Minando o campo de trabalho

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Se, de um lado, a tecnologia da comunicação nos proporciona benefícios extraordinários, como a oportunidade de ter acesso a um volume de informações antes inimaginável, por outro lado, isso provocou a mudança de nossos hábitos – em muitos casos com efeitos extremamente negativos –, levando-nos, graças às facilidades, à banalização de quase tudo. Com isso, perderam-se valores fundamentais que garantiam a qualidade e o aperfeiçoamento que poderiam nos trazer o eternamente sonhado desenvolvimento. Estamos vivenciando, especialmente no Brasil, uma quase completa inversão de valores que nos causa danos talvez irreversíveis, não apenas no cenário político, mas, nos afeta diretamente em nosso dia-a-dia, inclusive no âmbito profissional.

Certamente, todos nós já experimentamos a frustração consequente desse fenômeno, seja ao sair de um consultório médico com o diagnóstico de “uma virose” em casos graves, seja ao precisar contratar um profissional para consertar o mal feito de outro que se dizia preparado para o trabalho. E é este o tema que desenvolvo nesta postagem, abordando especialmente a área de internet, mais especificamente no desenvolvimento de sites.

Nos últimos anos, a ideia – louvável em sua essência – de aproximar clientes e profissionais provocou o surgimento de vários sites, como o Freelance e Workana, para citar apenas dois dos mais conhecidos. Porém, como já foi comentado em outras postagens deste blog, isso se transformou num “tiro no pé” para os contratantes, pois é impossível reconhecer entre os que se apresentam como candidatos aos serviços os verdadeiros profissionais. Todos têm acesso aos anúncios publicados, com a liberdade de se apresentar como candidatos devidamente preparados. O que mais varia são os preços, evidentemente.

Inimigos comuns

Para não fugir da regra, os maiores vilões do mercado são os intermediários. Nesse segmento eles agem da seguinte maneira: procuram clientes que não sabem onde encontrar bons profissionais, ou que pretendem evitar custos elevados (em boa parte das vezes, suas vítimas vêm através da indicação de seus próprios parentes ou amigos); publicam anúncios como se fossem os verdadeiros contratantes e fecham negócio com aquele que apresentar o menor preço (seguramente, um amador). Como nem sempre têm as respostas para as dúvidas das partes finais, acabam aumentando o prazo de entrega, o que não pesa muito para o contratante que prefere economia em lugar de qualidade e garantias.

O intermediário é inimigo tanto dos contratantes quanto dos profissionais. Ele não trabalha, destrói o mercado e a credibilidade com sua postura leviana e inconsequente.

Posicionando-se como um expert perante o cliente e visando lucrar o máximo possível sem nenhum esforço, o intermediário busca principiantes que se mostrem dispostos a realizar o trabalho pelo menor valor. Onde? Em sites que permitem o cadastro de aventureiros sem exigir deles qualquer comprovação de competência ou responsabilidade.

Eis um exemplo de como o intermediário se manifesta:

Observe-se que no momento em que esta imagem foi captada já havia 17 propostas apresentadas. Pergunta-se:

  1. Que tipo de profissional assumiria todas as responsabilidades que deveria ter sobre os resultados, por menos de R$ 160,00?
  2. Que garantia seria apresentada ao contratante se não há contato direto entre as partes principais (cliente e contratado)?
  3. Como o intermediário resolveria os prováveis problemas do site sem conhecer a verdadeira identidade e os dados de contato do candidato escolhido, exceto pelo caminho oferecido pelo site que publicou o anúncio?

É muito comum encontrar nesses sites anúncios como estes:

A busca por preços muito baixos implica abrir mão da qualidade, do conhecimento, da experiência, da responsabilidade, do envolvimento, do comprometimento.

Bem disse John Ruskin:

Dificilmente existirá alguma coisa nesse mundo que alguém não possa fazer um pouco pior e vender um pouco mais barato, e as pessoas que consideram somente preço são as merecidas vítimas.

O anúncio acima (ilustrado por mim) foi republicado mais uma vez no site da Workana em 30 de dezembro de 2016. O anunciante espera que um profissional desenvolva o trabalho por menos de R$ 160,00, certamente contando com qualidade, eficiência, comprometimento com prazos e garantia. Na minha opinião, o candidato escolhido será um menino que vive às custas de seus pais e acha que sabe tudo de internet. O resultado é previsível.

Aqueles que ousam publicar anúncios contendo uma lista de exigências para realização de trabalhos profissionais e oferecem valores vis como recompensa não passam de charlatães que ludibriam os crédulos e incautos; deveriam responder por crime de estelionato e ser banidos de sites que se propõem a um trabalho sério e confiável. Se continuam lá, é porque aqueles sites se igualam a eles a partir do momento que os aceitam numa condição que não merecem. E assim, ajudam a minar o mercado de trabalho.

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