Mortadelas e Coxinhas

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É difícil encontrar palavras para falar sobre o que estamos vivenciando desde alguns meses, e tenho notado que até os mais letrados enfrentam a mesma dificuldade, exceto quando definem este cenário com meros adjetivos, como vergonhoso, estarrecedor, absurdo, inaceitável e outros de igual quilate. No que estamos nos transformando? Em selvagens da Era monolítica, dispostos a aniquilar nossa própria espécie, movidos pela ganância pessoal?

Livremo-nos das paixões e ocupemos por um breve momento a posição de meros expectadores, como se estivéssemos no Paraíso, ao lado de Deus, observando o Brasil. Fiz este exercício e compartilho com você o que vi:

O dia em que o Brasil parou

Embora continuemos a viver cada novo dia, tudo que nos cerca perdeu a graça. Inclusive a palavra “graça”. Nossas vidas hoje fazem parte de um turbilhão que se espalha de Brasília para o resto do mundo. É pior que um tsunami, destruindo e arrastando para bem longe o respeito que deveríamos merecer.

Senti a chegada dessa “onda” em maio de 2014, com a aproximação da malfadada Copa do Mundo. O mercado parou, todos ficaram na expectativa do que aconteceria nos dois meses seguintes, como se uma nuvem negra pairasse sobre nós. As pessoas temiam uma repentina alta de preços em virtude da chegada dos turistas, mesmo nas cidades mais distantes dos centros de apresentação das equipes esportivas; os que acompanhavam as notícias sobre os preparativos conseguiam ler nas entrelinhas das notícias que, como sempre, havia superfaturamento em todas as obras, e profetizavam o desastre econômico que estava por vir. Eu mesmo, apesar de totalmente alheio ao campeonato mundial, fui tachado de pessimista, alarmista, melodramático e outros adjetivos, porque sentia no bolso a mudança do clima econômico.

Assistimos à amarga derrota do Brasil em campo, no dia 8 de julho, engolindo o resultado de 7 a 1 contra a Alemanha, no Mineirão, preparando-nos para uma surra muito mais dura a partir dali.

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Evolução do dólar

Não podemos – e só nos falta isso – culpar a derrota futebolística por todas as perdas que vimos sofrendo especialmente nos últimos dois anos. Mal sabíamos que naquela época já havia sido iniciada a Operação Lava Jato, em 14 de março, o que talvez pudesse justificar o resfriamento da economia sentido então. Por algum motivo, ou muitos, a Presidente Dilma foi ferozmente vaiada e hostilizada quando foi vista na cerimônia de abertura da Copa, na Arena Corinthians. De alguma forma aquele pode ter sido o momento do despertar de uma assustadora criatura que vivia na escuridão do passado e, por vingança ou descontrole, começaria a destruir tudo que havia neste país. E, assim, as ações despencaram na Bolsa de Valores, o dólar disparou em direção à estratosfera e o Brasil parou.

Para deixar a situação ainda pior, Dilma Rousseff decidiu isentar a FIFA, já investigada por diversas irregularidades, de pagar os impostos sobre a fortuna que levava daqui. O Brasil foi o único país do mundo a fazer isso.

Este, entretanto, não é o foco principal desta postagem.

O tsunami

paulo-roberto-costaAté abril de 2014, a operação Lava Jato já contava com 46 pessoas indiciadas pelos crimes de formação de organização criminosa, crimes contra o sistema financeiro nacional, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. Já estavam presos o doleiro Yousseff e o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. Foi exatamente na época do início da Copa que este último, com o intuito de reduzir sua pena e poder cumpri-la em regime domiciliar, resolveu abrir o bico, fazendo seu acordo de delação premiada com a Polícia Federal e provocando a primeira “marolinha” a ser sentida pelo governo. Na verdade, era o primeiro pino de boliche a ser derrubado pela pesada bola da Justiça, arremessada da cidade paranaense que viria, mais recentemente, ser chamada por Lula de “República de Curitiba”.

marcelo-odebrechtOndas maiores começariam a surgir após a prisão de Delcídio do Amaral, então líder do governo no Senado, que, sentindo-se traído e abandonado, decidiu contar o que sabia de todo o esquema. Mas, calma, não há aqui qualquer posicionamento pessoal. Não está em discussão a veracidade das denúncias feitas por ele, ou pelo deputado Pedro Correa, ou pelos executivos da Andrade Gutierrez e da Camargo Corrêa, além da oferta de delação feita por Marcelo Bahia Odebrecht. Soa no mínimo estranho que tanta gente admita culpa de ter participado de um esquema de corrupção que tem deixado mafiosos mundialmente famosos nivelados a ladrões de galinha e tudo seja mentira ou um plano engendrado apenas para derrubar Dilma Rousseff.

Zombaria, cinismo, desrespeito e idiotice

Fico atônito ao presenciar discussões acaloradas entre amigos ou parentes que divergem em suas preferências políticas sem se dar conta que nenhum de nós tem a menor importância nesse cenário. Afinal, o próprio país deixou de ser importante. O que se vê em Brasília é uma disputa desesperada pela permanência de cada um dos que ocupam os prédios do governo, independente de seus cargos, pois todos sabem que se um cair, todos que participaram direta e indiretamente de toda essa sujeira acabarão caindo, como uma carreira de dominós.

istoe-229x300A impressão que me dá é que a “Rainha de Copas” não quer largar sua posição – e tem repetido isso com veemência – porque teme que tenham acesso a informações que têm sido escondidas, inclusive de alguns seus parceiros, a sete chaves. Dados sobre empréstimos feitos pelo BNDES, por exemplo. Afinal, várias notícias veiculadas por diversas revistas e jornais, bem como algumas delações premiadas, indicam que o escândalo da Petrobras seria apenas a ponta do iceberg que se esconde nesse lamaçal. E, para tranquilidade dos petistas, não me fio no que publicam apenas as revistas “coxinhas”. Somos notícia no mundo todo!

Diante do risco de ver o navio afundar, levando toda a tripulação, inclusive o comandante, e também os passageiros, a presidente comete uma sucessão do que aos meus olhos se configura como crime, tentando tirar Lula da reta da polícia, usando dinheiro que não é dela para comprar deputados e pagar sanduíches de mortadela, ônibus fretados, camisetas e outros materiais promocionais, autorizando a emissão de cartazes convocando “especialmente negros e pobres”, alegando um monte de mentiras fabricadas para aterrorizá-los, promovendo o ódio e a revolta contra quem trabalha (como se emprego fosse sinônimo de riqueza). Não satisfeita, em atitudes impensadas, promove comícios fechados no Palácio do Planalto, onde aplaude e abraça aqueles que ameaçam a paz social, como se fossem herois nacionais, e enaltece aqueles que foram presos por terem cometido outros crimes.

Não são os jornais, a Rede Globo ou as revistas “coxinhas” que dizem isso, são as imagens que nos são trazidas diariamente não apenas pela televisão, mas também pela internet; são os fatos testemunhados por muitos que ousam gravar e transmitir, às vezes ao vivo, o que se passa naquele covil! Porém, há olhos que não enxergam e ouvidos que não ouvem, cabeças que não pensam que tudo isso recairá sobre todos nós. E, cegos, surdos e comprados por quase nada essas pessoas se transformam em marionetes. Portanto, minha maior indignação é por ver essa ignorância doentia, sem compreender o que os faz pensar que estão ganhando alguma coisa.

Abrindo os olhos para a realidade

Qualquer homem é valente para declarar uma guerra, mas, quase sempre é igualmente covarde para garantir sua própria segurança, omitindo-se do enfrentamento na frente de batalha. Se os responsáveis por esse tipo de decisão se enfrentassem “mano a mano“, as vidas de milhares de pessoas inocentes, incluindo as de mulheres e crianças, seriam poupadas.

A briga que corre em Brasília não é nossa!

Os políticos disputam seus poderes, suas possibilidades de roubar mais. Estão se degladiando por vaidades ou interesses pessoais e se lixando para aqueles que se enfrentam nas ruas ou manifestam suas vontades como se estivessem defendendo seu time preferido. O povo perdeu o juízo?! As pessoas vão sair por aí se matando por causa do bolsa-família? Vão se tornar criminosas tomando o que não lhes pertence porque alguém, em total insanidade, deu exemplos ruins roubando seu dinheiro? Somos tão pequenos que, ao perceber que podiam pagar mais, passamos a cobrar mais caro para fazermos volume numa manifestação cujo propósito nem conhecemos direito, sem questionar de onde vem esse dinheiro? Ou, de outro lado, vamos sair distribuindo socos e pontapés nesses miseráveis que muitas vezes não têm o que comer e em alguns lugares do Brasil chegam a vender seus próprios filhos para sobreviver?

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Enquanto se deliciam com caviar e champanhe importado, mantêm suas gordas contas em paraísos fiscais, se vestem com os melhores estilistas e desfilam em carros de luxo com motoristas particulares, seguranças e ar condicionado sem precisar trabalhar, os políticos nos veem apenas como “mortadelas” e “coxinhas”, lembrando-se de nós apenas quando precisam de nossos votos ou de nosso apoio. Como agora.

Mas, e depois?

A verdadeira revolução

A verdadeira revolução não será feita com armas. O que queremos não é ver sangue nas ruas. Queremos dignidade, paz, união, fraternidade, progresso, oportunidades para todos. Queremos um bom futuro para nós mesmos, para nossos filhos, netos, bisnetos e seus descendentes; queremos aparecer para o mundo como um país importante, pois sabemo-nos possuidores de riquezas exclusivas. Temos um vasto território fértil, empresas querendo ser criadas, lugares maravilhosos para serem visitados. Por que estragaríamos isso lutando uns contra os outros, se isso levaria de nós tudo que possuímos, menos a vergonha e o desencanto de termos obedecido como cordeiros uma alcateia que nos quer como refeição?

Deixemos de ser coxinhas e mortadelas, sejamos GENTE!

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