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A doçura de Mel

Há pouco tempo, numa reunião familiar, a sobrinha-neta de minha esposa, de apenas oito anos de idade, ao me observar com o cãozinho da casa onde estávamos, fez um comentário que me deixou muito feliz. Ela disse: “Nossa, Bá, todas as crianças e animais gostam de você!” Sem dúvida, aquele foi um dos melhores elogios que já recebi, pois crianças e animais não fingem e não se enganam. Quando gostam de alguém, quase sempre é porque aquela pessoa tem boa índole.

Na quinta-feira passada, Júlia, minha neta, voltou da aula de Inglês bem acompanhada. Uma cadelinha, aparentemente de rua, a seguiu desde a praça, espontaneamente, por cerca de um quilômetro. Estava suja, como se tivesse buscado abrigo sob um veículo, e magra, mas mostrava-se curiosamente simpática como se já se conhecessem.

Por coincidência, há algum tempo venho dizendo que gostaria de ter um cachorro. Gosto de cães, mas, além da resistência das mulheres da casa, tinha receio de adotar um. Há treze anos, minha pequena companheira Frida foi atropelada, deixando um incômodo vazio em minha casa e em minha vida. Além disso, eu mesmo concordava, em parte, com os argumentos: um animal de estimação implica dedicação e investimentos (vacinas, ração, cuidados veterinários, passeios diários), e também impõe sacrifícios, como arrumar substitutos em nossas ausências mais longas, limpar a sujeira, proteger móveis e chinelos, manter a casa em condições de receber visitas, etc.

Júlia teria fechado o portão e se recolhido ao quarto com aquele ar de frustração por não ter deixado a cadelinha entrar, se eu não pedisse para ela deixar que eu visse melhor sua acompanhante.

carinhoSentamo-nos num degrau da escada que leva à varanda e ficamos observando o animalzinho carente.

Não resisti, tinha que ver como ela reagiria se eu a chamasse. E ela entrou. Sentou-se diante de nós e curtiu o carinho que lhe demos. Gostou tanto que pediu mais, várias vezes com muita humildade, enfiando seu focinho sob nossas mãos, empurando-as para sua cabecinha imunda como se há muito tempo não recebesse qualquer agrado.

A primeira coisa vem à mente numa situação como essa é oferecer comida e água para o animal. Foi o que fizemos, mas ela não parecia interessada nessas coisas, embora parecesse cansada e faminta.

Para evitar a surpresa, e sabendo qual seria a reação das mães (minha esposa e sua filha) quando chegassem, achei prudente prevenir minha esposa, para que ela não fosse rude. Pedi a ela que fosse paciente, pois a cadelinha não deveria ficar conosco; certamente iria embora assim que abríssemos o portão.

Bem, ela não foi. Na verdade, mais uma vez, preferiu fazer companhia a Júlia, quando foi buscar um pouco de ração no mercadinho; e voltou com ela, toda serelepe.

Acabou ficando naquela noite.

Na manhã seguinte, à saída de Júlia para a escola, a cachorrinha correu para rua em disparada, mostrando uma certa “alegria”. Pensamos que ela queria voltar para sua casa, pois certamente havia fugido ou se perdido de alguém. Mas, não, ela queria apenas fazer suas necessidades. Aliviada, voltou ainda mais feliz.

Ela havia recusado a ração no dia anterior, então – consciente do mal feito –, ofereci um pouco de pão com leite, o que ela também recusou. Percebi que quando eu pegava a tigela, ela permanecia atrás de mim, como quem brinca de esconde-esconde. Eu virava de um lado, ela ia para o outro, e quando eu devolvia a tigela ao chão, ela se mantinha distante, como se estivesse desinteressada. Não sei por que pensei naquilo, mas resolvi pegar um bocado e oferecer a ela em minha mão. Bingo! Depois de provar o alimento, como se tivesse recebido a minha aprovação, ela finalmente comeu. E quis mais. E assim foi também com a água.

origemFoi seu comportamento incomum que conquistou a todos imediatamente. Uma mascote que não faz barulho nem sujeira, não entra em casa, não come sem receber autorização, não salta sobre as pessoas, não perturba, enfim, um cão que tem o comportamento de uma lady, era um presente que não podíamos recusar. Porém, sendo como uma noviça recém-saída do colégio interno, poderia pertencer a alguém que estaria à sua procura, e logo seria levada de nós.

Origem

Segundo amiguinhos de Júlia, vizinhos nossos, aquela doçura havia pertencido a uma família que se mudara dali, deixando a pet para trás. Chamavam-na de Mel, Melzinha ou Princesa. Seria-nos impossível localizá-los para confirmar a informação, por isso a aceitamos como verdadeira, e escolhemos o nome Mel, por ser perfeito, tanto pela cor de sua pelagem, quanto pela sua doçura. Percebemos, então, que não fomos nós que a adotamos, mas, o inverso.

O susto

Como de costume, passaríamos o dia na chácara de parentes. O calor intenso estimulava nossa permanência na piscina. Júlia, Michella (sua mãe) e Hércules saíram cedo para comprar os primeiros presentes de Mel e vermifugá-la, agendando seu primeiro banho de princesa no pet shop.

Desabituados do convívio com animais de estimação, ninguém pensou em levá-la. Seria a primeira experiência de Mel com a solidão numa casa que ela mal conhecia.

Ao voltarmos, já estava escuro (considerando que estamos em horário de verão, talvez já passasse das oito da noite). Havia chovido bastante, com direito a raios e trovões. E ainda chovia, não tão forte.

cao-molhadoVerônica (minha esposa) foi a primeira a entrar, esperando a efusiva recepção de um animalzinho amedrontado, molhado e saudoso. Todavia, não ouvimos nem mesmo algum barulho que acusasse a presença da mascote. Era muito estranho, pois nos parecia impossível ela ter desaparecido. Afinal, como sair dali, sendo a casa tão protegida, exceto para os gatos que são capazes de escalar paredes? A única saída seria pelo terraço da frente que fica a cerca de três metros de altura em relação à calçada. E cachorros não voam!

frente-casaConfesso que desde o princípio considerei a possibilidade de Mel ir embora, mas, assim, tão rápido?! E sem se despedir? Não, ela era educada demais para fazer um papel tão feio. Duas coisas poderiam ter acontecido: ou ela havia sido roubada, ou teria caído do terraço ao tentar nos seguir, ou, ainda, mais tarde, ao se apavorar com os trovões. É impressionante o que fazem os animais em situações extremas.

De certa forma, foi gratificante ver o quanto ela havia conquistado em tão pouco tempo, a ponto de causar tanta tristeza até naquelas que se mostravam tão avessas à adoção de um animalzinho de estimação. Por outro lado, não foi bom ver o quanto aquilo havia machucado o coração de Júlia. No fundo, eu tinha esperanças de que ela voltasse.

Bem mais tarde, quando Luara, nossa outra neta, chegou para passar a noite, ali estava Mel, no portão, choramingando, já que não podia nos chamar pelos nomes. Estava com uma das patas machucada provavelmente na hora da queda, mas, feliz por estar em casa outra vez.

O quarto dia

entregaA presença de um animalzinho em nossa casa provocou algumas mudanças de hábito. Agora me levanto cedo, mesmo nos fins de semana, para abrir o portão, a fim de permitir que Mel “vá ao banheiro”, e a acompanho em seus passeios levando comigo um saquinho plástico para recolher suas “obras”; é preciso estar atento e manter a tigela de água cheia e fresca; sua alimentação é somente à base de ração balanceada. Mas, o fundamental para ela é o carinho, do qual ela não se farta. Se pudesse, passaria todo o tempo recebendo-o com prazer. Mel é amigável, carente e medrosa, deve ter passado por maus momentos, pois se assusta com facilidade. Seu comportamento é impecável: conhece seus limites, respeita os espaços alheios, adora perseguir gatos, mas sem machucá-los, apenas por diversão. O gato – um siamês que vive na rua – já nem foge mais; ao contrário, hoje pela manhã parou em cima do muro e miou para ela várias vezes, o que a deixou bastante intrigada. Não duvido que dentro de mais alguns dias estejam dormindo juntos…

Torço para ela dure muito. Não será fácil para nenhum de nós ficar sem a doçura de Mel.

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