Que tal um rolezinho?

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No dia de Natal, em 2013, a jornalista Eliane Brum publicou no site Geledés Instituto da Mulher Negra (http://www.geledes.org.br/) um artigo com o título “Rolezinho: o que estes jovens estão ‘roubando’ da classe média brasileira”. Em seu texto, Eliane resume o novo fenômeno como uma mera manifestação de direito de uma classe segregada da sociedade brasileira. Segundo ela, nada há a ser criticado no simples encontro de pessoas que, como quaisquer outras, têm o direito de visitar um shopping, ainda que sejam 6.000 pessoas gritando juntas a frase “Eita, porra, que cheiro de maconha” do funkeiro MC Daleste, como aconteceu no shopping de Itaquera, em São Paulo, no dia 7 de dezembro.

Ela diz:

O Natal de 2013 ficará marcado como aquele em que o Brasil tratou garotos pobres, a maioria deles negros, como bandidos, por terem ousado se divertir nos shoppings onde a classe média faz as compras de fim de ano.

Um alienado pode ter a impressão de que houve um ato de mera discriminação, acreditando que no grupinho de seis mil havia somente negros e que todos entraram ali somente com a intenção de se divertir, sem causar nenhum dano ou prejuízo ao shopping e aos demais frequentadores do local. É óbvio que seu artigo foi escrito no conforto de sua casa, sem ter passado pelo que passaram as pessoas que estavam lá.

Eliane acusa os administradores dos “shoppings” (sic), a Polícia e a própria sociedade de abuso. Para ela, “os shoppings foram construídos para mantê-los do lado de fora”.

Uau! Que gente má! Investem uma nota num centro de compras só para manter pessoas privilegiadas em segurança! Sempre pensei que esse tipo de empreendimento fosse para reunir vários estabelecimentos num só lugar, com ar condicionado e facilidade de estacionamento!

Jamais passou pela minha cabeça que eu estaria mais seguro num shopping do que nas ruas. Afinal, as portas se abrem para qualquer pessoa que queira atravessá-las. Pelo menos sempre foi assim comigo, embora muitas vezes eu tenha entrado nesses centros de compra com os bolsos vazios, sem talão de cheques ou cartões de crédito, apenas para me refrescar, ver o movimento e olhar as vitrines. E cheguei a pé, pois não tenho carro.

rolezinho1A verdade que Eliane e outras pessoas que vivem num radicalismo absurdo não querem ver é que o problema, neste caso, não é o desejo de tantos jovens de visitar um shopping. Nunca fui barrado ou colocado para fora de um recinto com acesso público. Você foi? Acho que não. Bem, nós nunca chegamos “fardados”, com bonés enterrados na cabeça, camisetas, bermudas e tênis (ou chinelos), gritando frases de funkeiros, provocando pânico, fazendo as pessoas correrem com medo de serem assaltadas ou agredidas. Entramos em qualquer lugar com naturalidade, sozinhos ou acompanhados de nossas famílias ou amigos, livres de preconceitos e de revoltas, de forma civilizada e educada, sem a preocupação de sermos notados.

A jornalista ressalta que “racismo, sim, é crime”. Entretanto, há sempre dois lados numa moeda. O racismo existe, de fato, mas de ambos os lados. Sei o que é ser deixado de lado numa festa onde só há negros, por exemplo.

jovensTenho amigos negros. Vários. E todos eles são decentes, trabalhadores, com famílias bem estruturadas, poucos filhos, bom nível de escolaridade, educados, gentis, simpáticos, enfim, NORMAIS. Eles não se sentem inferiorizados, lutam, como qualquer pessoa precisa lutar para viver. Alguns conquistaram muito mais do que um sem número de brancos que conheço, e mais que eu, certamente. Nem por isso os odeio ou discrimino. Ao contrário, tenho-os como exemplos, gosto de sua amizade e vibro com seu sucesso. Não sinto inveja, ou ódio, porque venceram na vida, não quero que me doem o que têm, não acho que eu deva morar em suas casas ou arrancá-los de lá para que eu usufrua de suas conquistas. Se eu não fiz por merecer ou tive menos sorte, o problema não é deles!

Fontes de incitação à violência

Quem fomenta a revolta nesses jovens na realidade não são “azelite“, como dizem os paranoicos radicais que acham natural ser analfabeto e receber os benefícios dos programas paternalistas que garantem os votos dos pobres. As novelas, especialmente as da Globo, são escritas e rodadas com cenários irreais que são frutos das mentes de autores boçais que querem ver o circo pegar fogo; as atitudes do Governo, como festas e viagens desnecessárias regadas a caviar e champagne, excursões com centenas de aproveitadores para ver o Papa, obras faraônicas estacionadas e dinheiro grosso escoando pelos ralos enquanto nos faltam atendimento médico, instalações adequadas nos hospitais, professores bem preparados, educação efetiva com possibilidade de aplicação prática, segurança nas ruas e no trânsito, impostos mais justos e mais uma lista de reivindicações feitas pelo povo, são fontes muito mais perigosas para que esse tipo de revolta aconteça.

Somos manipulados por pessoas que têm espaço na imprensa, como Eliane Brum, que nos colocam uns contra os outros, sabendo que nem todos têm o mesmo discernimento. Na verdade, o que elas procuram é apenas aumentar sua fama, criar polêmica, mas continuam andando em seus carros blindados, às vezes sob a proteção de guarda-costas, entre cordões de isolamento que as mantêm ilesas e protegidas de ameaças. Ao contrário de nós, simples mortais, que vamos ao shopping em busca de entretenimento, diversão e descanso.

Visão curta e funk

Em sua “análise”, Eliane Brum demonstra uma tremenda miopia social separando o Brasil em duas classes: a dos privilegiados e a dos coitadinhos indefesos.

O funk da ostentação coloca os jovens, ainda que para a maioria só pelo imaginário, em cenários até então reservados para a juventude branca das classes média e alta.

Meu Deus, quanta bobagem escrita de uma só vez!

mcdaleste

Ainda no mesmo artigo, a jornalista afirma: “Em seus clipes, os MCs têm vida de rico, com todos os signos dos ricos. Graças ao sucesso de seu funk nas comunidades, muitos MCs enriqueceram de fato e tiveram acesso ao mundo que celebravam.”

Ora, essa não é uma outra forma de incitar os jovens de mesma origem a conseguirem o mesmo?! Nas letras (?) de suas músicas (???), os funkeiros promovem a violência, sugerem a revolta, estimulam a posse do inalcançável a qualquer custo, inclusive pela força; alguns fazem apologia ao sexo, ao ilícito e ao uso de drogas.

Um determinado leitor publicou o seguinte comentário sobre o funk na coluna de Roberto Justus (TV Record): “O funk estimula a ignorância, faz apologia ao tráfico de drogas e armas, desrespeito por policiais, estimula a futilidade, além de (possuir) pobreza criativa absurda. E muitos contêm erotização infantil mesmo, principalmente pela dança (que muitas vezes simula atos sexuais).”

Eliane entrevistou o Professor Alexandre Barbosa Pereira (Unifesp) para engordar seu artigo. Em resposta à primeira pergunta da jornalista, Alexandre diz:

O funk ostentação é uma releitura paulista do funk carioca, feita a partir da Baixada Santista e da Região Metropolitana de São Paulo, na qual as letras passam a ter a seguinte temática: dinheiro, grifes, carros, bebidas e mulheres. Não se fala mais diretamente de crime, drogas ou sexo. Os funkeiros dessa vertente começaram a produzir videoclipes inspirados na estética dos videocliples do gangsta rap estadunidense. Mas o mais curioso desse movimento é a virada que os jovens fazem ao mudar a pauta que, até então, era principalmente a criminalidade para o consumo. As músicas deixam de falar de crime para falar de produtos que eles querem consumir. Assim, ao invés de cantarem: “Rouba moto, rouba carro, bandido não anda à pé” (Bonde Sinistro), os funkeiros da vertente ostentação cantam: “Vida é ter um Hyundai e um hornet, dez mil para gastar, rolex, juliet. Melhores kits, vários investimentos. Ah como é bom ser o top do momento” (MC Danado).

Sim, até concordo. Deve ser ótimo poder consumir tudo que se tem vontade, mas, e aí? Essas coisas caem do céu? São deixadas no pé da árvore de Natal? Vêm em forma de doações espontâneas de pessoas de bom coração?

“Queremos estar no mundo do consumo, nos templos do consumo”

O artigo de Eliane Brum questiona: será que se fosse um grupo de brancos de classe média-alta, a reação seria a mesma?

É difícil imaginar tal possibilidade, assim como é difícil encontrar bandos de jovens de classe média usando indumentárias extravagantes e iguais, andando em bando, fazendo caras de maus, nos olhando torto e forçando a todos que moram dentro de um raio de 500 metros a ouvir músicas estrangeiras ou MPB a todo volume. Porém, existem os bandos onde a presença de negros não é vista, e que agem fora da lei, até matando inocentes com golpes fatais inesperados. O radicalismo existe em várias comunidades e se apresenta de maneiras diversas. Todos se lembram da Ku Klux Klan e dos Skinheads, não? E, para citar um exemplo mais próximo de fanatismo exacerbado, a intolerância de alguns petistas.

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Os petistas radicais

O que marca a diferença entre pessoas normais e os petistas radicais é a intransigência desses últimos. Uma pessoa normal é capaz de conversar sobre política e sobre os erros de políticos, ainda que pertençam ao partido por eles escolhido nas últimas eleições. O petista radical, não. Em sua auto-avaliação, ele nunca erra, está sempre certo. A opinião dos outros não existe e, se existe, está errada.

Ao comentar a minha opinião sobre o artigo em questão, no Facebook, fui motivado por um comentário ali publicado por uma moça petista: “Extremamente bom texto, mas isso só se você tiver estômago para encarar a realidade!!!

vomitandoOu seja, na opinião da petista, a realidade é o que pinta Eliane Brum como verdade: que existem dois grupos na sociedade brasileira, um rico (formado apenas por brancos) e um pobre (de não brancos), e que o grupo dos pobres é proibido de frequentar os shopping centers.

Argh! Dá vontade de vomitar!

Não há argumentação, há apenas a imposição de um posicionamento conduzido por uma verdadeira lavagem cerebral, a demonstração inequívoca da incapacidade de avaliar, ponderar, enxergar e considerar todas as possibilidades; falta humildade para aceitar o risco de equívoco ou erro. É apenas a mesmice de sempre: “Não, eu não erro! Os outros erram, eu sempre estou certo!

Para eles, as provas contra seu partido são forjadas, Lula realmente nunca soube de nada e deve ser canonizado. Quem não é aliado é inimigo (há religiões que induzem a pensar assim).

Bem, isso não é discriminação?!

Fica aqui uma pergunta que não quer calar: seria Eliane Brum uma dessas petistas radicais?

Ponto de vista

manosNão vamos rotular os grupos que participaram desses recentes “rolezinhos inofensivos”, defendidos tão enfaticamente pela escritora, repórter e comentarista Eliane Brum, da forma como ela rotulou o resto da população. Isto seria uma cretinice, embora de menor intensidade. Entretanto, como cidadão livre, me reservo o direito de externar a minha opinião – que pode não ser correta – sobre essa tribo:

Confesso que me amedronto quando cruzo na calçada com um grupo formado por mais de dois jovens caminhando com um gingado provocador, com bonés enterrados nas cabeças, sem nos permitir ver as suas caras. Fico irritado quando um carro carregando mais alto-falantes do que peças mecânicas passa diante de minha casa com o som em volume máximo, impedindo-me de conversar, falar ao telefone ou assistir à televisão, obrigando-me a ouvir o que o motorista – provavelmente já sem tímpanos – chama de “música”. Não frequento espaços onde as pessoas usam roupas enroladas no rosto; não faço parte das torcidas organizadas; não passo meu tempo encostado em balcões de bares. Nunca fui rico. Acredito que eu pertença à classe “C”, já que não tenho casa própria, nem um veículo motorizado para me locomover. Moro em imóvel alugado, vivo com simplicidade, às vezes uso bermudas, camiseta e chinelos, nem por isso evito entrar num shopping, pois sei que não serei barrado. Não pelo fato de ser classificado como “branco”, mas porque não represento ameaça para ninguém. Procuro usar meu tempo livre em atividades prazerosas, inclusive para aprender mais do que sei, que não é muito. Sempre estudei em escolas públicas. Nunca tive um carro zero ou um smartphone, nem por isso tenho vontade de tirá-los de quem os tem. Preciso trabalhar para sobreviver, e não culpo ninguém pela minha situação. Fiz as escolhas que precisei fazer.

Não acho adequada a atitude desses grupos. Cada um de seus membros pode ir ao shopping quando quiser e verá que não será detido ou convidado a se retirar apenas por estar mal vestido ou não ter dinheiro para consumir. Todos têm o direito de ir e vir, mas não o de ameaçar a tranquilidade dos outros. Acredito que as iniciativas de promover esses “rolezinhos” partiram, sim, de gente “do mal”, com o propósito de causar medo e tumulto, e que tudo isso é consequência de uma política manipuladora que impede que os jovens sejam bem formados, esclarecidos, capazes de discernir e de lutar, com esforço e determinação, para alcançar seus objetivos.

Vejo esse episódio como uma extensão dos movimentos das chamadas “minorias discriminadas” que têm exigido e conseguido do Governo apoio para se manterem em seu confortável ócio, numa bela rede sob uma frondosa árvore sustentada pelos que trabalham de verdade neste país. Isso é o resultado das bolsas-preguiça que não param de se multiplicar quando poderiam se transformar em investimentos na Educação.

É conveniente manter o povo na ignorância. Cegas, inclusive por seu estado miserável, as pessoas não conseguem ver o quanto lhes tem sido roubado por aqueles que se dizem seus protetores.

Minha vaia

Apesar de ter lido e apreciado os textos de Eliane Brum, deixei, como dezenas de outros, meu comentário (ou vaia) no site que publicou seu artigo. Desta vez, não foram poucos os que a criticaram. Ela deve ter achado ótimo, pois com isso aumentou sua popularidade, mesmo que negativamente.

Como se já não bastasse vivermos cercados por grades em nossas próprias casas, se deixarmos as coisas caminharem nessa direção, logo chegará o tempo em que seremos dominados pelos anarquistas. Então, seremos minoria.

Mas, será que aí o Governo vai nos dar apoio?!

criancaarmadadentro