pauladas no bichinho até vê-lo morto como muitos dizem. Esse veneno é típico daqueles jornalecos que precisam apelar para o exagero para vender.

Por outro lado, não dá para engolir a desculpa de que o cãozinho “era um peste”, como alegou Camila para se justificar. Se não havia afinidade com o bichinho, ele poderia ser doado a quem goste de animais, por mais levados que sejam.

Todo exagero é ruim

No dia 16, recebi mensagem de uma amiga que solicitava minha participação num abaixo-assinado virtual para que Camila fosse punida. A mensagem era assinada pela “mãe amorosa de três cães e uma gata“.

Na verdade, ela tem dois filhos e um neto, mas preferiu assumir a maternidade dos animais de estimação, talvez pela sorte de jamais ter precisado fazer um apelo tão grave por qualquer um de seus filhos, noras ou neto, ou ainda de qualquer outro ser humano próximo. No intuito de mostrar o grau de sua indignação, expôs seu carinho pelos animais sem levar em consideração a impressão que poderia causar com o complemento de sua assinatura.

Um fabricante de rações animais mantém uma campanha para que todos adotem um cão. Ninguém gasta dinheiro para fazer uma campanha para a adoção de crianças, e quem as procura dá preferência às crianças menores e brancas; melhor ainda se tiverem olhos claros.

As pessoas que amam seus animais de estimação levam-nos ao veterinário regularmente, cuidam de sua vacinação e os castram para que não se reproduzam mais. Ninguém dá a educação necessária às pessoas, não cuidam delas e não acompanham a quantidade de “filhotes” que elas produzem, apesar de todos os métodos anticoncepcionais disponíveis. Se estiverem com fome, a resposta é “vai trabalhar, vagabundo!”.

Não entendo esse mundo em que os animais são importantes e os homens e mulheres não.

Não entendo essas pessoas que usam as redes sociais para incitar a violência, contribuindo para que os jovens e crianças que fazem parte delas assimilem tal ensinamento.

Não entendo a frieza de um vizinho que filma uma moça durante a agressão contra um animalzinho tão frágil, sem interrompê-la ou sem interferir para que o bichinho não sofra mais, e depois se vangloria de ter divulgado a cena.

Não entendo as pessoas que fazem tamanho estardalhaço por um fato como esse e se calam diante dos absurdos que acontecem diariamente, às vezes em suas próprias famílias ou com pessoas conhecidas; que se acovardam diante dos abusos que sofremos e alegam que “não gostam de política”.

É, realmente já passou da hora de acabar com este mundo. Nós de fato não o temos merecido.

Artigos relacionados

Leia também

Close
Close
%d blogueiros gostam disto: