Invertendo os valores

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Precaução e preocupação com os clientes são consideradas ofensas e juíza, a pedido do presidente de um sindicato, concorda em punir dono de posto por ter demitido por justa causa dois frentistas que lesavam os consumidores. O que você faria se fosse o dono do posto?

A Fenepospetro – Federação Nacional dos Empregados em Postos de Serviços de Combustíveis e Derivados de Petróleo – divulgou nota em seu blog/site, em 22 de agosto de 2011, sobre a decisão da Juíza da 3ª Vara do Trabalho, em Brasília, que entendeu que uma faixa colocada num determinado posto podia “denegrir a imagem de todos os trabalhadores em postos de gasolina”. A faixa dizia: “Pegamos maus funcionários lesando clientes. Foram demitidos por justa causa. Ajudem-nos a manter nossa seriedade protegendo seu dinheiro. Fiscalize seu abastecimento”.

No mesmo dia, o sindicato que representa a categoria dos empregados em postos de serviços de combustíveis e derivados de petróleo do Distrito Federal, liderado pelo seu presidente Carlos Alves dos Santos, o Carlinhos, entrou com uma ação judicial e conseguiu obter decisão liminar para que o proprietário do Posto Jarjour retirasse imediatamente a faixa.

Análise dos fatos

O dono do posto, Abdalla Jarjour, demitiu dois frentistas que cobravam a mais dos clientes em seu estabelecimento. Em Português claro, ROUBAVAM dinheiro dos clientes. Se isso de fato aconteceu, eram, portanto, ladrões, safados, sem-vergonha e maus empregados, por isso foram demitidos por justa causa. Tudo de acordo com as leis e visando à proteção dos consumidores.

O Sindicato alegou que os frentistas “teriam tentado cobrar a mais de uma cliente”, como se aquilo tivesse acontecido pela primeira vez, e correu para defendê-los. De acordo com a reportagem do G1, os frentistas teriam colocado menos combustível que o solicitado pela cliente, mas quiseram cobrar pela litragem pedida. O sindicato reagiu, dizendo que “não vamos aceitar nenhum tipo de desrespeito à nossa categoria por parte dos patrões ou quem quer que seja”.

Abdalla Jarjour disse em entrevista que não se incomodava com as críticas que recebeu: “Eu não me importo com isso. Ser honesto é uma obrigação de qualquer ser humano. Este fato me revoltou porque está expondo nosso nome, já que a bandeira do posto tem o meu sobrenome”.

Claro, afinal, é do salário dos frentistas, tenham eles qualquer tipo de comportamento, índole ou formação, que saem as contribuições que sustentam a entidade e todos os seus membros e mordomias.

A faixa, segundo a Fenepospetro, teve repercussão nacional, mas, graças à sua pronta intervenção, ela – “a malfadada faixa” – já foi retirada. E, não satisfeita, a Fenospetro ingressou com outra ação judicial “requerendo que a empresa pague uma indenização pelo dano moral coletivo imposto à honrada categoria, que é formada por trabalhadores, sérios, honestos e dignos”.

Análise da notícia

Os nomes dos “trabalhadores sérios, honestos e dignos” que roubaram ou tentaram roubar uma cliente não eram citados na faixa, portanto ela não ofendia ninguém em particular, apenas sugeria que os consumidores passassem a prestar mais atenção ao atendimento e, em especial, à cobrança dos valores pelos frentistas, atitude esta que nada mais é do que um cuidado necessário em qualquer estabelecimento já que não conhecemos seus empregados e seus hábitos. A Fenepospetro agiu como se o dono do posto tivesse afirmado que todos os frentistas eram ladrões, o que é uma mentira.

O presidente do Sindicato, Carlinhos, mostrou que, como outros sindicalistas que se tornaram famosos e políticos, costuma agir em função de sua revolta pessoal contra os empresários, possivelmente com o intuito de tirar deles todo o dinheiro que for possível, talvez por não ter conseguido vencer na vida de outra maneira, como tantos outros que por isso se tornaram sindicalistas.

A excelentíssima Juíza, cujo nome é omitido na publicação, tomou partido a favor dos “coitadinhos”, talvez por ter ouvido dizer que sempre que um empregado entre com uma ação na Justiça, é quase certo que ele ganhe. Isso é uma balela, além de mostrar claramente a falta de noção de valores, poupando dois bandidos que agiam para prejudicar uma grande quantidade de consumidores, bem como a empresa onde trabalhavam, e mereciam, sim, ser demitidos como foram, se os fatos forem verdadeiros. No entendimento da Justiça do Trabalho, a atitude do empresário foi correta, por isso ele venceu o processo de reclamação movido pelos frentistas demitidos.

Mas, o mais absurdo vem por último: a pretensão do sindicato ao entrar com outra ação requerendo uma indenização “pelo dano moral coletivo” causado com a faixa. Uma atitude típica de “adevogados” (sic). Só não esclarecem para quem será dada essa indenização, caso seja conseguida. Para todos os frentistas do Brasil? Afinal, TODOS eles foram prejudicados, na opinião do sindicato. Ou será que a entidade vai embolsar esse valor também e aproveitá-lo para financiar as mordomias de que optou por não trabalhar de verdade?

A realidade

Trabalho em postos de combustíveis. A maioria de meus colegas corresponde ao perfil definido pelo sindicato. No entanto, vez ou outra, encontramos entre eles um ladrão, um safado, um sem-vergonha, gente que rouba dos clientes e dos postos, que finge estar doente para justificar suas faltas, que pede mais do que merece, que não se esforça nem um pouco para ser melhor como pessoa ou como profissional. O que deveria ser feito com essas exceções? Conservá-las para correr o risco de ver uma laranja podre comprometer as demais? Aceitá-las como são, tornando-nos cúmplices de seus crimes? Tolerá-las e responder pelas reclamações, queixas e processos contra os postos por danos aos consumidores?

Até quando vamos estender nossa tolerância e abaixar nossas cabeças para o que está errado? Quando é que acordaremos para a realidade e perceberemos o equívoco da interpretação dada aos “direitos humanos”, quando nossos direitos são violados, embora sejamos, muitas vezes, mais humanos que aqueles que nos agridem e prejudicam?

Sofremos vários assaltos num curto período de tempo. Apresentamos várias evidências à Polícia, que poderiam levar à prisão dos assaltantes, no entanto, nada foi feito nesse sentido. Todas as providências de prevenção tiveram que ser tomadas pelos postos, às suas próprias custas porque “não se pode acusar alguém sem ter provas cabais dos fatos”, como a gravação de imagem e som do assaltante durante a ação do crime, por exemplo. Ao sofrer um assalto, a vítima deve pedir ao meliante que se coloque na frente de uma câmera, sem máscara, e faça uma declaração responsabilizando-se pelo crime. Depois disso, deve-se entregar todo o dinheiro a ele e deixá-lo ir, ileso, de preferência sob o aplauso de todos, em respeito aos seus direitos humanos. É isso?!

A política imunda não está restrita às Casas Legislativas, ela se prolifera e pode alcançar entidades cujo propósito deveria ser a defesa dos interesses de seus filiados. Desde que sejam justos.

Os valores aqui se mostram tão invertidos como no caso do ladrão que foi agredido pela vítima e decidiu entrar com uma ação contra ela (ver coluna à esquerda).

Sobre esta postagem

Antes que a Fenepospetro ou qualquer outra entidade considere a possibilidade de me processar por danos morais, é bom repassar seu conteúdo:

  • Em nenhum momento foram citados os nomes dos demitidos;
  • Não foi mencionado, a exemplo da matéria de origem, o nome da excelentíssima Juíza que deu a sentença a favor dos empregados supostamente prejudicados;
  • A dúvida sobre o destino da indenização pretendida é plausível, visto que a matéria não deixa isso claro;
  • A afirmação de que o pedido de indenização é atitude típica de “adevogados” não é ofensiva. De fato, “adevogados” existem em maior número do que são os profissionais honrados que defendem as leis. Isso não significa que o autor da ação se enquadre nessa categoria, mas, sim, que agiu como um mau profissional, talvez por deslize, pois não avaliou corretamente o mérito de sua solicitação;
  • Os adjetivos aplicados em referência aos frentistas demitidos não têm, na verdade, caráter pessoal; simplesmente refletem o que são as pessoas que roubam ou tentam roubar qualquer pessoa, apoderando-se do que não lhes pertence. Além disso, há que se considerar a ressalva “se isso de fato aconteceu”;
  • Ninguém tem tanto azar para ser pego em seu primeiro delito. É grande a possibilidade de o dono do posto ter acirrado sua vigilância sobre os elementos demitidos, antes de tomar tal decisão, e o fez baseado nas leis trabalhistas que deveriam ampará-lo;
  • Que os sindicalistas gozam de benefícios especiais e fazem pouco para merecê-los, todos sabem. De maneira coloquial, o termo “mordomias” define bem a circunstância, assim como quando usado para se referir aos benefícios concedidos aos políticos brasileiros, que aceitam o julgamento do povo e nem por isso se sentem ofendidos;
  • A consideração de que o presidente do sindicato teria agido como outros sindicalistas, motivado por sua revolta pessoal contra os empresários, é resultado das análises dos fatos e da notícia, incluindo a interpretação dos textos publicados. Se errônea, deve ser levada em conta a capacitação do autor dos textos e não a sua interpretação. Para publicar um informativo oficial, o responsável deve ter formação em Jornalismo.

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