Comportamento

Americanization

Por acaso, falo Inglês. Me interessei pelo idioma aos doze anos, por influência dos Beatles. Queria saber o que cantavam e cantar igual, assim como meu parceiro de banda, o Chicão. Ousamos até escrever letras de músicas em Inglês, mas tínhamos um conhecimento ainda bem limitado daquele idioma.

Anos mais tarde, ao ser avaliado pela Kodak para ocupar o cargo de Analista de Sistemas, me saí mal na entrevista, quando precisei mostrar o que sabia. Mas, por possuir a qualificação técnica adequada, tive o apoio da empresa. Inicialmente, contrataram um professor particular para me dar um curso intensivo; depois, tive oportunidade de passar pelos seis estágios do Yázigi, lá mesmo, e durante cinco anos convivi com americanos que não diziam mais do que “bom dia” e “até amanhã” em Português, embora vivessem no Brasil desde muito tempo.

Fiquei lisonjeado quando minha pronúncia foi elogiada por estrangeiros. Essa facilidade talvez venha do que é chamado de ouvido musical. Mas nem por isso perdi a noção da minha origem ou o patriotismo que meus pais e as escolas do meu tempo cultivavam e me ensinaram. Sou brasileiro, moro no Brasil, onde o idioma oficial é o Português, portanto, falo Português e procuro respeitar meu idioma nativo, seguindo suas regras tanto quanto posso e conheço.

comoQuando me desliguei da Kodak, chateado com a injustiça de ter sido incluído numa lista negra com o intuito de “reduzir gastos”, prometi a mim mesmo que jamais voltaria a falar em Inglês com estrangeiros que vivessem no Brasil. Não tomei essa decisão por preconceito, mas porque se você for aos Estados Unidos e pedir um “róti-dógui“, vai morrer de fome porque eles fingem que não entendem o que você está querendo dizer. Os americanos são muito bairristas e exigem que os estrangeiros saibam, no mínimo, falar seu idioma quando estão lá. E não são os únicos. Isso vale para outros países de Língua Inglesa, como Grã Bretanha, Austrália, etc. Afinal, se pensarmos bem, é um desrespeito visitar um país estrangeiro sem conhecer pelo menos sua Língua. E isso deveria valer também aqui.

Gentileza vc. tietagem

Uma coisa é ser gentil com estrangeiros quando precisam de nós; outra coisa é bajulá-los por considerá-los ídolos. Isso é uma tremenda asneira, pois, assim como há brasileiros de cultura limitada, há estrangeiros na mesma situação. E podemos encontrar verdadeiros gênios estrangeiros que ainda ficam devendo muito aos gênios brasileiros.

Uma excelente lição que aprendi é que somos todos iguais, apesar das diferenças. Em qualquer lugar do mundo as pessoas roncam, arrotam, soltam gases, transpiram, sentem medo, atendem às suas necessidades fisiológicas, usam privadas como quaisquer outras, sujam-se e lavam-se em processos semelhantes. Logo, não há motivos para nos sentirmos superiores ou inferiores a qualquer outra pessoa. O que nos difere são as culturas, os costumes e o idioma, por termos nascido em locais distantes.

Tenho visto, há algum tempo, alguns anúncios que diminuem nossos valores patrióticos em função da presença de estrangeiros. Um deles exibe uma equipe inteira apavorada com a chegada de um americano. Escrevi para a escola de idiomas responsável por esse absurdo. Deram uma desculpa esfarrapada dizendo que pretendiam mostrar que não é difícil falar outra Língua. Há também aquele outro, que mostra um jogador de rugby americano exigindo uma boa “pronunciation” do aluno; e, mais recentemente, o anúncio que mostra essa mesma “pronunciation” como um produto (perfume), depois de ouvirmos várias vezes o sujeito repetir “pér-suei-tchón”, num papel de idiota.

Auto-menosprezo

O próprio brasileiro se diminui diante de situações que deveriam valorizar nosso povo e nosso país. Não temos que sentir vergonha por não falarmos Inglês. Eles, os estrangeiros, que tenham vergonha de vir para cá sem conhecer o idioma falado no Brasil.

Um exemplo escandaloso desse desprezo pelo que somos vem de brasileiros que vivem fora do país. O desenho animado Rio foi dirigido pelo brasileiro (?) Carlos Saldanha e, a exemplo de outros filmes sobre nosso país, é cheio de palavras e costumes oriundos de países de Língua Espanhola. Ou você vê com frequência dançarinos de mambo por aqui?

Brasileiro metido a besta tem mania de importar termos americanos. Acha bonito dizer que é “CEO” de uma empresa, às vezes sem saber o que a sigla significa (Chief Executive Officer). Isso porque nos parece que “Chefe Executivo de Escritório” é um cargo de menor importância quando comparado a um “CEO”. Em virtude dessa boçalidade, estamos nos afogando em siglas e palavras que não fazem sentido para a maioria da população brasileira que não conhece sequer sua Língua nativa, o Português. Aliás, os metidos a besta escrevem mal pra dedéu!

esnobeRecente anúncio de um novo modelo de carro cita uma lista de características incompreensíveis para o público brasileiro. Mas, fazendo jus à fama de idiota, o brasileiro compra esses carros para se sentir mais importante, e é até capaz de decorar aquelas palavras só para poder repeti-las para os amigos ao mostrar seu poder financeiro: “– Comprei este carro por causa desse chrome effect diferenciado. E tem também a facilidade do easy driver.”

Há zilhões de idiotas assim. Alguns passam 60 meses comendo mortadela, enquanto dura o financiamento do novo carro, mas não perdem a soberba.

Para que facilitar se podemos dificultar?

Paralelamente, há o dialeto “siglês” (origem do CEO), uma verdadeira sopa de letrinhas que poucos se prestam a compreender, e também a variação das “abrvtrs” (abreviaturas) usada principalmente nas redes sociais e programas de comunicação virtual, que faz lembrar o jeito português de falar sem pronunciar as vogais: “oi td bm?”. Essa variação dispensa totalmente os acentos e a pontuação, gerando grandes equívocos, e serve, acima de tudo, para encobrir a ignorância de quem a utiliza.

O siglês é considerado chique. Identificar-se com uma sigla junto ao nome é sinal de status. Para os ignorantes, é claro. Afinal, para quem desconhece seu significado, as siglas podem representar qualquer coisa, inclusive uma posição de destaque.

filettoOs mais velhos hão de lembrar-se do mendigo da Praça da Alegria (interpretado por Fileto Borges de Barros) que se apresentava como milionário. Certamente, ele teria um cartão com uma sigla como “ZNFB” e conseguiria impressionar essa galera que faz tanta questão de siglas indecifráveis. Seria necessário inquiri-lo para conhecer as palavras que compõem a sigla, e isto jamais seria feito. E assim, o “Zé Ninguém da Favela do Banhado” permaneceria incógnito.

Essa “inveja” pelos americanos não tem sentido. Os portugueses usam “rato” em lugar de “mouse” e “sítio” em vez de “site”, e vivem muito bem com isso. Ah, sim, há o pequeno detalhe que não os diminui: os portugueses são europeus, e não brasileiros…

Essa “americanization” é uma prática medíocre que não cabe num país cuja maioria é ignorante.

By the way, I do speak English (tradução: a propósito, eu – realmente – falo Inglês), mas não me furto de aprender cada dia mais sobre a nossa Língua Pátria.

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