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A garota do beco

Existem coisas que, quando descobertas, nos acordam para uma realidade que preferiríamos desconhecer, mostrando-nos que somos frágeis diante dos impulsos dos jovens; ingênuos diante de sua criatividade; impotentes diante de sua coragem de nos desafiar.

A rua onde moro é usada como ponto de estacionamento por motoristas que trabalham por perto ou visitam as empresas que há na rua principal, apesar da dificuldade que enfrentam devido à sua inclinação incomum em seu trecho mais alto. Ao longo de seus duzentos metros de extensão, há pouquíssimos estabelecimentos comerciais, pequenos, quase inexpressivos. Entretanto, é via de acesso para uma das ruas mais povoadas pelo comércio, nessa região.  Apenas uma ou duas casas se destacam pelo porte ou pelo estilo. As demais são muito antigas e de baixo padrão, geminadas e às vezes enterradas em nível mais baixo, caracterizando o nível de seus ocupantes. Poucas têm garagem.

Apenas uma de suas transversais encontra saída para outras ruas. Duas travessas acabam em terrenos que pertencem a empresas particulares, servindo somente aos poucos moradores e ao pessoal mais privilegiado daquelas empresas. E há também um beco com talvez três ou quatro imóveis ainda mais humildes. E nesse beco, no mais simples casebre, mora uma velha senhora que raramente vem à rua, ao contrário de seus gatos que estão sempre invadindo as casas vizinhas.

Raramente alguém é visto circulando pelo beco. O movimento fica por conta dos animais de espécies supostamente inimigas que brincam como se vivessem juntos desde o nascimento. E, curiosamente, há sempre restos de móveis baratos amontoados no lixo.

Nas noites frescas de verão, gosto de passar um tempo observando pela janela a tranquilidade do trânsito na grande avenida, mais distante, e o apagar das luzes de suas lojas, por volta da uma hora da madrugada. É a maneira que encontro para relaxar e programar o dia seguinte.

Sábado

Foi numa dessas noites que vi aquela menina pela primeira vez. Não tinha mais do que quinze ou dezesseis anos. Vinha num galope perigoso, como se a ladeira fosse um brinquedo, e, de repente, estancou o passo com toda a força de sua juventude bem diante de mim, na calçada do outro lado. Sem notar minha presença, descalçou as sandálias e desapareceu no beco, saltitante. O relógio indicava 1h45 da madrugada do primeiro sábado daquele fevereiro.

Não pude evitar o questionamento: o que estaria aquela menina, de tão tenra idade, fazendo sozinha na rua em plena madrugada? Que tipo de pais permitiam tal coisa em tempos de risco como os que vivemos hoje? E o que ela foi fazer no fundo daquele beco que ela parecia conhecer tão bem?

Nós, os velhos, conversamos frequentemente com nossas almas e corações. Vamos muito além dos nossos botões, e já não nos incomodamos com o que podem pensar os outros.

Além disso, era quase impossível não repassar a cena, identificando outros detalhes, como as roupas que usava: um short, uma blusa leve e uma outra, de mangas compridas, talvez para o caso de a temperatura baixar mais do que de costume. Tudo muito simples.

E por que tirara as sandálias? Certamente – concluí – para não acordar alguém. Afinal, ela não voltou mais, e isto me bastou para acreditar que ela morava numa daquelas casinhas.

À luz do sol

Acordei preocupado em dar um jeito na bagunça da casa. Um amigo meu havia avisado que me faria uma visita. Tínhamos alguns assuntos profissionais para discutir e aproveitaríamos para almoçar juntos.

Quando voltamos, um grupo de crianças saiu do beco e desceu a ladeira. Um suave sorriso podia ser percebido em meu rosto, recordando a infância de minhas filhas, não tão livres por morarmos numa cidade bem maior. Eram quatro meninas com idades que variavam, talvez, entre oito e quinze anos, rindo, pulando, brincando. Podia-se perceber o andar torto da mais velha, indicando que lhe faltara a assistência devida para corrigir a posição dos pés quando ainda podiam ser corrigidos. Hoje, adolescente, ela não parecia mostrar qualquer complexo; ao contrário, sentia-se à vontade para expor suas pernas.

Naquele momento me dei conta de que aquela jovem era a garota do beco.

Segunda-feira

A temperatura era incomum para a nossa região, muito mais alta do que as registradas no mesmo período de anos anteriores. Possivelmente porque destruímos mais um pedaço da camada de ozônio e estejamos mais perto do fim do mundo. Notícias vindas de parentes que vivem na Argentina informavam que a temperatura havia alcançado por lá mais de quarenta graus nos últimos dias. Isso dificultava o sono, fazendo-me permanecer por mais tempo na janela, aproveitando uma sensação mais agradável do que no interior da casa.

Vi quando as luzes das lojas na avenida se apagaram automaticamente respondendo à única badalada do velho carrilhão, e o passeio da Lua pelo céu claro, quase sem nuvens, esperando o corpo implorar pelo descanso, evitando contar os minutos que se arrastavam no silêncio da noite, até me esquecer de que era preciso dormir. Afinal, não seria a primeira vez que eu atravessaria a madrugada acordado tendo que enfrentar logo mais um dia de trabalho.

Porém, precisamente às 2h40, vi surgir do beco aquela menina. Trazia as sandálias nas mãos e vestia, se não a mesma roupa, uma muito parecida, desta vez sem a blusa de mangas compridas.

Depois de vencer os três primeiros metros de calçada, jogou as sandálias e as calçou rapidamente, seguindo para o topo da ladeira com o celular em punho, digitando alguns números, quase correndo. Seguramente para avisar alguém sobre o novo triunfo de escapar pela janela enquanto as outras pessoas da casa dormiam profundamente. Era, de fato, uma fugitiva, mais uma adolescente rebelde em busca de algo que lhe faltava, disposta a enfrentar todos os riscos, imune a qualquer culpa e isenta de responsabilidades, pronta para todas as emoções. Se algo lhe acontecesse, ninguém saberia por onde começar a procurá-la. Mas, ela não pensava nisto.

Exemplos

Há alguns anos, em São José dos Campos, a filha mais velha de um advogado que conheci havia decidido voltar para o Brasil para morar com o pai. Estava então com vinte anos. Eu a conheci quando era ainda uma criança, com cinco.

Entusiasmada com os planos de seguir carreira em Direito, passou a trabalhar no escritório de advocacia de seu pai, onde conheceu alguns de seus clientes, entre eles um jovem de boa conversa, por quem ela se apaixonou profundamente.

Esse vínculo era útil para o jovem que ela passara a namorar, frequentando sua casa. Como cliente do advogado, entretanto, alguma coisa havia que o comprometia com a Justiça, mas, poucos sabiam o que era.

Aquele sentimento cresceu rapidamente e ela passou a fazer favores para ele. Não importava o que fosse, se ele pedia, ela atendia prontamente.

Certa vez, ao sair de uma danceteria, ela ofereceu carona a três conhecidos cuja fama não era das melhores. Não era um problema para ela, pois se relacionava bem com todos. Fez isso a pedido do namorado. E no meio do caminho, simulou um problema com o carro, estacionando num determinado ponto do acostamento da estrada.

Dois outros elementos que estavam amoitados exatamente ali surgiram de repente, disparando contra os três caronas, deixando-os inertes onde caíram.

Dias depois, ela foi encontrada em seu carro, com o rosto desfigurado depois de receber dez disparos à queima roupa. Havia cumprido sua função e tornara-se perigosa e desnecessária para o grupo ao qual pertencia seu namorado, um temido traficante de drogas.

Como acabará a garota do beco?

As chances de um futuro tranquilo e feliz para essa menina que hoje foge para encontrar o que preencha o vazio que ela traz dentro de si são pequenas se considerarmos o que ela pode encontrar nas circunstâncias às quais se expõe. Que tipo de companhia ela encontra às escondidas, sem que ninguém saiba? Quem a incentiva ou lhe dá motivos para transgredir os limites do bom senso? Quem responderá pelas consequências, caso lhe aconteça alguma coisa? E o que de tão ruim fez ou fizeram essa(s) pessoa(s) para pagar esse preço?

Depois de ler este texto, uma pessoa me perguntou por que eu não alertava a avó da menina.

Tenho várias razões para não fazê-lo. O risco de cometer um erro por tentar ajudar alguém é bem menor quando essa ajuda é solicitada. Não conhecendo aquela velha senhora, não posso avaliar como seria sua reação ou o mal que isso poderia lhe causar. Não sabendo aonde vai a menina, e com quem, não me exponho à possibilidade de uma retaliação que pode ser violenta e até causar a minha própria morte. Muito provavelmente, outros vizinhos já a viram fugir de madrugada, pois moram nesse lugar há mais tempo, e se nada fizeram foi porque pensam como eu.

Contudo, embora tenha o conforto de saber que isso não pode mais acontecer comigo, me pergunto: e se fosse minha filha?

E pergunto a você: e se fosse SUA filha?

Passadas algumas semanas, no início da madrugada, os gritos de uma menina levaram-me até a janela. Era uma outra jovem. Inconsolável, ela tentava explicar com desespero à vizinha que sua avó estava passando mal. A ambulância que chegou poucos minutos depois indicava uma situação grave. Os curiosos que se juntaram defronte o beco murmuravam comentários inaudíveis. Dias depois o casebre foi demolido. Nunca mais vi a garota do beco.

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