E cerram-se as cortinas

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luis-perroneComo bem disse um amigo, hoje ficamos tristes, mas o céu certamente ficou mais alegre com a chegada de Luis Perrone. Para nós é uma grande perda, e acontece exatamente na semana em que ele foi mais intensamente lembrado por mim, durante a recuperação de lembranças de nossa infância e juventude, época de mais estreita convivência, quando eu rascunhava mais um capítulo do ensaio do que poderá, algum dia, se tornar um livro.

Luis, assim como eu, era “raspa do tacho”, filho caçula de dona Yoli e Dr. Danilo, e mudou-se para nossa rua quando ainda éramos crianças. Nossa aproximação foi rápida, pois seu pai fora aluno de minha avó e por isso nossas famílias já se conheciam. Além disso, passamos a ser vizinhos. Sua casa era o ponto de encontro de toda a turma. Nós a frequentávamos quase diariamente para nos divertir com tudo que lhe era proporcionado em troca de sua permanência em casa. Ali aprendemos a jogar pôquer, vinte e um e roleta, a fazer mágicas e a tirar som de uma guitarra ligada a uma antiga rádio-vitrola RCA Victor. E foi no sítio de seus pais, em Itu, que curtimos muitas férias, cavalgando a égua Índia e o Coronel, um velho cavalo branco, antes da chegada da luz elétrica naquele recanto.

Ele era o gozador, o mais espirituoso e versátil entre nós; e já mostraria desde cedo seu talento humorístico, uma qualidade que explorou durante anos nos intervalos dos jogos de futebol, pela Jovem Pan, participando da Rádio Camanducaia. Ainda pequeno, imitava Jânio Quadros com perfeição, arrancando risadas de jovens e adultos. Os apelidos que ele criava para os amigos eram certeiros e perenes.

Luis Eduardo – como sempre foi chamado por sua mãe – conheceu Heloísa quando passou suas férias em São Vicente, ainda um rapazote, e com ela se casou, formando uma família estável e unida, contrariando as expectativas de muitos, e viveu a vida com intensidade.

Seguimos nossos destinos em direções diferentes, perdendo o contato, mas sem que isso prejudicasse nossa amizade e a chegada de notícias esporádicas que nos prometiam um reencontro, tantas vezes frustrado. Certa vez, quando saía do consultório de um dentista em Atibaia, o vi passando de carro e, reconhecendo-o, apesar do tempo, acenei para ele feito um louco, assobiando alto para chamar sua atenção. Ele não me viu. Em outra ocasião, em visita à casa de Miguel, também nosso amigo desde aquela longínqua época, não foi possível nos encontrar, pois ele estava em viagem. Ficou a vontade de conciliar nossas agendas para cumprir o que saudade exigia.

Este fim de ano poderia ter trazido essa oportunidade. A visita de Chicão e Betinha, que também fizeram parte de nossas histórias na mocidade e hoje moram em Manaus, seria um forte pretexto. Infelizmente, não tivemos tempo.

Mais uma vez, sinto o peso da frustração, e agora definitiva, porque nos julgamos eternos. Não criamos o tempo que poderíamos ter criado para reviver nossas deliciosas lembranças, pois, crescemos e passamos a ter outros compromissos importantes.

Quero me lembrar de Luis do jeito que o conheci, levado, engraçado, brincalhão, divertido. Por isso não fui me despedir dele. Um dia – quem sabe? – voltemos a nos encontrar. Pode parecer piegas, mas é o que sinto.