Geral

Asas para as cobras

Enquanto exerci atividades autônomas ou à frente de algum negócio, minhas maiores preocupações eram: 1) a satisfação de meus clientes em todas as fases de nosso relacionamento; 2) a satisfação de meus empregados com a honestidade da empresa e a pontualidade nos pagamentos. A regra é simples: se você quer ser bem visto, trate os outros da maneira como você gostaria de ser tratado. A isso dá-se o nome de empatia.

Infelizmente, este não é o pensamento que prevalece nas empresas, e menos ainda nos estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços.

Embora seja o cliente quem paga por tudo, os que ficam do lado oposto do balcão, ou da mesa, o recebem como se estivessem lhe prestando um favor num momento impróprio, às vezes com cara de quem comeu o que outra pessoa vomitou. E quem dera fosse só isso.

Quando cheguei a Bragança Paulista, ouvi muitos comentários negativos sobre a cidade e sobre a qualidade de atendimento, especialmente em domicílio. Diziam que isso era complicado. Mas, entusiasmado com a simpatia dos munícipes, muito receptivos e ainda com o hábito de cumprimentar até os desconhecidos ao cruzar com eles, achei que aquela observação poderia ser fruto de alguma dificuldade pessoal, e não uma característica local. Até sentir na própria pele.

Eletricistas, pedreiros, pintores, entregadores de gás e água, autônomos em geral, são os piores exemplos. Parecem estar nadando numa piscina cheia de dinheiro, como Tio Patinhas, não precisando de novos clientes. Você os chama, eles prometem que vêm, mas jamais aparecem. Acredito que isso seja uma nova técnica de vendas, para ter certeza de que o cliente está mesmo interessado, ainda que a atitude contrarie todos os livros sobre o assunto.

A primeira vez em que fui atendido de imediato foi quando pedi um orçamento de box para banheiro. O dono da loja veio me atender pessoalmente, todo solícito. Mediu, calculou e deu o preço mais barato que encontrei. Como se isso já não bastasse, me ofereceu um descontaço para eu pagar antecipado. Fi-lo (como diria Jânio Quadros) e dancei. Nunca mais encontrei o sujeito que já era super conhecido no Fórum, no Procon e no Tribunal de Causas Especiais.

O cara já é tão manjado na cidade que não é antiético dizer seu nome: Reginaldo (ele se diz pastor). Mestre em dar nó em pingo d’água e encaixotar fumaça, ele usa sempre o mesmo discurso: “se você me pagar à vista, no pedido, eu lhe dou um bom desconto”. E assim vai vivendo, de trambique em trambique, sem que nada lhe aconteça.

Tempos depois, precisei de um tapeceiro para recuperar um sofá. Por acaso havia uma tapeçaria no meu costumeiro trajeto para o centro e, já que estava ali, entrei e conversei com um sujeito que costurava. Ele foi gentil, me ofereceu os mostruários para que eu visse as opções de tecido, me mostrou os serviços que estavam em andamento. Tudo me pareceu satisfatório, então pedi que ele fosse à minha casa para fazer um orçamento. Mas, eu já havia aprendido a lição e não cairia na mesma arapuca: pagamento adiantado, nem pensar!

Não foi a mesma pessoa quem me atendeu, mas o dono da tapeçaria. Depois de três chamados, ele resolveu me visitar porque estava nas proximidades. Chegou por volta das oito e meia da noite, horário incomum para esse tipo de atendimento. Mediu o sofá, fez cálculos e me deu o preço e as condições de pagamento.

Minha permanência no “apertamento” estava com os dias contados. Eu já havia encontrado outro lugar para morar, e agora precisava planejar tudo, inclusive cada centavo que seria gasto. Sabia que as despesas seriam grandes, por isso disse a ele que eu voltaria a procurá-lo assim que estivesse no novo endereço, até porque seria muito mais fácil retirar o sofá de uma casa térrea.

Dois meses depois da mudança, voltei à tapeçaria e fui atendido por outro rapaz, a quem dei o recado para que o dono viesse buscar o sofá. Fiz isso umas quatro vezes, e estaria esperando por ele até hoje se não descobrisse um outro tapeceiro mais interessado, e também mais caro.

Resumindo: Bragança Paulista tem, sim, um problema sério com mão-de-obra. É difícil encontrar, e quando se acha – e vale a pena –, é cara.

Como não posso mudar o comportamento dos profissionais daqui, resolvi aumentar os meus preços.

Artigos relacionados

Leia também

Close
Close
%d blogueiros gostam disto: