Os roubos institucionais

0
245

roubo_caixa

Que os bancos mandam no país todo mundo sabe. Afinal, são eles que socorrem os governos quando a arrecadação não é suficiente para patrocinar todas as mordomias e atender a todos os desvios de dinheiro público. Talvez por isso o governo se faça de cego e oriente os órgãos de fiscalização para que nada façam para impedir a forma ilícita como estão conseguindo aumentar seus lucros. E não são apenas os bancos. O exemplo tem servido de lição para outras instituições e empresas privadas, entre elas as que mais se destacam são as de telecomunicações.

O esquema é simples: eles lançam débitos de pequenos valores em sua conta e usam códigos indecifráveis para identificá-los. Assim, tirando de todos os clientes quantias que não são reclamadas, vão enchendo as burras. As operadoras de telefonia, que não poderiam justificar lançamentos codificados, apelam para os “seguros” involuntários e seguram uma contribuição extra todos os meses.

O roubo foi institucionalizado no Brasil.

A Caixa de novo

Abri uma conta na Caixa há um ano, apenas como referência, para poder receber pagamentos via PayPal e PagSeguro. Depois de colher todos os meus dados, a moça que me atendeu apresentou uma lista de cestas de serviços para que eu escolhesse uma das opções. A mais barata custava R$ 21,00 por mês. Isso me daria o direito de usar um talão de cheques e fazer mais de um saque por mês sem que houvesse cobrança extra.

Expliquei que não precisaria dos talões de cheques ou de qualquer outro “benefício”, já que não tinha intenção de levantar empréstimos e nem realizar saques com tal frequência, pois os depósitos seriam esporádicos e de baixo valor. Portanto, eu não usaria nenhum serviço previsto nas cestas e não pretendia sequer respirar o ar da agência porque não costumo ir ao banco. Nem a mais simples das cestas oferecidas me servia.

A moça trocou olhares carregados de pontos de interrogação com o gerente, que veio até nós para saber o que estava acontecendo. Expliquei:

explicando“Vocês acabaram de sair de uma greve que já é considerada evento oficial no calendário bancário. Todos os anos, no mês de setembro, época em que acontece o dissídio da categoria, os bancários reivindicam uma correção salarial maior que o índice oficial de inflação, para pressionar os banqueiros, os quais, sabendo como funciona a política dos sindicatos, apresentam uma proposta infame a fim de conseguir uma negociação. Boa parte dos bancários aproveita a ocasião para descansar, passear, visitar amigos, fazer compras ou qualquer outra coisa que não poderia fazer se estivesse trabalhando. Ficam nas agências apenas os que têm medo de perder o emprego e os que ocupam cargos mais visados, e com isso quem sofre prejuízos são os clientes, simplesmente ignorados, tanto pelos banqueiros quanto pelos bancários.

Usando a pressão dos empregados como desculpa, os bancos aumentam suas tarifas e criam novas dificuldades, alegando que precisam cobrir o que eles chamam de “prejuízo”. Então, aplicam em sua tabela de preços um fator de correção maior do que o índice aplicado aos salários e benefícios trabalhistas, porém, conseguem fechar um acordo com os sindicatos, definindo um “aumento” bem inferior ao reivindicado pela classe inicialmente. Ou seja, o banco leva vantagem dos dois lados e se nega a dividir com seus empregados o aumento de seus lucros.

Ora, se você não ganha nada por me oferecer uma cesta de serviços e eu não preciso de uma, por que eu deveria concordar em pagar por isso todos os meses?”

Diante do óbvio, o gerente concordou em me isentar da cobrança das tarifas. E não poderia ser diferente, pois ninguém pode cobrar por serviços não prestados. Isso é ilegal. Sendo assim, “estando bom para ambas as partes, aqui, agora”, saí da agência tranquilo e satisfeito. E mais: enganado.

Como não me importava muito com o saldo daquela conta, alimentada com pequenos valores e raramente, não me preocupei em conferir a movimentação. Porém, depois de algum tempo, notei que o saldo disponível era bem inferior ao esperado.

Essa é a tática. Tirando pequenos valores, o número de reclamações é baixo. Quase ninguém tem tempo e/ou disposição para enfrentar as filas, tomar chá de cadeira e fazer seus ouvidos de penico num banco. Há coisas mais importantes na vida das pessoas que trabalham, e tempo perdido não pode ser recuperado.

Chega um tempo, porém, que aquilo incomoda. É quando você soma o quanto foi tirado de sua conta sem a sua autorização. Você vê que a galinha encheu o papo e não lhe deu nem um ovo como recompensa. E aí, já irritado, resolve reclamar.

http://www.dreamstime.com/stock-image-three-wise-monkeys-concept-image13725991Os bancos não treinam seus empregados naquilo que mais seria necessário, contudo, os preparam muito bem para enfrentar as reclamações diárias. Quem não sabe não quer ouvir, que vê você se faz de cego e ninguém diz nada que possa ajudar. Na Caixa parece que o exemplo vem de cima, lá de Brasília: “não vi nada, não sei de nada”…

— Meu amigo, como não viu nada? Eu enviei três e-mails nas últimas duas semanas, fora os outros, e estive aqui conversando com você há alguns meses, lembra-se?

Você já sabe o que vai ouvir, mas o gerente não se envergonha e repete:

— É que nós tivemos um probleminha com o sistema e não foi possível analisar o seu caso porque, comparado a outros, ele não é prioritário.

Os mais de trezentos reais tirados do meu bolso não são prioridade dos bancos, isso é pouco para eles. Eles gostam de falar em milhões ou, se possível, em bilhões. O que são alguns reais a mais ou a menos na sua conta, afinal?

— Ok, eu tentei falar com você por telefone, mas sempre diziam que você estava fora ou ocupado! – Você explica.

— Pois é, estamos com falta de pessoal… Ih, você não imagina como tem sido!

Você argumenta, dizendo que não pegou talão de cheques, não tem e não quer ter cartões de crédito, não pediu empréstimos, não sacou duplicatas e não pediu nada ao banco, exceto esclarecimentos. E nem isso lhe foi dado! Logo, se não foi prestado serviço algum, a cobrança de serviços não se justifica, principalmente porque isso foi acordado na abertura da conta.

Pois bem, se isso não bastasse, ainda tem o seguinte:

explicando2Durante meses, pedi alguma documentação que esclarecesse o complicado sistema de emissão de boletos bancários através do site. A equipe de informática contratada pela Caixa é péssima, o sistema está sempre caindo, o site contém orientações voltadas para os próprios empregados, pois nenhum leigo consegue entendê-las. Meu gerente não ajudou em nada, a pendência foi esquecida e eu não fui atendido. Consegui, através de uma amiga que trabalha numa agência de outra cidade, uma cópia da apostila sobre o funcionamento da emissão de boletos. Poderia ter sido escrito em Chinês ou Árabe, pois eu entenderia a mesma coisa.

Só alcancei um bom resultado quando apelei à gerência geral.

— Vou pedir uma visita técnica de urgência. Eles terão que atendê-lo em no máximo dez dias! – Garantiu o simpático gerente.

Entenda isto: para ter acesso a um serviço da Caixa, tive que ficar de plantão durante dias, à espera de uma visita surpresa que poderia acontecer a qualquer momento dentro de dez dias… Úteis! A partir daquele, meus dias se tornaram inúteis, até chegar o telefonema do técnico, que preferiu fazer o serviço remotamente.

Ótimo! – Pensei. – Assim é mais rápido. Mas, as Leis de Murphy estão aí para acontecer…

O rapaz copiou alguns arquivos para o meu computador, processou um ou dois programas, explicou como funcionavam, se colocou à disposição e me desejou boa sorte. Só não me avisou que os arquivos continham vírus. Resultado: depois de mandar reformatar meu equipamento, estava com menos do que havia antes, pois havia perdido todos os programas instalados.

Adivinhe quem pagou a conta…

Keep calm and take a coffee

A essa altura, com mais de 500 reais de prejuízo, não há paciência que resista. Indisponibilidade do gerente, nenhuma resposta para as mensagens enviadas, novos débitos caindo na conta, que diabos! Fui ao banco para pagar algumas contas, isto serviria de pretexto para falar com alguém. Sim, com uma estagiária que foi plantada no hall de entrada ao lado do terminal de senhas.

Depois de 40 minutos aguardando numa fila – porque não pude entrar na agência sem uma senha – chegou a minha vez:

— Boa tarde, o senhor vai fazer o que?

— Vim pagar umas contas. – Respondi.

— Então, o senhor pode usar os caixas automáticos. Sabe como funcionam?

— Sei, sim, mas não tenho saldo suficiente na conta, preciso pagar em dinheiro, direto no caixa…

— Hmmm, sei… Quais os valores das contas? Há alguma com valor acima de R$ 700,00?

— Por que? Não posso pagar contas na agência onde mantenho uma conta?

— Não, senhor, não pode. Agora as contas de valor inferior a setecentos reais devem ser pagas em casas lotéricas. O senhor deve se dirigir a uma casa lotérica, ok? Próximo!

burro_cenouraConvençam-me de estar errado: a Caixa cobra uma tarifa mensal de R$ 20,30 (cesta de serviço mais barata) para não fazer nada a não ser usar o dinheiro depositado nas contas de seus clientes para emprestá-lo a outros clientes, cobrando juros altíssimos, ou para investir no mercado de capitais e ganhar em cima do dinheiro que não pertence àquela instituição. E faz isso sem pedir autorização aos donos do dinheiro. Quando tentamos usar seus serviços, entregando mais dinheiro ao tentar pagar as nossas contas, somos informados de que devemos procurar outro estabelecimento, que não é um banco, mas fará o serviço daquele, recebendo o pagamento com o dinheiro que lhe foi tomado.

Dá para entender porque chamam de “agências” as unidades dos bancos. Elas simplesmente agenciam os serviços de seus parceiros. Indo mais a fundo, descobre-se que a Caixa usa critérios políticos para nomear seus correspondentes. As licenças são negociadas.

Quero de volta o que me pertence

Pratiquemos a empatia. Se qualquer um de nós, sem permissão, enfiar a mão no bolso de outra pessoa, tirar de sua carteira algum dinheiro e justificar esse ato como pagamento de “taxa de manutenção de amizade” ou “taxa de renovação de encontro casual”, provavelmente e na melhor das hipóteses receberá um bom sopapo no meio das fuças, se não for preso. É roubo.

É exatamente isso que fazem os bancos.

Como último recurso, resta-nos reclamar junto à ouvidoria, correndo o risco de sermos repreendidos!

ouvidoria

 

O que é combinado não é caro. O gerente responsável pela minha conta concordou em não impor a cobrança de taxas, uma vez que eu não usaria os serviços que compunham a cesta. Mas, ainda que fosse diferente, para cobrar pelos serviços de manutenção de conta e de cadastro (R$ 28,50), seria necessário que algum serviço fosse, de fato, realizado; e isso não aconteceu. Se nenhum serviço foi prestado, não há amparo legal que sustente a cobrança desses valores. Eu quero meu dinheiro de volta, e ponto final!