Rasgue seu diploma. Compre um novo!

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Acredito que esta seja a primeira vez que um artigo deste blog se enquadra em três categorias: comportamento, internet e mercado, pois o tema tem a ver com todas elas: a venda de diplomas, uma prática antiga agora praticada virtualmente, de forma muito mais segura… para os espertalhões.

Eu esperava um mote ou inspiração para postar um novo artigo. Decidi fazer uma pausa, pois não queria abordar nenhum assunto relativo à política, devido às náuseas e aos maus sentimentos que isso tem provocado em mim. E eis que hoje, de repente, encontrei em minha caixa postal uma mensagem com o título “Compre seu diploma superior“.

Há pequenas coisas que me incomodam muito, isso acontece com frequência quando leio e percebo alguns absurdos. Afinal, o que é um “diploma superior“? Seria, talvez, um diploma confeccionado em papel especial, com impressão a ouro? Não, o remetente estava oferecendo diplomas de curso superior, o que me levou a outro questionamento: com a atual qualidade do ensino, ainda existem cursos que são realmente superiores?!

Bem, voltando ao assunto principal, a oferta de diplomas, isto vem acontecendo amiúde e há muito tempo sem qualquer preocupação aparente das autoridades brasileiras. O anúncio dizia:

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O esquema

Existem várias modalidades nacionais e internacionais para esse tipo de golpe.

Na versão nacional, os golpistas se apresentam normalmente como intermediários (pessoas físicas ou supostas entidades/empresas), ou funcionários de alguma faculdade ou até do próprio MEC. Eles oferecem diplomas universitários ou de ensino médio sem a necessidade de frequentar os referidos cursos ou passar por exames, sendo necessário somente pagar pelo “serviço” deles. 

Para conseguir isso, alegam ter um “esquema” nas escolas, nas faculdade e até no MEC (Ministério da Educação e Cultura); dizem que o diploma é regularmente registrado tanto na faculdade/escola quanto no MEC, e que é criado também o histórico escolar, tudo como se fosse real. Os meios mais comuns de divulgação da oferta são sites das tais “entidades”, e-mails de propaganda (spam), anúncios na internet ou em jornais. Toda a transação (desde o envio dos dados pessoais da vítima, até o pagamento dos “honorários” combinados) é conduzida com sigilo, normalmente sem contatos pessoais. Os valores cobrados variam conforme o grau de diplomação pretendido pelo comprador.

Em boa parte dos casos os golpistas pedem um “sinal” adiantado (normalmente 50% do total) e simplesmente desaparecem sem entregar nada. Em outros casos, mais refinados, os golpistas produzem diplomas falsos, com vários graus de qualidade da falsificação, e os entregam como verdadeiros.

Na versão internacional, além das variantes já descritas acima, há ainda uma modalidade insidiosa. Existem “universidades” ou “faculdades” em determinados países (sobretudo nos EUA, mas não só), que não têm reconhecimento internacional, e muitas vezes nem nos seus próprios países, e que oferecem títulos universitários baseados na “experiência profissional ou de vida” adquirida pela pessoa e supostamente demonstrada de várias maneiras, quando não “fabricadas”. Na enorme maioria dos casos, isto não passa de uma forma dessas entidades coletarem dinheiro “vendendo” diplomas e títulos que não têm valor algum ou reconhecimento prático, mas que podem ser exibidos numa parede, envoltos por uma moldura dourada, para impressionar quem os vê de uma certa distância.

globoHá, porém, casos de venda de diplomas que são orquestrados por educadores, profissionais que têm contato com quadrilhas que por vezes agem nas instituições de ensino e conseguem, de fato, produzir diplomas falsos. Os preços, contudo, são bem mais salgados. Numa recente reportagem da Rede Globo, os repórteres descobriram um esquema de venda de diplomas falsos cujos preços eram de trinta mil reais ou mais. Nesse caso, o intermediário era o vice-diretor de uma escola.
Assista à reportagem.

Esta não foi a primeira e nem será a última vez que a mídia noticia esse tipo de fraude. Repórteres da Folha também se passaram por interessados em comprar um diploma do curso de Administração de Empresas. O artigo da Universidade Federal de Campina Grande conta o caso de uma moça que para atender às expectativas de seu pai resolveu comprar um diploma, perdendo R$ 3.600,00 (veja o artigo Golpe da venda do diploma faz vítimas na internet).

José Roberto Covac
José Roberto Covac

Questionado sobre o caso, o diretor jurídico da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior, José Roberto Covac, levantou a hipótese de que diplomas originais estejam sendo usados no esquema fraudulento e de que haja envolvimento de funcionários das universidades. “Quem assina o diploma é o reitor. Quando a universidade faz o registro do diploma, ela verifica todo o registro acadêmico do aluno. Parece que há uma máfia e que alguém de dentro da universidade está fabricando documentação e registro. E o reitor acaba até assinando o diploma sem ter conhecimento”, disse.

Perigos

É incrível ver que numa época em que o povo se manifesta contra a corrupção ela é anunciada sem o menor constrangimento na internet, em redes sociais e nos jornais, sem que ninguém investigue esses casos e tome providências. A venda de diplomas falsos é crime de fraude, de quem os oferece, e de corrupção ativa de quem os compra. Mas, até aí que se lasquem os idiotas. O pior é que são fatos como esses que permitem a atuação de falsos profissionais em todas as áreas. Talvez por isso tenhamos “médicos” que só diagnosticam viroses, “adevogados” que não entendem nada de leis, “ingenhêros” que constroem prédios e pontes que desabam, “adiministradores” que levam empresas à falência e dezenas de milhares de incompetentes em todos os segmentos da economia, tirando empregos de quem se esfalfou de estudar.

Não é de admirar que os mais preparados deixem o Brasil para viver em países desenvolvidos onde, mesmo sem diplomas, conseguem conquistar muito mais do que aqui.