CidadesSanta Isabel

A cultura do Egocentrismo

Como acontece a cada quatro anos, a disputa pelas prefeituras costuma ser acirrada. E nas cidades pequenas isso costuma acontecer com uma paixão incontida, como num final de campeonato entre times rivais. Em alguns locais, não são raros a troca de críticas e acusações, o embate de locutores que usam veículos de som como tanques de guerra, judiando dos ouvidos dos munícipes como se estes se permitissem influenciar por essa rinha que nada mais é do que a briga por uma posição confortável na equipe que pretendem tornar vencedora, o que, de fato, acaba ocorrendo.

Fábia Porto Rossetti foi eleita prefeita de Santa Isabel com uma diferença de 1.964 votos, número este que não chega a ser expressivo quando comparado ao número de votantes  (quase 40.000), porém, representa a vontade de 53,37% dos votos válidos apurados em outubro de 2015.

Política é um exercício complexo. Envolve negociações, coligações, acordos, trocas, paciência, tolerância e muita, muita coragem, principalmente quando se tem por meta alguma mudança substancial na maneira de conduzi-la.

Em São Paulo, Capital, João Dória deu uma surra em seus concorrentes vencendo-os com 53,29% dos votos válidos. Em segundo lugar, Fernando Haddad obteve apenas 16,7% dos votos. Neste caso, ficou evidente a preferência dos paulistanos. Todavia, a “radicalidade” do novo prefeito chocou alguns grupos, como o dos pichadores, quando a cidade começou a mostrar sinais de civilidade com a faxina aplicada.

Dória tem mostrado que é possível administrar uma das maiores cidades do mundo com inteligência e sem desperdício de dinheiro, encontrando apoio total das empresas, algumas estrangeiras. Mas, para isso teve que assumir o papel de negociador, eliminar os intermediários espertalhões e impor uma disciplina que havia se perdido. Secretário que chegar atrasado a uma reunião será punido com desconto em folha. É a nova regra, e ponto final.

O povo, porém, não se satisfaz com o que é correto, mostra que faz jus à fama de que quer levar vantagem em tudo e exerce com toda a naturalidade seu egocentrismo pessoal. Cada pessoa se julga mais importante que todas as demais e quer ver suas necessidades atendidas em primeiro lugar. Não importa se um barranco está prestes a ruir sobre um conjunto de casas do outro lado da cidade, o que importa é o buraco que existe na porta de sua casa e o risco de dano que ele oferece à suspensão do seu carro. Cada um olha apenas para seu próprio umbigo, e se não recebe o atendimento desejado imediatamente, começa a criticar até o que é bom.

Vejo isso acontecendo em Santa Isabel. Algumas pessoas imaginam que elegeram uma fada madrinha capaz de realizar todos os desejos ao mesmo tempo. E não chegamos ao fim do segundo mês de mandato!!!

As pessoas usam as redes sociais para criticar tudo e todos, mas são incapazes de mexer um dedo para resolver seus problemas. Elas se mostram investidas dos poderes da geração Miojo, querem tudo pronto em três minutos e sem nenhum esforço. Querem que tudo seja permitido sem avaliação, sem estudo, sem critérios e até sem o empenho prévio da verba necessária para atender sua reivindicação. E pior, sem oferecer nenhuma contrapartida.

A prefeitura está tentando limpar a cidade, mas o povo continua jogando móveis velhos e entulho nos locais onde somente o lixo doméstico deveria estar. O ribeirão Araraquara voltou a ser visto depois que todo o mato que o cobria foi retirado, no entanto, continuam jogando ali coisas que deveriam ir para o lixo.

Quando algum ato ilícito é praticado ninguém tem coragem de denunciá-lo, mas querem que a Polícia esteja em todos os cantos da cidade como se pudesse se multiplicar. É uma constante e interminável ladainha de “eu quero”, “eu preciso”, “eu exijo”, mas, “não faço”.

A cidade passou quatro anos sendo administrada por um padre e um pastor, e ninguém pediu milagres. Agora os querem. Bem, eu também adoraria ganhar um prêmio acumulado da loteria, mas, para isso seria necessário que eu fizesse minhas apostas regulares! Sem jogar não há como ganhar!

Não é porque pagamos impostos que devemos colocar tudo nos ombros das instituições que os recebem.

Ao contrário do que o senso comum acredita, o IPTU não é pago para manutenção das ruas, calçadas e outros serviços públicos ligados à propriedade de um imóvel. O imposto, qualquer imposto, é pago para arrecadar dinheiro para os cofres públicos, a fim de que os custos de manutenção de toda a sua estrutura sejam cobertos. A propriedade é motivo pelo qual o proprietário de imóvel deve pagá-lo. Ou seja: quem é proprietário de imóvel deve pagar o IPTU porque possui imóvel em zona urbana, e pelo sinal de riqueza que se emite por ter aquele imóvel. Segundo esta lógica, quanto mais caro o imóvel que esteja localizado em região mais valorizada, maior será o imposto devido; o inverso também é verdadeiro: quanto menor o valor do imóvel e quanto menor a valorização da área onde ele está localizado, menor o valor a ser pago a título de IPTU.

Agora raciocine: se os imóveis pagam impostos de valores diferentes, por que seus proprietários não recebem em troca serviços diferenciados? Por que a coleta de lixo é a mesma, assim como a iluminação pública ou o calçamento das ruas onde eles foram construídos? Por que os ricos não são protegidos por policiais vestidos com traje de gala?

A conclusão é simples: a arrecadação do município destina-se igualmente a todo o município, de acordo com suas prioridades e necessidades. Por isso, se um barranco estiver prestes a ruir sobre um conjunto de casas do outro lado da cidade e não vierem fechar o buraco que há na frente da sua casa, tenha um pouco mais de paciência e aguarde a sua vez, ou, em caso de urgência, reúna seus vizinhos e discuta com eles as alternativas. Aprenda a sentir orgulho daquilo que você é capaz de fazer pela sua rua, pelo seu bairro, pela comunidade, pela cidade onde você vive! Você vai perceber que a sensação é gratificante.

Nada é impossível, mas milagre demora um pouquinho mais. Além disso, dinheiro não cai do céu. Só é possível usar o que se tem nas mãos (ou nos cofres). Fabricar dinheiro é crime, assim como as pedaladas fiscais. Portanto, é preciso andar na linha. Caso contrário, já sabemos como isso acaba…

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