Bons tempos…

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As crianças do século XXI não podem levar palmadas porque correm o risco de ficar traumatizadas; não fazem nada porque ganham tudo pronto; se sentem no direito de exigir o que há de mais caro, e recebem. Que destino terão esses “bibelôs de porcelana” se o mundo continua exigindo de nós?

Os anos sessenta

Precisei trabalhar desde os 14 anos, como muitos outros garotos, mesmo os de famílias com poder aquisitivo mais alto. Naquele tempo era importante aprender um ofício desde cedo e estar preparado para enfrentar o mercado de trabalho em alguma atividade que nos garantisse pelo menos as despesas pessoais. As escolas estaduais eram excelentes e exigiam bastante em seus exames seletivos. Não havia apadrinhamento ou fila de espera, éramos avaliados por nossa capacitação.

Tínhamos total liberdade para brincar nas ruas, apesar dos eventuais enfrentamentos, brigas e até surras que nos ensinaram a nos defender. Bebíamos água da torneira, não havia cintos de segurança nos carros, e em por isso morremos. Em plena São Paulo, desbravávamos o mato para alcançar o moderno Palácio do Governo, no Morumbi; tínhamos o “footing dos playboys” na Rua Augusta – mais tarde acarpetada – e comprávamos cigarros importados no Conjunto Nacional (única coisa ruim que fizemos).

As ruas da Vila Olímpia ainda não eram calçadas e iluminação pública não existia ali. Acompanhamos a instalação da primeira rede de esgotos e da pavimentação da velha Ministro Jesuíno Cardoso, naquela época ligando a Rua Ramos Batista à Avenida Santo Amaro sem mudar de nome, cruzando a João Cachoeira, então ocupada por moradias particulares. Mais abaixo, descendo pela rua do Rócio, hoje tomada por luxuosos edifícios, o que víamos eram chácaras, viveiros de plantas e tanques de criação de girinos.

Nossa caminhada até a escola – mais de um quilômetro – não pedia a companhia de adultos. Atravessávamos a Clodomiro Amazonas e a Avenida Santo Amaro com tranquilidade. Isso era nada para quem já vivera junto à Avenida São João… Depois, toda a turma se reunia para se divertir com as brincadeiras da época.

Liberdade – a palavra-chave

Não ficávamos entocados, não, senhor, de jeito nenhum, a menos que fosse para estudar. Tínhamos liberdade de espaço e de escolhas. Televisão só de vez em quando. Sempre havia o que fazer, fosse entre um grupo de meninas ou de meninos, e também com os dois grupos juntos.

Nossos carrinhos eram feitos com dois pedaços de sarrafo; as construções eram feitas com barro ou restos de caixotes, e as “ruas” daquele cenário eram traçadas naturalmente pelos “carrinhos” de madeira que arrastávamos no chão. O que mais usávamos era nossa imaginação e a criatividade! Esse negócio de ficar com os olhos vidrados, apertando botões com desespero não serviria para aquela garotada.

Usávamos as tampinhas de garrafa – que eram de metal – para cavar as caçapas, também chamadas de “casas”, buracos ou borrocas, e jogar bolas de gude (berlinde). Eram várias as modalidades desse jogo. E ninguém ficava chateado por perder suas bolinhas para o Júlio, um japonesinho de incrível pontaria e habilidade.

Foi ele quem nos ensinou a jogar “cinco marias”, um jogo que usa cinco saquinhos cheios de arroz ou areia, no qual ele era craque também. As meninas também podiam participar, mas ele sempre ganhav
de todos nós. Bem, pelo menos nesse jogo ninguém perdia os saquinhos…

Às vezes passávamos uma tarde inteira brincando sem notar que o tempo havia passado.

Quando pensávamos em brincar de telefone sem fio, nos referíamos à brincadeira de cochichar uma determinada frase ou palavra junto ao ouvido do próximo da fila para ouvir alguma coisa sem nexo no final. Outro tipo de “telefone” era aquele feito com duas latas ligadas por um barbante.

Tínhamos também o jogo de pião. Com ele treinávamos pontaria, força e habilidade. Porém, não era porque o jogo foi feito para homens. Quem me ensinou a jogar foi minha avó, quando já estava com 77 anos, e ainda com muito controle sobre o brinquedo. Ela o trazia à mão usando a fieira (cordão), sem precisar se abaixar.

Enfim, na nossa infância nunca nos faltou o que fazer, não tínhamos essa coisa chata de ficar perguntando para as mães “— E agora, o que é que eu faço?”. Sabíamos o que fazer, o que inventar, o que queríamos descobrir.

É claro que com o passar do tempo fomos modificando nossas brincadeiras. Em lugar do pega-pega veio o “beijo, abraço ou aperto de mão?”, marcando o início da puberdade, cheia de malícia e de conchavos para garantir que sempre beijaríamos a menina mais bonita e apertaríamos as mãos das mais feias.

As mudanças do corpo e a multiplicação dos hormônios mudaram nossas vozes, nos fizeram espichar rapidamente, trazendo os incômodos cravos e espinhas da juventude. E com ela veio o buço, que se fortaleceu e nos obrigou a usar aparelhos de barbear (naquela época isso começava aos 14 ou 15 anos de idade). Sentíamos falta de descargas mais fortes de adrenalina, e uma das maneiras de consegui-las era descer as ladeiras do Morumbi com nossos carrinhos de rolimã, feitos com nossas próprias mãos, usando materiais colhidos em ferros-velhos. Já havíamos deixado de lado as pipas (alguns dizem “os pipas”) de variados formatos e tamanhos, sempre pensando no prazer de recolhê-las molhadas depois de soltar três ou quatro carretéis inteiros de linha. Sem cerol.

Evolução ou retrocesso?

Não há dúvida de que usávamos muito mais criatividade e habilidade que os jovens de hoje, embora tivéssemos muito menos oportunidades – e até mais obstáculos – para conseguir a quantidade de informações que hoje estão ao alcance dos dedos, na internet, na televisão e nas salas de aula. Entretanto, apesar de nossa “ignorância”, a quantidade de meninas grávidas não era tão grande quanto é hoje. Nossa alimentação nunca foi balanceada, comíamos o que tínhamos vontade de comer ou o que podia ser comprado dentro de nossos limites financeiros. Nenhum de nós frequentou consultórios de psicólogos ou psiquiatras para encontrar seu equilíbrio mental e emocional, nem ameaçou pular pela janela se não ganhasse um par de tênis de marca ou seu primeiro carro antes de completar 18 anos.

Por isso quando alguém da minha idade diz que eram bons aqueles tempos, não é com a intenção de ofender os jovens, mas, sim, por frustração, por vê-los tão limitados, apesar de haver tantos recursos novos à disposição. Não os recursos da tecnologia propriamente ditos, porém, os recursos da informação que pode ser obtida com a ajuda dessa tecnologia, tornando-os capazes de fazer coisas mais úteis e interessantes do que as que fazem. No entanto, sua preguiça é tão grande que nem escrever eles sabem! E ler eles não querem.

Proibir os pais de, vez ou outra, darem algumas boas palmadas em seus filhos ou colocá-los de castigo é coibir a boa educação, é privá-los de bons exemplos e de orientação, é esconder a verdade e as necessidades que eles descobrirão cedo ou tarde, quando enfrentarem a vida sozinhos. É mimá-los num mundo que não aceita mimos.

A César o que é de César

Devemos dar às crianças aquilo que lhes pertence por direito: a infância; aos jovens, a juventude; aos homens e mulheres maduros, as responsabilidades com as quais devem arcar por seus atos.

Apoiar a precocidade da criança que quer se portar como adulta, se apresentar em programas de televisão, usar maquiagem ou dirigir no colo do pai coloca em risco a tranquilidade da família e pode comprometer o futuro da criança.

Para que dar a uma criança um celular, a menos que o desejo seja de livrar-se da responsabilidade de ampará-la enquanto esse apoio é necessário, ou, mais que isso, fundamental para sua formação? Apenas porque ela quer ter um?!

Não são seus “sins” que vão impedir a revolta de seus filhos, se eles tiverem por que se revoltar; nem seus “nãos” que provocarão seu desequilíbrio.

Recrie o mundo, faça-o interessante e divertido como já foi. Incentive o talento, a criatividade, as habilidades, os valores morais, o respeito pelo próximo; estabeleça limites sem privá-los da liberdade. Dê a eles motivação para conquistar o que desejam em vez de lhes dar tudo pronto. Forme pessoas, não bonecos.

As mudanças de comportamento ocorridas nas últimas gerações, assim como as invenções, trouxeram-nos coisas boas e ruins. A perda dos valores que acompanham a simplicidade – e sua irmã, a humildade – talvez tenha sido a pior delas.

Talvez devamos retroceder para evoluir.