Mas, que droga!

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Nasci em meados do século passado. Portanto, vivenciei a Era Hippie, aquele lance de roupas coloridas, cabelos compridos, dias sem tomar banho, quadros psicodélicos, amor livre, paz e amor, falta de dinheiro e outras modas da época. Lembro-me de uma vez em que decidi, acompanhado de algumas garotas, passar a noite acampado ao lado da pista de Interlagos durante uma corrida de 24 horas da qual não tenho nenhuma lembrança, exceto o ronco dos motores.

Não éramos como os jovens de hoje que ganham seus carrinhos 0 km quando completam 18 anos, ou antes, nem recebíamos mesadas que nos permitissem ir a um motel com uma “gatinha”. Quando tínhamos a sorte de conhecer quem tinha um carro, ir a um drive-in já era o máximo!

Certa vez, decidimos ir mais longe: Peruíbe. Enquanto todos viajavam para Santos nos fins de semana, nós queríamos ser mais ousados.

Éramos sete: Marina, Mari, Esperança, Marlene, Hélio, Severino e eu. Todos como mandava a música de Caetano Veloso: “nada no bolso ou nas mãos”. Nossa bagagem era apenas uma barraca feita para abrigar duas pessoas; e nosso transporte, um trem de carga que passava pelo bairro de Pinheiros (SP). Teríamos que saltar para dentro de um dos vagões “na moita”, sem ninguém nos ver. Foi uma aventura e tanto.

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Algum tempo depois do período que costumo chamar de “hibernação”, ocorrido quando completei 18 anos, reencontrei Marina, cheia de novidades. Ela contava que havia conhecido o Tim Maia! – o ponto de exclamação é para representar a forma como ouvíamos aquilo. Para nós, Tim Maia já era uma personalidade, uma referência na música. Havia conseguido fazer sucesso com “Primavera”, com letra em Português, o que era, sem dúvida, uma vitória. E mais, ela não só conhecia Cassiano, o autor da música, como passava com ele e sua turma boa parte de seu tempo, num apartamento conhecido como 1, 2, 3, ou “a casa de Deus”, que ficava na Rua General Jardim, pertinho da boate La Licorne.

Todas as noites do ano todo, você os via entre 22:30 e 23:00 horas saindo dos seus esconderijos, sorrateiros, apressados como estivessem atrasados. Bem vestidos, os homens tinham brilho nos cabelos e olhos, geralmente de terno escuro, camisa branca de colarinho duro de goma, prendedor e abotoaduras de ouro polido; eram a imagem da fortuna e da boa vida, muitas das vezes acompanhados de beldades dignas de Hollywood que, resplandecentes nos pós e cremes, cintilavam à luz artifícial da noite; ao entrar em seus carros, risos fáceis eram ouvidos, sinal que tudo ia bem, a vida lhes era uma festa. O destino? Os santuários e templos dos prazeres da noite. Jogos, espetáculos, mulheres, bebidas e aventuras. Bem, não só o rico sabe se divertir, o remediado também tem o espaço e lugares apropriados. Daquilo que eu vi na década de 50 e 60 a boemia corria solta: Boate Bambu no caminho de Congonhas, quando ainda não havia a Ruben Berta. O top da época eram as aeromoças daquelas companhias internacionais com seus uniformes super bem cortados, saias justas, os casacos com fileiras verticais de botões dourados, e do lado esquerdo do peito o símbolo da aviação, as asas abertas do pássaro, um luxo. Bem maquiadas, o perfume não deixava enganar ninguém, elas ali estavam. Jorge Amado conheceu Zélia Gattai numa noitada do Bambu. Havia também a Boate Oásis, na praça Júlio Mesquita, no sub-solo do Cinema do mesmo nome, lugar onde a Elza Soares fez sua entrada em Sampa. O Barbazul, na esquina da Avenida São Luiz com a Ipiranga, era o preferido das despedidas de solteiros, assim como o Bar Brahma e o Paribar. A La Licorne marcou uma época de luxo no endereço da Major Sertório. Mulheres “fora de série” gerenciavam contas bancárias dos figurões da época. Os remediados ficavam no outro lado do viaduto do chá, no Lilás, na Praça Clóvis, e no Guarani, na Silveira Martins. Ambos ficavam lotados de marinheiros quando havia navios aportados em Santos. Na rua da Glória, havia o Sete de Setembro, um dancing das pessoas de cor. Mas, os brancos eram admitidos. Num dia de função, um fogo de grandes proporções deixou um rastro de tragédia. O Som de Cristal – na Rua Rego Freitas – era o máximo! Uma multidão se formava à sua saída, para ver as brigas e os embriagados.
Quem não sabia dançar e queria aprender, encontrava espaço no Táxi Dancing Avenida, na Ipiranga. Lá, os tickets eram vendidos e as dançarinas os recolhia dos aprendizes que podiam livremente escolher a parceira, e era proibido recusas. Fast Food ainda não existia, mas no Largo do Paissandu, o Ponto Chic era o campeão da rapidez. A bola da vez era o bife a cavalo, e o Moraes não deixou para ninguém. Música ao vivo na Baiúca foi a pedida mais pedida, lá desfilaram os reis da noite. Quando foi a vez de Elis Regina, a lotação foi um problema de segurança. – (Texto retirado e adaptado do blog “São Paulo, minha Cidade” – Paulistanos, noctívagos e boêmios).

O reencontro entre desencontros

Marina estava sozinha, havia rompido seu relacionamento com o dono do apartamento 1,2,3, onde viviam Cassiano e Ingrid, além de uma penca de desocupados – ou melhor, “hippies” – que passava a maior parte do tempo fazendo sexo, fumando maconha, tocando violão, cantando, compondo e bebendo Iaúca, uma aguardente da Milani. Como a energia elétrica do apartamento havia sido desligada, as garrafas vazias transformavam-se em castiçais e sustentavam verdadeiras esculturas formadas pela parafina derretida, tratadas com o maior cuidado.

De outro lado, lá estava eu, também sozinho, depois de curtir 18 longos meses de luto amoroso por ter conquistado meu primeiro par de chifres.

As circunstâncias nos aproximaram.

Lá fui eu, ciceroneado por Marina, conhecer Genival Cassiano, um cara divertido e com uma ginga musical toda própria. Era fantástico vê-lo “quebrar o compasso” do baixo nos bordões em “Eu, meu filho e você”. E, assim, fui me infiltrando.

O primeiro grande teste

Com a liberdade que eu tinha, desde cedo, seria fácil começar a usar drogas. Argumentos não me faltavam, é o que mais sobram na juventude. Eu poderia ter me revoltado pela desunião de meus pais, por sua ausência durante minha infância e adolescência, por causa da falta de dinheiro ou por ser o estafeta da casa, função que me foi dada por ser o caçula e único filho do sexo masculino. Mas, ao contrário, sempre fui um cara centrado. Talvez por falta de ocasião.

Certo dia, nos deram a notícia: Tim Maia passaria seu aniversário na “casa de Deus”. Todos estávamos convidados.

No “grande dia”, lá estavam vários nomes do cenário artístico. Um sujeito que havia vindo de uma das Guianas, talvez a Inglesa, muito conhecido na época em que cantava “Shame and Scandal in the Family”, estava lá. Mas, não ficou por muito tempo. Eu conhecia vários rostos, mas quase nenhuma pessoa.

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Como não poderia ser diferente, as cenas mais marcantes ficaram por conta do aniversariante. Foi ele quem promoveu o abastecimento de erva para todos. Mandou buscar, de avião, um “tijolo” de maconha no Rio – não gostava da que era distribuída em São Paulo. Um de seus músicos foi até lá, e usou terno e gravata para não chamar a atenção.

Naquela noite, enquanto Tim pegava no quarto uma tal Maria, conhecida como “a mulher do PL”, todos – exceto eu, que eu me lembre – queimavam o fumo pelos quatro cantos da casa com total liberdade. Toalhas molhadas e enroladas fechavam os vãos sob as portas para impedir que o cheiro chegasse aos apartamentos vizinhos. Pelo menos através do hall, mas não pelas janelas por onde saía tanta fumaça que até poderiam pensar que era um incêndio. E era numa delas que eu estava debruçado, meio verde, enjoado com o inconfundível fedor. Devo ter “viajado” passivamente.

viajandoDe qualquer forma, por ter pretensões artísticas no ramo musical, eu não poderia perder a chance de me aproximar do homenageado. Contudo, aquela não era a hora e ali não era o lugar. Não com tanta gente. Então, pensando ser criativo, sugeri que ele fosse à casa dos meus pais no fim de semana para comer uma feijoada.

Me arrependo até hoje de ter causado aquele trabalho a minha mãe.

Lá chegaram, de táxi: Cassiano e Ingrid (convidados), um sujeito chamado Álvaro e sua companheira, Tim Maia e seus dois pastores alemães, enormes e famintos (estes últimos, não convidados).

Drogas causam falta de bom senso

Aquela foi a primeira ocasião em que percebi a falta de bom senso de quem usa drogas. Mal havíamos terminado o almoço quando Tim Maia sacou do bolso um envelope de plástico, ou celofane, com um punhado de maconha, e puxou com força o ar pelo nariz, como quem aspirava uma fileira de pó. Ergueu as sobrancelhas em sinal de convite aos demais. Seus lábios estavam sempre queimados, ele fumava o “pacau” até o fim, mas, em minha casa e na presença de meus pais? Aquilo foi demais. Definitivamente, não era o que eu queria para mim.

Eu poderia escrever um livro só contando as coisas que vi naquela época, mas nunca achei que isso valeria a pena.

O convívio com viciados

Não foi apenas na juventude que experimentei o que é conviver com viciados. Meu pai era alcoólatra, e só abandonou o vício cinco anos antes de sua morte, o que nos deixou pouco tempo para aproveitar tudo que ele tinha de bom. Tive empregados viciados em maconha, cola de contato, álcool, cocaína, heroína e crack. Conheço os efeitos e as mazelas deixadas por cada uma dessas drogas, e também o comportamento característico de cada viciado. Sem dúvida, o crack é a pior delas. É arrasador ver que um profissional super capaz se sujeita às piores coisas, chegando, inclusive a agredir fisicamente os pais, já idosos, e roubando deles para alimentar o vício. Entre essas pessoas, o caso mais degradante foi o de um marceneiro que acabou perdendo todo seu patrimônio e morreu na calçada, como um mendigo, usando chinelos de borracha com apenas a metade das solas.

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E não são apenas os mais pobres que passam por isso. Conheço advogados aparentemente bem resolvidos que reuniam a família para fumar maconha. “Maconha não faz mal” – diziam.

Sou tabagista e me odeio por isto. Avaliando o hábito friamente, percebo o quão ridículo é ficar segurando e chupando aquele canudinho recheado de tabaco, aspirando a fumaça e soltando-a como um dragão, queimando dinheiro, roupas, móveis, e deixando um cheiro indecente em tudo que está próximo. Isso para não falar do mal que causo à minha saúde e à saúde de quem está perto de mim quando fumo. Já não tenho mais fôlego para subir uma ladeira ou correr dez metros.

Entretanto, entre todas as drogas, o cigarro “careta” não causa problemas tão graves quanto a agressividade ou o mau comportamento causados por outros vícios. Jogadores inveterados não precisam inalar nada e nem soltam fumaça, mas provocam um estrago avassalador em suas famílias.

Neurônios detonados

O pior mal, nos viciados, é o dano causado aos neurônios. Mesmo quando conseguem se afastar de seus vícios, eles se tornam meio lerdos e incapazes de raciocinar como antes. Uma das fugas mais procuradas é a da religiosidade. Há um sem número de pessoas que passam a carregar a Bíblia debaixo do braço, usando a religião como muleta, quando tudo que deveriam ter feito era dizer “NÃO” às drogas desde o começo. E, com a esperança de não sucumbirem novamente, assumem um ar de demência, perdem seus encantos naturais, tornam-se quase autômatos em seus atos e gestos, escravos de sua crença.

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Não critico as religiões ou a religiosidade. Acredito em Deus e procuro andar de mãos dadas com Ele, agradecendo cada minuto, mas isso não rouba minha capacidade de discernimento, minha espontaneidade, meu interesse em experimentar o novo, desde que não me seja nocivo. Não saio por aí dizendo asneiras, me deixando levar por rompantes de revolta, culpando os outros pelo que me acontece. Cada um colhe o que planta.

O que mais me incomoda é que os viciados querem se deitar numa sombra e esperam que outras pessoas plantem as sementes e as reguem para que a árvore cresça logo; não conhecem o verbo trabalhar, querem viver de doações, do sacrifício alheio. Alimentam sua autocomiseração e se limitam apenas a criticar, julgando-se “vítimas” do meio em que vivem. Uma pinóia!

Não posso julgar as pessoas que optam pela dependência química. É a escolha delas e eu não tenho moral para acusá-las. Quando quiserem deixar seus vícios, peçam ajuda e eu farei o que puder para ajudá-las. Mas, que se libertem dessa dependência nojenta que têm do dinheiro dos outros. Vão trabalhar!

 

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