Ficção e Realidade

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O termo “idiocrata” ainda não aparece nos dicionários da Língua Portuguesa, mas corre solto nas bocas brasileiras, já há algum tempo, sem nenhuma dificuldade para entender seu sentido. O princípio é o da similaridade. Conhecemos, por exemplo, a palavra “burocrata” em seu sentido real e também no pejorativo, usando este último para definir uma pessoa que, por achar de grande prestígio seu cargo burocrático, exorbita de suas funções e assume atitudes intoleráveis no desempenho dessas. O idiocrata é, portanto, aquele que extrapola todos os limites da idiotice. De certa forma, é um idiota profissional, de carteirinha.

Os idiocratas, assim como em outras categorias de “cratas”, são aqueles que se isolam em fictícias torres de cristal e imaginam que o mundo é o que enxergam em suas fantasias. Eles existem aos montes e podem ocupar qualquer posição que entendam estar acima de todas as outras classes de humanos.

Nessa casta estão os tecnocratas, que, segundo definição formal, são altos funcionários de alguma organização ou entidade que buscam apenas soluções técnicas ou racionais para os problemas, sem levar em conta aspectos humanos e sociais.

No âmbito da tecnologia aplicada, como na internet, existem grupos que, sem exercer qualquer atividade que se enquadre nas categorias de trabalho por eles avaliadas, definem padrões que estão tão próximos da realidade brasileira quanto Plutão está do Sol. Uma delas é a ABRADI – Associação Brasileira dos Agentes Digitais.

Essa associação definiu com a ajuda de várias agências e parceiros uma tabela de referência de preços de serviços. Quero aqui comentar o que diz respeito às atividades de web design. Começo pelo serviço de criação de blogs:

A imagem acima foi retirada do material fornecido por aquela associação cujo título é “Valores referenciais de serviços internos”, publicação com sugestões para o biênio 2016~2017.

Quem, em sã consciência, aqui no Brasil, se dispõe a pagar R$ 14.400,00 por um blog quando há milhares de garotos que ainda são sustentados pelos pais apresentando-se como profissionais e oferecendo um serviço parecido por menos de R$ 200,00, sujeitos a pedidos de desconto e barganhas?

Há que se considerar os critérios de avaliação da ABRADI, que levam em conta o desenvolvimento completo do blog, incluindo sua estruturação, codificado linha por linha e cumprindo todas as exigências essenciais para garantir facilidade de uso, velocidade de carregamento, segurança e otimização, para que o resultado apareça entre as primeiras indicações nas pesquisas do Google.

A questão é: é isso que os clientes procuram?

Não. Todos querem um serviço profissional por um preço amador. Todos, sem exceção, a menos que seja um órgão do governo disposto a favorecer algum aliado político. No mercado comum, ainda que existam empresas milionárias, ninguém é bobo.

Dias atrás, num desses sites usados pelos freelancers, vi um anúncio que pedia um blog completo. A faixa de valores sugerida tinha como limite máximo a importância de R$ 1.500,00. O contratante, muito exigente, incluía em seu enunciado que todo o conteúdo do blog deveria ser gerado pelo profissional contratado, isto é, aquele que fornecesse o melhor preço. Ou seja, o trabalho ia muito além da criação do blog, envolvendo a criação e tratamento de imagens, redação das postagens (de 600 a 800 palavras) a partir de títulos sugeridos, monitoramento, correções e ajustes de curso, campanhas de divulgação, fidelização do público, etc. O anúncio não especificava por quanto tempo se estenderia a criação de conteúdos, deixando margem para o comprometimento eterno do contratado.

Até o momento em que acompanhei a publicação, o solicitante havia recebido 13 propostas. Duvido que houvesse um profissional de verdade entre os candidatos. Um profissional experiente não cairia numa armadilha como essa.

Enviei uma mensagem ao anunciante sugerindo que o trabalho fosse dividido da seguinte forma: a primeira seria a criação e publicação do blog, pronto para ser usado, já com preço estipulado; a segunda seria a criação de conteúdos, cujo preço seria definido por postagem, depois de conhecer todos os detalhes da necessidade. Eis a resposta:

Meu desejo foi responder que cinco milhões de reais seriam suficientes, mas, isto seria motivo suficiente para me expulsarem daquele site.

Agora, falemos de sites. A ABRADI sugere o preço de R$ 7.120,00 pela elaboração de um site de página única, no padrão one page. Não se trata exatamente de uma só página, esse modelo tem como página inicial uma espécie de sumário, exibindo resumidamente o que será encontrado nas demais páginas. A definição da ABRADI, entretanto, define que este preço é para criação de uma página destinada exclusivamente a uma campanha, não valendo para sites mais complexos e com variedade de conteúdos.

Ainda que apliquemos alguma versatilidade ao site, são pouquíssimas as empresas que aceitariam o valor sugerido. Estabelecimentos comerciais de pequeno e médio portes pechinchariam durante meses até aceitar 10% dessa quantia com parcelamento em até seis vezes sem juros!

É importante salientar as observações do rodapé.

Em pesquisa recente, a Workana divulgou uma tabela de preços/hora de diferentes níveis de profissionais.

Participei dessa pesquisa e, com base nos parâmetros fornecidos (informações reais), o valor/hora estimado para o meu caso foi de R$ 95,00. Ainda de acordo com a pesquisa, os menos qualificados, sem estrutura formal, cobram em média R$ 29,00/hora. Considerando-se a carga de oito horas diárias (na verdade trabalhamos bem mais que isso), os quase-amadores estariam percebendo o montante de R$ 4.640,00 a R$ 4.900,00 por mês, se tivessem serviço todos os dias. Isto é ficção. Na mesma proporção, eu estaria feliz, alcançando a marca de quase R$ 16.000,00 (valor bruto) por mês trabalhado.

A valorização feita pela Workana seria razoável, levando-se em conta que a condição profissional implica custos como os de instalação, consumo, manutenção, locomoção, impostos, garantias pessoais e profissionais, tempo de experiência, nível de conhecimento e comprometimento, necessidades eventuais (impossibilidade de trabalhar devido a doenças, ausências legais), aquisição de novos recursos e equipamentos, treinamentos e aperfeiçoamentos; itens que os contratantes não compreendem, mas são obrigatórios para os profissionais.

Como não há regulamentação para essa atividade, os amadores se multiplicam e absorvem a demanda por preços aviltantes, prestando serviços de baixa qualidade. Isto é realidade.