A pandemia Facebook

0
100

No calor da febre provocada pelo que parece ser uma pandemia, a rede social Facebook já conta com uma quantidade de usuários equivalente a 10% da população mundial – mais de 700 milhões. No vácuo desse sucesso, o miniblog Twitter, que também vem aumentando sua popularidade a cada dia, agregou vários recursos que permitem mais “visibilidade” de seus usuários. Outros sites e ferramentas vêm sendo criados e facilitam a interação com ambos para capturar informações de todos os lados – gratuitamente. O que pouco se comenta é como são usadas essas informações e quais são os riscos de publicar certas coisas na internet. As pessoas de boa índole se esquecem daqueles que passam seu tempo tentando tirar vantagem ou prejudicar os outros.

Teoricamente, o Facebook deveria ser apenas um site para facilitar a comunicação e a troca de informações e fotos entre pessoas com algum relacionamento no mundo real. Mas, seus criadores não queriam que fosse como o Orkut. Era preciso criar algo diferente, com mais recursos.

Se você já se esqueceu, vamos relembrar como funcionava o Orkut.

Você criava seu perfil e convidava seus amigos a fazerem parte dele. E vice-versa. De cara, as pessoas já encontravam um mecanismo de seleção para limitar o acesso a determinadas informações e/ou às fotos e a comunicação ficava entre amigos. Inúmeras redes semelhantes surgiram ao longo do sucesso do Orkut, fazendo a mesma coisa.

O Facebook aplicou a fórmula de potencialização aos relacionamentos, permitindo, basicamente, que todos os seus amigos ficassem sabendo o que seus outros amigos publicavam, estendendo a todos os perfis vinculados, em qualquer grau, a mesma facilidade, dando a todos e a qualquer um a oportunidade de divulgar seus pensamentos, opiniões, ideias, preferências, hábitos, etc. Assim, se o amigo do seu amigo publicar alguma coisa, você ficará sabendo e poderá se interessar em ser amigo dele também.

A ideia é mexer com a vaidade das pessoas garantindo a elas a platéia que a maioria não conseguiria conquistar de outra forma. Ainda que essa platéia não dê a mínima para o que foi publicado.

O “face“, como é chamado pelos mais íntimos, nada mais é do que a reprodução da torre de Babel do século XXI, ocupando um ambiente virtual onde não há limites nem para seus próprios objetivos. Recentemente, Mark Zuckerberg (27), o CEO do Facebook que parece estar tentando realizar o que o povo da Babilônia não conseguiu, anunciou que vai criar uma internet dentro da internet, e lá a quantidade de informações será tão grande que todos se surpreenderão. Com a criação do recurso “Timeline“, por exemplo, já é possível criar a biografia do usuário, incluindo informações desde o seu nascimento. É mais do que um currículo, é a derrubada definitiva da privacidade das pessoas, pois elas desconhecem ou se esquecem dos riscos de tanta exposição.

Nesse passo, falta pouco para que a ficção que serve à série “Person of Interest” se torne realidade e tenhamos câmeras nos vigiando até no banheiro de nossas casas.

A ingenuidade dos usuários do Facebook

Os problemas de privacidade do Facebook são longos e numerosos, mas uma pesquisa divulgada recentemente nos EUA pode deixar seu co-fundador mais tranquilo. Pelo menos por enquanto. Após a poeira baixar, a maioria dos usuários da rede social ainda parece confortável com o serviço. Segundo estudo divulgado na última semana pela empresa de pesquisa de social media Poll Position, a maioria dos usuários do Facebook nos EUA está confortável com as informações pessoais que divulgam na rede social: 69,5% dos usuários da terra do Tio Sam naquela rede social não se incomodam com as informações pessoais que publicam. Já 23,2% disseram que não estão confortáveis com o que compartilham e 7,3% não têm opinião formada sobre o assunto.

De outro lado, em sua apresentação intitulada “O lado negro: mensurando e analisando atividades nociva no Twitter e Facebook”, Daniel Peck, pesquisador da Barracuda Networks, mostrou em detalhes como os cibercriminosos enganam as pessoas nas redes sociais. O estudo deixa claro que as percepções dos usuários sobre segurança nas redes sociais contrastam drasticamente com a quantidade de membros nos sites – detalhes que podem ser vistos no artigo Facebook não é seguro, mas adoramos mesmo assim.

Uma a cada 60 postagens no Facebook é spam ou possui conteúdos perigosos.

Entre os entrevistados, 91,9% relataram que recebem mensagens indesejáveis na rede social, enquanto 54,3% disseram que já caíram em algum golpe de phishing e 23,3% afirmaram ter recebido malware. Até 50 pessoas são marcadas em uma foto ou post no Facebook, uma tática comum para atrair a atenção dos usuários para levá-los a links maliciosos.

Uma a cada cinco pessoas que responderam à pesquisa disseram que foram atingidos negativamente por informações expostas em uma rede social.

Os bandidos não dão trégua, ao contrário, estão se mostrando muito mais bem preparados no uso dos recursos tecnológicos modernos que os usuários honestos. Novos golpes surgem e se aperfeiçoam a cada dia. Os sequestros se tornam mais fáceis com tanta informação disponível. Dependendo de quão ingênuo é o usuário, dá para ficar sabendo os nomes de seus familiares, seu endereço, seu telefone, seus hábitos diários, seus horários, enfim, tudo que é necessário para se planejar um golpe com certeza de sucesso.

Além de tudo, a internet não é a vida real. As pessoas podem assumir qualquer identidade sem serem reconhecidas.

Falta de senso

Talvez o pior das redes sociais sejam as pessoas sem bom-senso, aquelas que publicam abobrinhas e acham que são o máximo. É fácil notar, por exemplo, que a maturidade acontece bem mais tarde para os jovens de hoje. Ou melhor, que algumas pessoas não querem aceitar que o tempo passou e já é hora de passar a agir e falar como adultos. Elas se expressam como pré-adolescentes, apesar das rugas na cara. Sem falar da limitação que apresentam em suas redações. Poucas escrevem corretamente. Pouquíssimas.

Apesar dos recursos da Medicina para conservar as feições mais joviais, é preciso cuidado para não cair no ridículo como certas atrizes e apresentadoras da televisão que trocam de marido de tempos em tempos para parecer mais jovens ao lado de garotos que parecem seus filhos. Crescer é um processo natural que estão tentando impedir.

Não é fácil assumir responsabilidades, mas um dia será inevitável.

Os egocêntricos

Felizmente mais raros são os que se acham a essência perfeita daquilo que escrevem ou pregam e contestam outras opiniões com fervor, apenas por serem diferentes das suas. Nem é preciso muito esforço para encontrá-los, basta navegar na internet e, no máximo, fazer uma busca com as palavras certas e você tropeçará neles. Para identificá-los, as palavras mágicas são “eu discordo“.

Com todo meu respeito, as redes sociais não são adequadas para certos tipos de discurso. Busca-se ali mais diversão do que aprendizado. Doutrina? Nem pensar, não funciona. Se Jesus voltasse hoje, certamente procuraria outras formas para reunir suas ovelhas, jamais usaria a televisão e a internet, pois saberia que esses veículos não têm a credibilidade necessária para atingi-las. A gente descarta qualquer coisa com um toque numa única tecla ou um clique no mouse. Mas, apesar disso, há quem procure recursos para transmitir seu recado com trombetas tocando ao fundo e cheiro de incenso, como se fosse um anjo descendo dos céus.

Desde que os padres começaram a apelar para a tática de alguns evangélicos, as religiões perderam o cerne e se transformaram em palcos. Eles estão lá no Facebook, no Twitter, no Orkut, com seus blogs e sites, valorizando seus próprios nomes, cuidando de suas aparências, querendo aparecer mais do que Aquele sobre quem deveriam falar. E as meninas adoram. Até se dizem cristãs.

Considerações finais

Essas “ferramentas” – as redes sociais – são ótimas quando usadas de forma inteligente. Os anunciantes que o digam.

A propaganda ganhou um novo formato. Além de ser animada e colorida, ela surge sob o seu nariz sem você saber de onde veio. Sua caixa postal, de repente, passa a receber centenas de mensagens; às vezes são endereçadas em seu nome, trazem até os números de seus documentos pessoais para ganhar sua confiança. Você está vendo uma determinada coisa e, pluft!, lá está um quadro por cima do fundo principal trazendo uma oferta, uma promoção, um aviso de que você foi o felizardo que ganhou alguma coisa. Ou então é uma coluna inteira com anúncios sobre coisas que, na opinião deles, é do seu interesse.

O SPAM virou moda. São centenas de sites oferecendo listas com milhões de endereços eletrônicos ROUBADOS sem o consentimento de seus proprietários, para você divulgar seu negócio, por um valor irrisório.

Tudo de ruim vem da ganância de pessoas que, ao exemplo de Mark Elliot Zuckerberg, querem abraçar o mundo e fazer fortuna sem fazer força. E é especialmente através de “ferramentas” como o Facebook que isso vem sendo possível.

Não condeno a criatividade de quem as inventou, nem julgo sua intenção ao fazê-lo. Eu mesmo, se fosse tão inteligente, gostaria de tê-las criado. Também não se pode generalizar a crítica sobre quem as utiliza. Porém, alertá-las sobre os riscos que estão correndo por falta de pensar, é no minimo um gesto humanitário.

Mas… cada um sabe onde o sapato aperta.