Comportamento

Banalização e mediocridade

A mediocridade das pessoas, somente durante a primeira década deste século, superou, e muito, a mediocridade que assistimos ao longo de toda a segunda metade do século passado. E continua superando. Além de uma inversão total dos valores fundamentais que assegurariam o desenvolvimento pessoal e profissional, levando ao crescimento do país, é frustrante ver que nos afundamos cada vez mais na ignorância.

Em seu artigo no blog Midiatismo, o jornalista Marcelo Rebelo afirma que a mediocridade tomou conta das mídias, especialmente na TV, especialmente graças à possibilidade que a internet oferece a qualquer pessoa que aprenda a usar um blog. Ele diz: “Acredito que, além da globalização, um dos principais motivos para o declínio da qualidade do jornalismo de entretenimento esteja na facilidade e baixo custo de produção das notícias propiciadas pelo meio virtual (…) pois com a inexistência de limites espaciais e custo quase zero para publicação de textos na web, há espaço para postar qualquer coisa. Desse modo, a qualidade informacional, pressionada pela rapidez e pela instantaneidade com que a informação é obrigada a circular no meio virtual, acaba cedendo lugar ao fugaz e ao descartável.”

As provas dessa afirmação são tão visíveis que não há como negar o fato. Todavia, o foco é muito mais amplo.

Estamos vivenciando um processo de banalização generalizada, como se nada mais fosse importante e tudo fosse naturalmente fugaz e descartável. Tem sido assim em todas as formas de relacionamento, com boa parte dos conteúdos oferecidos na literatura, no rádio, cinema e televisão, e até mesmo no comportamento humano, semeando desrespeito e frustração.

A realidade me assusta. Parece que ao entrarmos no novo milênio deixamos na porta os limites que nos ajudavam a tornar a convivência mais suave e garantiam a competência dos profissionais cujos préstimos nos são essenciais. Nesse pacote incluem-se a responsabilidade, o comprometimento, a consciência, o respeito ao próximo, o bom senso e outros valores que talvez tenham se perdido para sempre.

farda

É f… moda

Não vamos generalizar, mas, consideremos os fatos: no século XXI, as pessoas assumiram a postura de telas de pintura, permitindo-se às tatuagens exageradas – por exemplo –, o que causa a impressão de que não trocam de roupa; entregaram-se aos piercings, ficando com o aspecto de uma tendinha de camelô; passaram a chamar de música o barulho que insistem em compartilhar com outras pessoas num raio de no mínimo quatro quarteirões, estourando seus próprios tímpanos. Talvez elas se perguntem por que o piano tem 88 teclas se elas só precisam de três ou quatro para “compor” uma música…

Vejo que existe hoje uma incontida necessidade de estrelismo. As pessoas querem estar sob o foco dos holofotes, com a atenção de todos voltada para elas, porém, sem que isso lhes custe algum esforço especial. E uma das maneiras mais fáceis de fazer isso é apelando para o exagero e para o que é chocante para os conservadores.

seculoXXI

Há alternativas para os medíocres. Alguns conseguem sê-lo sem agredir (demais) nossos olhos e ouvidos, exceto pelo que dizem. O fanatismo (por qualquer coisa) é um bom exemplo. Afinal, é, também, uma forma de exagero.

facebook

As redes sociais têm se mostrado como excelente palco para tais pessoas. Diariamente, postam abobrinhas que nos reviram o estômago; colocam-se como donas da verdade, produzindo e reproduzindo pensamentos de arrepiar e causar enjoo; falam de suas vidas e sentimentos como se fossem o que há de mais importante no mundo, e ainda ousam perguntar aos amigos “— Você viu o que eu postei no Face?!”.

É muito fácil agradar uma pessoa medíocre, basta sorrir, sem demonstrar o cinismo, quando ela comete suas mediocridades, pois tudo que ela busca é a aceitação do que ela consegue ser.

Mas, convenhamos, não é fácil ser tão generoso.

cabeca_vazia

Não se trata de me colocar acima dos outros, só estou compilando as opiniões que recebo e com as quais concordo. Acho medíocres os reality shows, como A Fazenda e o BBB, pois são programas feitos com gente medíocre e acompanhados por quem, por falta de algo útil para fazer, passa o tempo tomando conta da vida alheia. Bom para quem vive fantasiando sonhos eróticos, principalmente depois da decisão de Boninho (Globo) que só quer corpos jovens e sarados no programa. Além de não acrescentarem nada em suas cabeças, ainda há quem pague para ver os participantes até dormindo.

desculpe_querida

Karma (e muita calma nessa hora)

Às vezes somos obrigados a tolerar os medíocres, ainda que isso nos custe uma incômoda acidez estomacal. Isso é muito comum no ambiente de trabalho, por exemplo.

Conheço um sujeito que não é mais medíocre por falta de espaço. Eu o chamo de “o anta”. A despeito da minha opinião (cada um tem a sua), o cara é idolatrado pelos patrões. Por que? Porque sabe puxar o saco como ninguém. É do tipo que diz “Vai viajar? Se espirrar na viagem, desde já, saúde!“. Ele é um adulador incorrigível, do tipo que procura dar um jeitinho de ser convidado para eventos particulares e se vale de sugestões alheias como se fossem dele para fazer mais sucesso com seus chefes e colegas. Sem noção de limites, ele se torna inconveniente. Nesse caso, procuro aceitá-lo, como expiação, pois tenho certeza de que ele próprio sabe que é medíocre.

pensadorJá com um outro determinado elemento, um inútil que se considera um expoente da erudição, não tenho a mesma paciência. Até seu jeito de rir é falso. É o modelo típico da primeira imagem desta postagem, o cara que se vê como o suprassumo de inteligência e capacidade, mas não passa de um idiota desmiolado que quer que o mundo acabe em barranco para ele morrer encostado.

Esse tipo de medíocre é inaceitável, pois ele acredita que já sabe tudo e sua vaidade não cabe em locais fechados. Em sua limitada visão, ele é o cara mais divertido e interessante do mundo, mas sob os olhos dos outros, é apenas um grande chato.

Enfim, o assunto é tão vasto que daria para escrever um livro (que ninguém leria, evidentemente).

mandrake

Ninguém se acha medíocre. Por mais que o seja, a mente sempre mantém ligado um mecanismo de defesa que nega essa afirmação. No entanto, segundo o filósofo Zé das Canas, o medíocre de hoje é a criança mimada de ontem, o que não deixa dúvidas: a mediocridade e a banalização de tudo não nascem com o indivíduo, são incutidas pelos pais e fortalecidas pelo poder do dinheiro. Vivemos num país onde se pode comprar qualquer coisa, inclusive títulos, gabaritos de provas e exames seletivos, diplomas e até mesmo o caráter de alguém. E, assim, vamos nos tornando cada vez mais medíocres.

A mediocridade como padrão

Os medíocres estão em alta, ganharam espaço, são valorizados pela mídia e fazem sucesso. São arrrrtistas (é preciso pronunciar essa palavra tremulando a úvula para dar ênfase), políticos e “proficionais” (a grafia neste caso acompanha o mérito) de todas as áreas que fazem parte de nossas vidas. Garantia de qualidade é coisa do passado, excelência custa caro.

O exemplo vem de cima (?). O Governo Federal hoje só tem olhos para a Copa do Mundo e para as eleições, sem se importar com o estado calamitoso da Saúde, da Segurança e da Educação, para citar apenas três exemplos de abandono. É a banalização do ser humano. Que se danem os duzentos milhões de brasileiros.

A Rede Globo atingiu o ápice dessa banalização reunindo numa única novela – Amor à Vida – as piores personalidades em suas personagens. O autor fez jus ao sobrenome: Walcyr Carrasco. A novela é tão ridícula que mereceu a piada que alega que César é pai dele mesmo. Só não colocaram o nome de “Vale Tudo” para que a novela não fosse confundida com a outra, de 1988.

amor_a_vida

Carrasco cumpre sua missão decapitando todos os telespectadores, decepando-lhes os cérebros. Só falta mostrar que Félix está grávido de seu próprio pai. E a audiência é boa! [foot]Passei a assinar a Claro TV, que não oferece a Rede Globo em sua grade de programação para Bragança Paulista. [/foot]

dolabellaComo não existem mais limites, Dado Dolabella (Carlos Eduardo Bouças Dolabella Filho) pode se apresentar como ator e cantor. Sua credencial é a certidão de nascimento contendo os nomes de Carlos Eduardo Dolabella e Pepita Rodrigues, seus pais, que o geraram quando faziam parte do cenário artístico.

Isso basta.

E viva a mediocridade!

Tags

Artigos relacionados

Leia também

Close
Close
%d blogueiros gostam disto: