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Diga não à depressão

Segundo especialistas, “os transtornos do humor são as desordens psiquiátricas mais comuns entre indivíduos com 60 anos ou mais. Dentre esses estão a depressão maior, a distimia e os sintomas depressivos clinicamente significativos (SDCS). A síndrome depressiva é caracterizada pela presença de humor predominantemente depressivo e/ou irritável e anedonia (diminuição da capacidade de sentir prazer ou alegria). Existe uma sensação subjetiva de diminuição de energia (cansaço, fadiga), desinteresse, lentificação, pensamentos pessimistas e ideias de ruína. Em geral, esses sintomas são acompanhados de modificações no sono e apetite, prejuízo cognitivo, alterações comportamentais e sintomas físicos. Podem ocorrer delírios ou alucinações congruentes com o humor como delírios de culpabilidade excessiva ou de saúde muito ruim, delírios de pobreza ou persecutórios; as alucinações são menos comuns, mas podem aparecer e tendem a ser visuais ou olfatórias. Os profissionais da saúde que lidam com este grupo etário devem ficar atentos aos sintomas depressivos mascarados, como dores inespecíficas, adinamia, insônia, perda de peso e queixas subjetivas de perda da memória, evitando imputar estas queixas ao envelhecimento pois os tratamentos disponíveis melhoram muito os sintomas e a qualidade de vida dos indivíduos acometidos.” (http://revista.hupe.uerj.br)

Bem, deixando de lado as palavras difíceis do vocabulário científico, vou me atrever a dar aqui uma opinião leiga, mas apoiada por experiências próprias com a autoridade de idoso que me foi concedida por um rótulo da sociedade por ter ultrapassado a barreira dos sessenta anos.

Em primeiro lugar, “delírio” e “sensação subjetiva” é a vovozinha torta! O que existe são fatos. Por exemplo, a “sensação subjetiva” de cansaço vem, principalmente, depois que eu faço faxina na casa ou fico no telhado durante algumas horas para passar um cabo de internet a um ponto distante do modem porque um garoto de vinte e poucos anos não tem disposição ou cobra mais do que merece por esse trabalho; ou quando me desloco pela acidentada topografia de Bragança Paulista por até 10 quilômetros para ir e voltar de algum lugar, já que tenho “delírios” de pobreza que me impedem de possuir um carro. E, sim, sou irritável, especialmente quando leio asneiras desse gênero. Porém, não sofro de prejuízos cognitivos. Ao contrário, sinto necessidade de aprender algo novo a cada dia. Já as ideias de ruína, estas vêm do cenário político brasileiro, não são invenções de uma mente debilitada, nem tampouco de alucinações. Daí a “anedomia”. De fato, com esse cenário é realmente difícil manter a capacidade de sentir prazer e alegria, especialmente quando não se tem o atendimento adequado de um plano de saúde, segurança nas ruas e uma razoável reserva de dinheiro em aplicações financeiras. Juntando toda essa “josta” com a frustração de ver “profissionais” atuando no mercado sem a devida capacitação, eu diria que é quase impossível evitar o mau humor.

Vamos falar a verdade

palavras_cruzadas

Nossa vida é dividida em fases que costumamos identificar como infância, puberdade, juventude, idade adulta, maturidade e velhice. E tais classificações têm, aos nossos olhos, duração diferente. A infância é rápida, passa voando; as crianças não veem a hora de entrar na puberdade que, por sua vez, também é curta devido à ansiedade de se tornarem adultas, o que levará muito mais tempo do que imaginam. Entre a infância e a idade adulta atravessamos a fase mais chata da vida, a puberdade. É nela que nossos corpos se transformam, os hormônios entram em ebulição e as vozes instáveis.

Não há idade certa para definir quando começa e termina cada fase, porém, por convenção, sentimo-nos no direito de estabelecê-las por conta própria. “— Você só será um adulto quando completar a maioridade.” – Bobagem. Há crianças mais adultas que os adultos e adultos mais infantis que as crianças. E é exatamente aí que está um dos maiores erros do julgamento humano. A maturidade não chega com a maioridade. Logo, um adulto não será necessariamente maduro, assim como um idoso não há de ser necessariamente velho. “Idoso” é apenas um rótulo usado para muitas coisas, algumas boas, outras, ruins. Ao conquistar esse rótulo, as pessoas ganham o direito da preferência de atendimento e podem até usar o transporte público sem pagar. Em contrapartida, o mercado de trabalho já se fechou para elas muito antes, restando-lhes os subempregos, os quebra-galhos. Então, você passa a ver um engenheiro bem formado e super habilitado atuando como corretor de imóveis ou como vendedor numa loja de móveis, como se isso fosse natural.

Nesses casos, a Medicina se engana redondamente. Não é a idade que provoca a depressão, mas, a situação em que o idoso é colocado, sem desejar isso.

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A deprê

A melhor receita para evitar a depressão é ocupar sua mente e seu corpo com outras coisas. A falta do que pensar e do que fazer são como saltar de um avião sem paraquedas em direção ao poço da depressão. É bom manter-se ocupado, de preferência sem ocupar os outros, pois isso aumenta o risco de você ser considerado um grande chato.

Mas, há momentos em que as palavras parecem que chegam atravessadas em nossos ouvidos, e cheias de pontas, desnecessariamente. Se elas vêm dos filhos, então… Puxa, é preciso ter uma estrutura muito resistente para se manter em pé. Só quem os tem sabe avaliar isso. Entretanto, vejo pessoas que estão sempre no fundo de um poço imaginário por motivos que não merecem tanto. Porém, dizem os mais entendidos que depressão é uma doença, e precisa ser tratada com medicamentos e terapia.

Sei bem o que é depressão, já passei por isso, e não foi uma única vez. Me curei sem remédios e sem abusar da paciência de quem cobra (caro) para apenas ouvir os problemas alheios, sem resolvê-los. E não fui o único. Há milhões de pessoas que carregam pesados fardos e têm que dar conta do recado sem ajuda de ninguém. Nem por isso estão internadas em clínicas especializadas, recebendo tratamento especial, até porque o SUS provavelmente não cobriria seus gastos.

Embora apareça nos livros de Medicina como uma doença, a depressão é, em boa parte das vezes, uma “frescurite” consequente do egocentrismo, da necessidade de ser paparicado(a), de ser o centro das atenções. É, acima de tudo, autopiedade; um luxo que os pobres não podem ter.

velho_cozinhandoConheço vários homens, já velhos, que moram sozinhos. Aliás, sou um deles. Nessa condição – nem sempre espontânea – não há tempo para entrar em depressão, é preciso cuidar de tudo, a fila anda!

Se eu disser a um médico que durmo pouco, ele, provavelmente, vai receitar um ansiolítico, a prática de exercícios físicos, caminhadas diárias ou, ainda pior, tentar me convencer de que isso não passa de uma virose… Certamente, vai recomendar uma dieta alimentícia mais saudável e, não duvido, maior interação com pessoas da minha faixa etária – o que, indubitavelmente, me levaria à depressão. Sei o que estou falando.

Muito ao contrário, eu gostaria de ter uma vida mais ativa, me cercar de gente animada, participar de uma roda de violão ao menos uma vez por semana, beber whisky importado, ter um carro confortável na garagem, uma diarista três vezes por semana e o reconhecimento de minhas qualidades profissionais. Não gostaria de me aposentar. Vejo muita semelhança entre certas palavras e prefiro evitá-las, como “sócio” (só ócio) e “aposentado” (aipo sentado). Quero viver! Mas sinto que as pessoas esperam que minha vida acabe logo, talvez por se impressionarem com as rugas que antes não existiam ou com a cor esmaecida dos poucos cabelos que me restam. Me abate pensar que há quem se preocupe em saber se tenho seguro de vida, e pergunto “— Por que? Você está querendo marcar a festa?”

turcoSe eu compartilhasse detalhes da minha vida, daria a chance de pensarem que sou depressivo. Motivos não me faltam. Mas, não tenho vontade de me entregar. Isso seria uma derrota, e eu não gosto de derrotas.

Sinto orgulho se ser eclético. Faço – ou já fiz – quase qualquer coisa, e não escolho trabalho. No bom sentido, eu diria que “faço qualquer negócio”, desde seja lícito. Já fui criticado por me lançar a diversas tentativas consecutivas sem sucesso e ouvi de um amigo: “— Não consigo entender por que um cara como você não de deu bem na vida. Você sabe fazer várias coisas, tem ótimo grau de cultura, é habilidoso, músico, compositor, inteligente, perfeccionista, tem boa apresentação (isso mata, não?), experiência sólida e diversificada, é responsável, se compromete com tudo… Era para você estar bem… (ai, isso doeu)”.

Fiquei em silêncio, pois também me digo as mesmas coisas, e me pergunto onde e quando errei. Mas, os elogios mereciam uma resposta:

— É praga de alguém. – Respondi, encerrando o assunto.

Acuado

pirataÀs vezes me sinto como se estivesse na ponta da prancha de um navio pirata – como nas histórias em quadrinhos –, pressionado a escolher entre a espada e os tubarões, ou o afogamento. Não há saída aparente. As empresas me veem como um velho à espera da aposentadoria e talvez me julguem digno de um salário de sete dígitos, devido aos meus conhecimentos e capacitação. Caro, portanto. Os jovens provavelmente me veem como uma ameaça diante de seu despreparo profissional, ou, simplesmente, talvez não se sintam à vontade para errar. Por comiseração, podem me fazer um favor, arranjando-me uma mesa e uma cadeira, sem qualquer responsabilidade ou desafio, concedendo-me a metade do salário de um recém-formado, ou me convidar para atuar como corretor de imóveis, sem nenhuma garantia, com folgas quinzenais em algum dia da semana, exceto sábados, domingos e feriados, quando me colocariam no plantão, liberando os jovens para curtir a vida.

É visível nos olhos dessas pessoas a surpresa de se verem diante de um “velho” que ao telefone mostrou tanta energia e determinação. E como confiar em alguém que, com tanta bagagem, se dispõe a fazer um trabalho sério por tão pouco?

No final de cada dia (e são todos iguais), somo novas frustrações às tantas acumuladas. Frustro-me especialmente com os medos das pessoas. Há muito, perdi esse sentimento. Ainda não cumpri minha missão, por isso, amanhã, tentarei de novo. Não tenho o direito de me entregar à depressão e despencar num sofá, olhando para as paredes. Se tiver que escolher, prefiro enfrentar a espada a me acovardar no mar, ainda que lá eu tenha mais possibilidades ou melhor sorte.

A depressão? Não se engane, se ela tentar me pegar de novo, vai se dar mal.

ditado

 

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