Ridícula Política

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Já me perguntaram, várias vezes, por que nunca me filiei a um partido político; e por que nunca me inscrevi para disputar um cargo político, sendo tão envolvido com o que acontece ao meu redor nos lugares onde já morei.

A primeira vez que recebi um convite para me filiar a um partido foi em São José dos Campos, há quarenta anos, quando o então vereador Bérgamo Pedrosa Filho filiou-se ao na época ainda inexpressivo Partido Verde, sugerindo que eu me candidatasse ao cargo de vereador. Declinei. Tinha outros objetivos; minhas filhas ainda eram pequenas e eu não me considerava preparado para assumir a responsabilidade, embora cumprisse meu papel de cidadão procurando fazer algo de bom pela rua e pelo bairro onde morávamos, o Monte Castelo. Não me era possível fazer muito. O expediente da Engesa – Engenheiros Especializados S.A. começava às 7h20 e se estendia até as 18h15, de segunda a sexta-feira, e não eram raras as vezes que nos exigiam dedicação extra.

Em 1981, quando nos mudamos para a Vila Ema, tive o privilégio de conhecer um casal de japoneses muito especiais que levantou (na mais verdadeira acepção da palavra) a SAVEMA – Sociedade de Amigos dos Bairros de Vila Ema, Jardim Maringá e Adjacências, motivando-me a participar de seus movimentos. E foi ali que teve início meu real engajamento nas causas comunitárias. Foram quase dez anos de muitas lutas e algumas vitórias prazerosas, a despeito dos riscos de enfrentar o poderio das construtoras.

Nesse ínterim, novos convites para mergulhar na política foram surgindo, inclusive do próprio Bérgamo, quando se filiou ao Partido dos Trabalhadores, o famigerado PT. Talvez tenha sido a época em que recebi o maior apoio de amigos e conhecidos. Entretanto, depois de ler o estatuto do partido, declinei novamente. Com visão empreendedora, eu me sentiria como um alienígena entre os membros e simpatizantes do PT.

Tempos depois, a médica Ângela Guadagnin, a quem eu já conhecia, tornou-se prefeita de São José dos Campos, também pelo PT, e nas diversas ocasiões em que nos encontramos, ela brincava: “— Filie-se ao PT, vou preparar você para ser político”. Nunca recebi esse comentário a sério, até porque já havia formado minha opinião sobre a política e estava convencido de que meu perfil não era condizente com o cargo de vereador. Sabia como funcionavam os acordos de troca de interesses e repudiava o desprezo com que eram tratados os assuntos apresentados nas sessões da Câmara Municipal. Havia testemunhado a aprovação, pelo silêncio ou omissão, de um sem número de projetos que em nada beneficiavam a população joseense. E isso era comum em outras cidades e – por não dizer? – em todo o país.

Imaginem um “clube fechado” com 21 membros, cada qual visando vantagens para si mesmo. Assim era a Câmara Municipal.

Era?!

Lembro-me de um vereador que passou os quatro anos de seu mandato sem conseguir aprovar um projeto sequer. Era honesto. Um cordeiro no meio de lobos. Como se manifestava contrário aos conluios, não conseguia o apoio de seus “colegas”.

Tive oportunidade de conhecer quase todos os vereadores que passaram por aquela Casa durante os 34 anos que vivi em São José dos Campos. Incomodei boa parte deles. Era fácil identificar os que não eram autênticos, os que eram pequenos demais para o tamanho de seus Egos, os que viviam “na moita”, os inexpressivos, as marionetes e os safados, pois, sim, eles existiam.

Em outras postagens já contei quando e por que vim para Santa Isabel, e o que tentei fazer por esta cidade. Foram murros em ponta de faca, mas, não desisto. “Água mole em pedra dura…”

O cenário político por aqui não difere do que já vimos em qualquer outro lugar do Brasil.

Agora, ano de eleição, ao andar pelas ruas tropeçamos nos pré-candidatos. Parece que todos querem se eleger vereadores. Eu não. E, mais uma vez, ouço as pessoas me perguntando “por quê?”.

Decidi responder.

O cenário preparatório

A política, em seu conceito mais popular, é como um circo antigo: tem animais selvagens, cãezinhos adestrados, equilibristas, malabaristas, acrobatas, mágicos e palhaços. Há apenas uma diferença em relação ao velho circo: todos os atores visam vantagens pessoais.

Com exceção dos mortos, todos os que se inscrevem para disputar uma eleição municipal têm como prioridade a solução de seus próprios problemas e dificuldades, por isso são muitos, pois têm a tranquilidade de só lhes ser exigida a cidadania brasileira e a capacidade de assinar o nome, além da maioridade. Pode ser deficiente visual, auditivo e até mudo, e não é necessário conhecer as responsabilidades do cargo e nem mesmo o que precisarão fazer caso sejam eleitos. Basta ver o caso do Tiririca, a quem respeito como pessoa e comediante.

A campanha

campanha-eleitoralA maioria dos candidatos está imersa na mais absoluta ignorância; não conhece a cidade ou seus problemas e não tem nenhuma sugestão que possa trazer benefícios coletivos; repete, quando muito, os discursos que já ouviu, sem saber sobre o que está falando. E não tem ao menos a preocupação de se inteirar, ao longo da campanha, do que acontece. Vai para o que Deus quiser, contando com a sorte e com o falso apoio de conhecidos. Claro que boa parte deles viverá apenas uma aventura passageira e voltará ao mundo real tão logo acabe a eleição, enfraquecida pela frustrante experiência, mas… Há o risco de isso não acontecer. De qualquer forma, atrapalham, e muito, os que poderiam ter algo mais interessante a mostrar, pois dividem, com seus discursos vazios, o tempo concedido aos partidos. Alguns são tão ridículos que conseguem fazer o circo ser mais engraçado, quando deveriam ter um comportamento mais sério, ético e moral. O público tende a generalizar essa impressão.

O período de campanha converte-se num sacrifício de massa, pior do que assistir ao programa do Faustão (e assemelhados) ou aos reality shows. Em cidades pequenas, a disputa se desenrola com ofensas, muito barulho – principalmente com uso de carros de som –, sujeira (em todos os sentidos) e, se vacilar, na base do tapa, podendo chegar a assassinatos. Não havendo argumentos sólidos, vão buscar registros do passado, exibindo com orgulho um jornalzinho escolar no qual o candidato foi citado por ter discutido com a namorada diante dos colegas.

De repente, todos os candidatos viram santos salvadores da Pátria e prometem o impossível. É o período em que você recebe mais apertos de mão, tapinhas nas costas e sorrisos forçados, como os das dançarinas de programas de auditório. E, é claro, pedidos de apoio. Consequentemente, é também o período em que mais mentimos, dizendo que “podem contar conosco e com toda a nossa família”.

As promessas

Candidatos não pesam o que dizem. Prometem tudo e mais um pouco, apostando na ignorância dos eleitores, ainda que saibam que a aprovação de cada promessa dependerá do apoio dos demais políticos da mesma instância e, muitas vezes, das instâncias superiores, de onde geralmente vêm as verbas.

Felizmente, este ano houve mudanças na lei a fim de conter os abusos. Mas, brasileiro dá jeito em tudo, sabe como contornar as proibições com mal feitos que demorarão para serem descobertos.

horario-gratuitoPara evitar riscos, os discursos têm sido menos ousados. Em vez de promessas, o candidato cria “bandeiras” para conquistar a simpatia do povo: pelo desenvolvimento econômico, pelo fim de tudo que está aí, pela melhoria do transporte público, etc. Isto é, ele se posiciona como defensor de causas que serão reusadas na campanha seguinte. Isso virou moda.

Quem viu a votação para aprovação do processo de impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados sabe quão absurdos foram os discursos e, principalmente, as dedicatórias para justificar os votos.

Da propaganda à prática

rei-politicoOs candidatos acordam na manhã do dia da eleição (quando conseguem dormir) cheios de esperança. Até os ateus rezam para pedir ajuda Divina. Naquele dia, são os seres mais humildes do planeta, e no dia seguinte, se eleitos, estarão, pela primeira vez, com sorrisos verdadeiros rasgando seus rostos, com gosto da vitória em suas bocas. Passarão os dois meses seguintes tomados pela ansiedade, divulgando aos quatro cantos da Terra sua nova condição: “fui eleito!“.

No primeiro dia do ano seguinte, comparecerão à cerimônia de posse para receber seus diplomas. É quando começa sua transformação.

A partir de 2 de janeiro, quando se sentarem pela primeira vez em seus gabinetes, a cidade terá novos reis. Todos já terão escolhido seus secretários e assessores, com os quais tinham acordos desde sua inscrição como candidatos. São poucas as exceções. É hora de começar o jogo. A primeira providência é criar obstáculos para a aproximação dos amigos, dispensando na porta os que se mostrarem interessados em uma “oportunidade”. Figuras públicas precisam de segurança, mordomias e… “Quando é mesmo que vem o primeiro salário?! Já está liberada a verba de representação? Posso usar um carro oficial? Se eu apresentar nota fiscal, vou ter as despesas ressarcidas?”.

Não é bem um jogo… É mais uma festa. Nenhum deles terá uma proposta para apresentar à votação durante várias semanas, ou meses, até que um deles, mais ousado, querendo se mostrar mais simpático, sugere um aumento de seus próprios salários. Aprovação unânime!

Assim funciona o processo para eleição do primeiro presidente da Casa.

O trem da alegria

negociandoÉ prática comum no meio político o acerto financeiro entre o eleito e seus “protegidos”. O combinado é que o ASPONE deve devolver ao seu protetor uma parte de seu salário. Sem recibo, evidentemente. Afinal, ele (ou ela) foi escolhido por ser um amigo que estava em situação difícil e, para garantir sua tranquilidade durante os quatro anos seguintes, é “justo” que ele pague um preço.

O próximo passo é receber os lobistas, com quem serão acertadas as propinas que serão “doadas” em troca do voto favorável a algum projeto que beneficie os grupos por eles representados. Essa é a fonte mais rentável da política. Os salários e demais benefícios são para as extravagâncias dos fins de semana.

Cada político tem direito a um determinado número de assessores. Poucos serão reais. Os “fantasmas” apenas cederão seus nomes para justificar os salários, e farão isso em troca de migalhas, muitas vezes por necessidade. Uma equipe grande, ainda que irreal, ajuda a justificar os valores lançados nas notas fiscais que serão apresentadas para ressarcimento por “exercício da função”. Paga-se (ou não) R$ 50,00 e pega-se uma nota de R$ 500,00. Nenhum comerciante criará obstáculos, porque é bom ser amigo do rei… Caixa dois virou cultura!

Somam-se à fortuna política um quinhãozinho do Fundo Partidário, um desviozinho das verbas conseguidas por colegas de mais alto escalão, uma gratificação ou outra por presença em sessões extraordinárias, e pronto! Eis que temos, provavelmente, os políticos mais corruptos do mundo e da História.

Daí em diante, todos conhecem a realidade. Dinheiro compra qualquer coisa, inclusive o silêncio, e até urnas eletrônicas acompanhadas de programas de manipulação de votos.

Conclusão

A política é o que é porque as pessoas francas e honestas não se candidatam, por não terem estômago para lidar com essa imundície.

Esta é minha resposta àqueles que me perguntam por que não me coloco como canditato a um cargo político: sou franco e honesto, eu seria esmagado pelos outros.