Santa Paciência vs. Bagunça Paulista – o que é pior?

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Mês passado, completaram-se três anos desde a minha vinda para esta cidade. Eu já estava cansado de Santa Paciência – forma como me refiro à cidade de Santa Isabel por considerá-la como um asteróide da Terra – e minha transferência aconteceu com grande alívio, pois envolvia uma oportunidade de trabalho, o que não existe naquele outro município(?).

Se todo mal fosse esse, fácil seria relevar. Mas, vendo o sacrifício daqueles que precisam trabalhar em outras cidades é que se começa a ver a inutilidade de Santa Paciência. E não é só isso. O descaso da prefeitura para com os contribuintes é vergonhoso. Além de ter elevado significativamente os valores venais dos imóveis para aumentar a receita com o IPTU, desde seu primeiro mandato, o prefeito Hélio Buscarioli decepcionou como administrador, fingiu-se de morto ao receber inúmeras sugestões valiosas e chegou a defender os cinco secretários que saíram algemados da prefeitura, acusados de formação de quadrilha e desvio de dinheiro público, permitindo também que subalternos lhe tirassem o poder. Ou, pelo menos, fez parecer assim, talvez por conveniência, preferindo a fama de marionete supostamente honesta.

Ou quase…

Esse… senhor… adquiriu, na condição de prefeito, um galpão que pertencia à Paramount e estava abandonado há anos, na região central, no bairro conhecido como Lanifício, para ali instalar sua empresa. Esse galpão é vizinho e tem dimensões similares às instalações da Móveis Teperman. O que os separa é uma ruela de três metros de largura, nomeada Rua Alcino Acácio de Camargo, usada pelos moradores do bairro para ir e vir do centro da cidade. Trajeto este que é feito por pedestres e veículos diariamente, não raramente mais de uma vez, por ser o caminho mais curto.

Até aí, feliz o prefeito que tinha cacife para comprá-lo. Dificilmente outra pessoa da cidade teria poder para tanto.

Comprar a propriedade era um direito de qualquer cidadão ou empresa com dinheiro suficiente. Mas, eu queria ver se dariam autorização a outro comprador para bloquear a rua, como foi concedido ao prefeito que a transformou em canteiro de obras. O alcaide simplesmente interditou a passagem, sem dar satisfação ou pedir consentimento, como se a rua também tivesse sido comprada.

Foi aí que acreditei: Santa Paciência está no Brasil, nesse país onde político pode tudo, faz o que quer e que se dane o povo que se cala diante de tantos abusos. É bem feito!

Eu, que já não moro mais naquele lugar, e nem tenho vontade de visitá-lo, apresentei queixa junto ao Ministério Público, afinal, quem esse prefeito pensa que é para tomar uma rua e usá-la em seu próprio e exclusivo benefício numa cidade onde não existe sequer uma área de lazer?

Mandei fotos colhidas do Google Maps, mostrando que a passagem tinha nome, era de uso público. Alguém foi lá para conferir? Não, claro que não. O Ministério Público, decerto por falta de pessoal, se limitou a enviar minha denúncia para a prefeitura de Santa Paciência e pediu que se manifestassem.

E, como de costume, a prefeitura esperou que as obras fossem concluídas e os tapumes fossem removidos para, então, responder que a interdição foi necessária porque as paredes precisavam ser demolidas e as telhas tinham que ser erguidas com a ajuda de guindastes. Uau! Que imaginação! Usar guindastes para levantar telhas que dois trabalhadores erguiam com facilidade, com as próprias mãos, usando andaimes, no dia em que passei por lá.

Gente, a prefeitura paga advogados para escrever suas justificativas mentirosas, e faz isso com o dinheiro do povo, justificando a interdição de uma rua que pertence aos munícipes. O povo, por sua vez, cala a boca, como sempre, acreditando que vai ter emprego na nova fábrica. Isso é o brasil que merece ser escrito com letras minúsculas, o país das ilusões. Certamente vão alegar que não existem na cidade profissionais especializados para trabalhar lá.

Fim das contas: de fato, cada povo tem o governo que merece.

Mudança de ares

Quando cheguei aqui, me senti em casa. A população, quase três vezes maior que a de Santa Paciência, mantém alguns hábitos conservadores e agradáveis, como cumprimentar a todos, mesmo os desconhecidos, parar o carro e dar passagem para os pedestres, sem se importar se há semáforos ou sinais que sugiram isso, apenas por gentileza. E o sotaque é típico, aquele caipira carregado, mas, apesar de tão próximo do Estado de Minas Gerais, não chega a ser parecido.

A topografia não é muito diferente da de Santa Paciência, é o que podemos chamar de uma cidade de altos e baixos. Há ladeiras muito íngremes, difíceis de vencer a pé, e também de carro, pelo menos nos dias de chuva. E o clima é excelente, exceto pelos ventos que quando chegam quase nos tiram do chão. Os lagos são a grande atração. O maior deles, logo à entrada da área urbana, é o Lago do Taboão, muito frequentado por causa de seus bares e restaurantes e também por aqueles que fazem caminhadas ao longo de seu perímetro de 2.500 metros.

Bagunça Paulista – assim chamada depois dos meus três primeiros anos aqui – tem tudo para dar certo. Exceto no que se refere à sua administração. A prefeitura parece falida. Não tem máquinas e equipamentos necessários à manutenção da cidade, não tem pessoal suficiente ou bem preparado nem mesmo para as tarefas mais básicas, e tudo indica que não há fiscais para controlar o que é feito nela. As calçadas estão em pandarecos em muitas ruas, assim como o calçamento, falta água nas torneiras com mais frequência do que deveria. Se alguém decide fazer uma reforma em sua residência ou estabelecimento, o faz na maioria das vezes sem consultar a prefeitura, e há também os que, sem nenhuma cerimônia, levantam tapumes nas calçadas, forçando o pedestre a usar o leito carroçável para transitar, expondo ao risco de ser atropelado.

Há dois anos percorro uma calçada que foi destruída – provavelmente pela Sabesp ou pela prefeitura – e assim continua até hoje. Já vi gente levando tombo por lá, idosos com dificuldade de vencê-la, e carrinhos de bebê circulando pelo meio da rua. Se acontecer um acidente grave, todos escorregarão como se tivessem tomado banho com caldo de quiabo. A culpa é sempre do contribuinte.

O prefeito está sempre presente nos eventos sociais, e não importa do que seja, quando há inauguração de qualquer obra pública, até mesmo a fixação de uma placa, sempre acontece uma grande queima de fogos, que é para toda a cidade ouvir. Nessas ocasiões essa gente sabe fazer barulho… O negócio é aparecer, e não ser notado.

Em suma, Bragança Paulista não é tão diferente de Santa Isabel, exceto pelo tamanho. Politicamente, ambas merecem notas que não chegam a alcançar a unidade, seus números mais significativos são sempre antecedidos de um zero e uma vírgula, isto é, são um zero à esquerda. Falta competência política, pulso, vontade, determinação, sonhos e planos.

As eleições vêm aí

Este é um ano de eleições municipais. As figurinhas já são conhecidas. Se surgirem novos candidatos além dos atuais ocupantes dos cargos públicos mais importantes e perdedores do pleito para deputado, certamente serão do mesmo naipe, gente querendo resolver sua vida pessoal, atrás do dinheiro fácil, prometendo empregos bem remunerados para parentes e amigos.

Santa Paciência e Bagunça Paulista são apenas dois dos milhares de exemplos que o Brasil nos dá de sacanagem.

Hoje encontrei três funcionários da prefeitura capinando o mato que cresce junto à sarjeta, na rua onde moro. Como o mato diante de minha casa já alcançou uma altura enorme, prejudicando o estacionamento de veículos e oferecendo riscos aos pedestres, perguntei a eles se fariam aquele trabalho em toda a rua. Um deles respondeu: “Ah, hoje não“.

Expliquei a situação e a dificuldade que venho tendo para conseguir que a prefeitura mande retirar o mato que cresce na rua (território dela), e perguntei se eu poderia fazer, por conta própria, uma capa de concreto sobre a faixa de paralelepípedos deixada para as águas pluviais, a fim de impedir o crescimento do mato. Disseram que sim, me informando também que a aplicação de veneno, o conhecido mata-mato, estava proibida.

Então, perguntei: “Mas, se eu pago impostos para a prefeitura e a responsabilidade sobre as ruas é do Poder Público, por que eu devo fazer o que já deveria ter sido feito?” Todos riram e disseram que cuidam de suas ruas como se elas fizessem parte dos imóveis onde moram.

Sem alternativa, fui a um depósito de materiais de construção e comprei uma enxada.

Enquanto eu mesmo retirava o mato defronte minha casa, suando em bicas, um senhor parou o carro e disse com indignação: “Cobrar impostos eles sabem, mas, trabalhar que é bom, os safados não querem, né?

E eu vou dizer o que??!!

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