Enfim, um lar

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minhatoca13

 

Na versão anterior deste blog fiz questão de apresentar a casa onde passei a morar a partir do dia 13 de maio de 2011, uma sexta-feira (13). A escolha dessa data não foi casual. A casa também tem o número 13 que para o Zagallo, meu xará, tem um significado todo especial, embora seja considerado por muitos um número de azar. Pura superstição.

Passados sete meses, republico parte da postagem perdida para falar com mais propriedade sobre ela.

A topografia de Bragança Paulista é bem acidentada, cheia de ladeiras, mas são poucas as que nos fazem perder o fôlego. A rua onde moro é uma delas. É preciso estar em boa forma para vencê-la de uma só vez – para quem sobe – e ter muito cuidado para não descê-la feito uma bola, rolando até a rua onde termina. Para se ter uma ideia do que estou falando, a diferença de altura entre os limites laterais do terreno (onze metros) é de aproximadamente três metros, o que garante um verdadeiro espetáculo quando chove forte, pois ali se cria a perfeita reprodução de uma caudalosa cachoeira.

Por estar quase no topo da ladeira, a casa oferece uma vista privilegiada de um lado da cidade, nivelando-se ao sexto andar de um prédio que fica na rua debaixo, possibilitando o acompanhamento do pôr do sol por trás de um morro forrado de vegetação e quase inabitado, apesar de estar próximo do centro.

Sua peculiaridade mais marcante é o formato do terreno – triangular –, terminando em forma de cunha, o que entretanto não causa sensação de aperto, pois é nos fundos que fica o quintal, bem protegido de olhares curiosos. A privacidade ali é assegurada principalmente pelas árvores frutíferas de um vizinho.

A mudança – do “apertamento” com dois meio-quartos, banheiro e sala conjugada com uma “coisinha” para uma casa quase térrea – foi realmente gratificante em todos os sentidos. Apesar do sol que a banha durante todo o dia, a casa é fresca no verão e aconchegante no inverno, graças à excelente ventilação e ao piso de madeira nos ambientes mais usados. Sua planta original, datada de 1953, foi sutilmente modificada, ganhando um cômodo extra, hoje transformado em escritório, e um dos quartos – de frente – é ocupado como sala de estar, permitindo a criação de uma área de recepção onde antes era a sala.

É certo que não é a casa dos meus sonhos, e tem lá seus defeitos, evidentemente. Mas, me sinto muito bem dentro dela, curtindo cada canto.

Verdadeiro achado

minhatoca_plantaSeria fácil criticar o imóvel, especialmente por ser tão antigo. Os tijolos (de verdade) foram assentados com barro e os materiais de acabamento são de segunda categoria, refugos de depósitos de materiais de construção em sua maior parte (portas, pisos cerâmicos, azulejos), sem nenhum padrão que dê à casa um estilo. Pode-se ver na fachada que ela não tem eira nem beira, característica que de acordo com o significado mais antigo demonstra baixo poder aquisitivo de seus ocupantes. A garagem e o porão (sim, ela tem um porão!) são baixos e têm como teto o assoalho dos cômodos superiores. É preciso ter cuidado com a cabeça. E o banheiro é uma calamidade; além do formato irregular, foi ali e na área de serviço que foram cometidos os maiores pecados, por total desrespeito ao bom senso. Todavia, esses pequenos detalhes são compensados por outras coisas mais importantes. O senhorio é a maior delas.

O perfil mais comum de senhorio é aquele do cara que só pensa em ganhar dinheiro e acha que não tem nenhuma obrigação além dessa quando aluga seu imóvel. Os proprietários de imóvel de locação transferem, ainda que não devam, todas as despesas para o inquilino: contas de gás, água, energia elétrica, IPTU e o que mais for possível; entregam o imóvel em péssimas condições e exigem que ele seja devolvido em perfeito estado. Se qualquer alteração ou reforma tiver que ser feita, ainda que para aumentar a segurança ou valorizar o imóvel, precisa ser previamente autorizada e deve correr por conta do inquilino. E, se houver algum problema com o imóvel, o jogo-de-empurra pode durar mais que o tempo de contrato.

Meu senhorio não se enquadra nessa descrição. É um senhor humilde e generoso que procura me compensar apenas porque cuido bem de um de seus imóveis. E essa generosidade não é apenas para comigo, ele faz mais por outros inquilinos, deixando de receber aluguéis ou concedendo descontos espontâneos sem inclui-los em seus recibos, e gratifica os pedreiros que contrata pagando-lhes mais do que foi combinado. Talvez seja sua maneira de compensar o destino que a vida lhe deu. É filho único, solteiro e já tem mais de setenta anos.

É como se todo mês fosse Natal e eu recebesse a visita de Papai Noel. Ele quase se desculpa por vir receber (e só o faz porque eu telefono dizendo que quero pagar o aluguel). Senta-se e conversa comigo, conta e reconta seus “causos”, fala de seus parentes e conhecidos, recorda o tempo em que viveu num cortiço em São Paulo quando ainda era jovem.

Mais do que a casa, ele, sim, foi um verdadeiro achado, totalmente diferente de outros senhorios que já tive.

Virada da sorte

Alguém comentou que havia notado que outras coisas haviam mudado na minha vida desde que vim para a “casa verde”.

Verde simboliza a esperança e é a cor mais usada nos ambientes que propõem descanso. Escolhi o verde alecrim para substituir o rosa-velho que revestia as paredes externas, e o branco por simbolizar a paz. Me faz lembrar uma lápide: “descanse em paz”.

De fato, em muitos aspectos minha vida tomou outros rumos, mais interessantes, mais gratificantes. Saboreio meu primeiro café no quintal, saudando o sol, observando os passarinhos que ensinam seus filhotes a voar, fazendo barulho para incentivá-los; admiro a enorme quantidade de céu que a falta de prédios próximos me permite ver; me surpreendo com as delicadas flores de uma planta que se espalha por sobre as pedras do muro de arrimo sem que ninguém as tivesse plantado. Vivem por sua própria vontade, sem terra, sem que sejam regadas, e se expandem até o verão, quando, por castigo do sol, começam a secar.

Planos

Diante desse quadro não é difícil fazer planos. O senhorio concordou em participar da reforma do banheiro, e tenho certeza de que vou surpreendê-lo com o resultado. Mas, é preciso programar cada passo com cautela, pois não há banheiros alternativos. Não entrarei em detalhes, deixarei isso para mais tarde, mostrando imagens de antes e depois da reforma.